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By Jô

Esmiuçando qualquer coisa especial

Saturday Church – o jovem gay e seu garimpo de refúgios

E, então, temos mais um, mais um jovem de pele escura e portador de cabelos cacheados que se encontra sem o pai. A mãe tem que se dedicar quase totalmente ao emprego para criar os dois filhos que mal vê, mal vê. Uma tia bem-intencionada e deveras rigorosa só possui o caminho da igreja como o único a ser seguido. A escola ensina que andar fora da linha de expressão custa caro, custa bem-estar, custa roupa, custa paz, e todas essas perdas custam a passar. Por cima de tudo isso, como se fosse um fardo, o que para tantos nem é assunto a ser tratado, uma expressão de gênero e uma atração sexual que, como a própria mãe diz, são problemas para adicionar à conta, e o preço de tudo quem paga é quem tem que descobrir o preço de tudo enquanto tem que aprender a se amar acima disso tudo. É disso que Saturday Church (2017) fala? Sim. Mas também sobre válvulas de escape, da mais bela delas, a arte, e de como se descobrir LGBT é uma jornada injusta, ainda que podendo ser gloriosa, nos raros e ocultos fins mais ou menos felizes.

“Como sussurros de uma estória não contada
Como desejos jamais realizados

É cruel e te deixa faminto

Sozinho”

Eu lembro de assistir Glee (2009) nos sábados de manhã na Globo. Episódios dublados de uma série americana sobre estudantes do ensino médio que entram, com várias adversidades, para o coral da escola. O programa que dá título ao filme também ocorre uma vez na semana, no sétimo dia, numa igreja, um lugar que supostamente é para todos os filhos de Deus, e que muitas vezes expulsa os filhos que Deus fez diferentes dos outros.

Os jovens que eu via em Glee eram diferentes, cheios de defeitos e de sonhos, autoestimas volúveis e pressões sociais que completavam o pacote de ansiedade e relacionamentos abusivos consigo mesmos e com os seus pares. Incrivelmente, mas de maneira bem simples, um professor, profissão para a qual eu estou estudando, reuniu esses alunos e, através da música, ajudou-os a perceber a graça de se trancar para o mundo e se abrir na musicalidade. O mundo os rechaça, e eles se abraçam. Eu me trancava na frente da TV, e meus olhos e meu coração se abriam, até que alguém passasse pela sala e meu dedo nervoso trocasse de canal. Se eu estivesse vendo um programa sensacionalista autointitulado jornalístico, desses bem indiscretos e insensíveis, provavelmente não sentiria tanto medo de alguém ver o que eu estava a assistir. Em Saturday Church, o jovem protagonista Ulysses se tranca para a casa apática onde ele mal pode se expressar e se abre para a noite, onde ser não é um fardo, apenas de existir ainda o ser.

Neste filme de estreia de Damon Cardasis, o jovem Ulysses se encontra na comunidade que a gente não vê à luz do dia, nem no horário nobre. Essas pessoas que não são pensadas enquanto pessoas, que ainda são protagonistas apenas em filmes pequenos como este que inspirou este texto. Pois é, pequeno em orçamento e proporção, mas gigante em representatividade e relevância. E falando do dia e do que é normalizado, enquanto a carnificina é algo que os pais não tiram da frente das crianças, o amor entre dois homens é construído como um monstro de sete cabeças, sete cabeças fechadas para a diversidade de sentimentos. Em uma cena do filme, Ulysses não encontra nenhum dos portos seguros que conheceu na noite, todos abandonados por suas famílias de sangue, mas acolhidos por suas famílias de amor. Ele não os encontra porque é dia, porque o sol não nasce para todos.

Em várias cenas de duração singela, com transições fantasiosas e adição de elementos que elevam os cenários visualmente, transportando o protagonista para uma espécie de realidade aumentada, a música serve como guia para essa viagem, essa injeção de expansão empática através da qual os personagens comunicam-se com ele nos momentos-chave da trama, confessando amores, dores; fazendo até pedidos de desculpas. A arte, não só a arte de fazer vogue nos bailes às margens das noites, mas a arte de se expressar para além do que os cromossomos XY significam para a maioria das pessoas, a arte de não ter vergonha da voz fina, e usá-la! A arte de olhar para os quatro lados e finalmente deixar a linguagem corporal honesta respirar! A arte de ser verdadeiro consigo mesmo através do canto, do piano, da, no meu caso, escrita. Quando o mundo quer que você se esconda, assim como existir é um ato político, ser é um ato artístico.

 

Ulysses tem a noite, os amigos, abrigos e refeições, um primeiro amor, todos como esconderijos. Eu tive aquelas manhãs de sábado, e este blog, e a internet, e, finalmente, o meu amor próprio. Foi e é duro agarrá-lo, porque não são duas ou três vezes por ano, mas amedrontadoras quaisquer várias vezes nas quais me encontro vigiando. Não posso bobear, não sou blindado por dinheiro, e apesar de minha mãe me aceitar, esse privilégio não é um guarda-chuva infinito, e assim como o sol não nasce para todas, assim como o convite para pôr a cara no sol é apenas para as pessoas LGBT que têm o privilégio de ainda ter cara para dar a tapa, há um medo imbricado, anormal, de ser quem se é de verdade. Então, todo refúgio é tudo, menos covarde. Todo refúgio é válido. Refúgio é questão de paciência, de fé, de teimosia, ora ou outra, até loucura. Então, quando numa cena do filme uma mão muito bondosa é dada, o fato de ela ser a de um algoz não surpreende, e é justamente pelo desespero que nos encontramos em situações que nos lembram o quão distantes de seres humanos somos interpretados.

“Faça chuva ou faça sol”

O abrigo pode ser visto como cativeiro, mas é onde a gente constrói forças para conquistar mais espaços, esses que dizem que não nos pertencem, essas universidades, esses horários nobres, esses filmes grandiosos. Afinal, não é de hoje que a gente existe, não é de hoje que a gente resiste, e o mundo, por mais que sonhe que acreditemos o contrário, também é nosso.

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The OA – Audácia, comprometimento e honestidade

Lançada no fim de 2016, o drama de ficção científica da Netflix é umas das mais audaciosas séries originais da plataforma de streaming. Complexa e envolvente, a história mistura espiritualidade e ciência para tratar de empatia e autocuidado. Mas não é sobre o valor artístico ou narrativo da série que estamos aqui, para isso você pode visitar o post que fiz com a cabeça ainda girando após terminar de maratonar os 8 capítulos da primeira parte. continue lendo

Testando, Textando – EXPERIMENTOS COM POESIA

 

E lá vamos nós. Em português, inglês e, enquanto aprendo também pratico, espanhol. Lá no SoundCloud e no Spotify também. O “Testando Textando” virou um podcast com episódio bem curtinhos que são independentes e não segue uma regra temática nem têm dia nem hora certa para chegaram à Internet. Espero que gostem, já tem 10 episódios lá.

Rota de Estudante – Episódio Final

Para encerrar a temporada, recebemos a mãe do criador do podcast.

Rota de Estudante – Episódio 3

Karla é estudante de Letras e bookstragramer. A conversa com ela gira em torno das frustrações e satisfações da vida universitária e consciência de classe.

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Rota de Estudante – Episódio 2

O Rota de Estudante recebe Maria da Conceição para falar sobre raízes, apoio familiar e altos e baixos de morar a mais de 100km de onde ela estuda.

 

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Rota de Estudante – Episódio 1

Neste primeiro episódio, conversamos com Beatryz Menezes sobre estudar na cidade vizinha e honestidade sobre saúde mental e ambiente acadêmico.

 

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Links do Rota de Estudante

O projeto estreia nesta quarta, então, fica ligado nos meios de acesso. Clique nas imagens para ir até as suas respectivas páginas.

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NÃO: isso, hoje, aqui…

Canetas coloridas, daquelas bem brilhosas, repletas de glitter, enfeitadas de ponta a ponta com ilustrações saturadas e, ainda por cima, aromatizadas. Se o seu filho quiser, você dá? Não? Por quê? É por ser fútil? Por ser cara demais? Porque ele não se comportou e não está merecendo? Porque ele já teve não e cuidou bem? Porque ele é menino?

Para o meu pai, apenas uma das perguntas acima importava. Eu cresci aprendendo que o não que ele me dava não era isolado, mas parte uma rede de atitudes e pensamentos que não me lembro quando começaram. Foram acontecendo e se tornando parte de mim, de como eu me vejo a partir do que as pessoas dizem que é ou não para mim. Só sei que, quanto mais eu era impedido de fazer algo por ser menino, mais me doía perceber o quão refém do que tenho no meio das pernas eu sou. Eu pensei que era só para razões biológicas, mas meus parentes e professores e pares foram me dizendo, em sua maioria, que eu ter nascido com um pênis significa que há certas coisas certas para mim e outras não. A parte de eu achar essas coisas bonitas ou não ficou sempre como questão de eu ser curioso demais.

-As canetas?

-Não!

-Um fichário?

-Sim, um fichário, eu quero prender meu dedo no meu próprio fichário. A minha colega acha que eu vou acabar quebrando o tela.

-Não!

-Um caderno com argola amarela e capa de insetos?

-Não!

-E minha cor favorita?

-Roxo? Não!

Foram muitos nãos, e ainda são, se não do pai na papelaria, do chefe que aponta para o meu tênis, da moça da loja de acessórios para celular que insiste em não me dar a capa transparente com, adivinha… glitter, da torcida no estádio que deixa de assistir ao jogo para fazer piada com o meu relógio. Viva a diversidade, se ela for moda, se ela for higienizada, se ela couber dentro de uma caixa em um intervalo sagrado de tolerância fabricada, táokei?

É só um material, que você leva para a escola, que você manuseia quase todos os dias, que te acompanha na coisa que você adora fazer, que teria adorado ainda mais, aposto, se tivesse crescido usando o que te agrada. É só um material, então, não faça um auê e se conforme, tem gente que nem isso tem, você poderia ter, mas não vai. Se quiser passar despercebido, se quiser ficar sem um beliscão, pegue o que eu quero. É só mais uma escolha que não te deixam fazer. E se você teimar… Ingrato, amostrado, birrento, mimado, estranho…

Tudo isso e mais um monte, tudo obstáculo para a gente não querer ser viado. Sim… qualquer desvio do ápice másculo te torna um (DES)VIADO. E ser desviado, da igreja ou da masculinidade, é ruim, né? Então, diante daquele pacote de canetas de 8,80, me vi entre o 8 e o 80 mais uma vez, pois para meu pai, ou você é o homem ou você é outra coisa, um algo detestável, tantas vezes silenciado, em si fechado, em suas cores recusado. Eu o entendo, e não o odeio, o 8 ou 80 é dele, não precisa ser meu, já foi, mas não mais. Eu posso ser homem, e posso ser gay, às vezes sou todo meu, outras vezes, o mundo me rouba de mim.

E para cada centavo e cada cor daquele item proibido, um pedaço de uma criança com mais um pouco de seu coração partido, sendo apresentado a um mundo que o quer macho, discreto, forte, rígido, monocromático… não importa se isso é sua verdade ou se é fruto de um roubo de liberdade.

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