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By Jô

Esmiuçando qualquer coisa especial

Num passe de amor próprio

Só foi eu me tornar agnóstico
Os pesadelos se dissiparam
Pude me mexer algo acordar

Só foi eu deixar meu cabelo crescer
Meu espelho parou de me bater
Meus olhos para mim brilharam

A culpa é dor que perdura
A feiura é reflexão suja
Me disseram tanto
E eu custei a me escutar
Não foi tarde demais
Decidi crer em mim
Decidi crescer em mim
Quis ir, decidi ficar

Primeira, minha

Uma parte de mim
Naquela embriaguez debutante
Era mais real, enfim
Mais meu do que tudo antes

Um beijo gelado
De um whisky qualquer
Eu em teus braços
Chamegos de colher

Bem que eu não planejei
E por isso que deu certo
Você faceiro e esperto
Nossa primeira linda se fez

Mesmo me entregando, eu era meu
Porque me escolhi ser teu, ali
E você me pegou porque eu te quis assim
Nos roubando, só que do mundo
Nos presenteamos um ao outro

A primeira vez com consentimento
A gente torce para não esquecer
Para não esquecer como é
A gente torce para lembrar
Para lembrar como tem que ser

Besouro

Um besouro preto
Do qual já tive medo
Do qual nutri raiva
E mantive em segredo
Sobrevoa minha cabeça
A zunir e a me roubar
Do que eu me dei

Meu pai dá um OK
E uns dez reais
E eu baixo a cabeça
E eu baixo a cabeça
E eu me calo
E o besouro zune
O besouro faz
A vontade de meu pai

Não dói uma dor
Fácil de gritar
Então fecho os olhos
Para pedaços de mim
Não cairem e doerem
Mais de uma dor

Todo mês, sem falta
Todo mês, sinto falta
De poder me escolher
De poder me viver
Para além dos míseros
Permitidos centímetros
Aos quais teimo e padeço
Me apego e me mutilo

Eu deixo meu pai satisfeito
Eu deixo o besouro ir e vir
Eu deixo condenarem os inocentes
Fios de um cabelo proibido de se amar

Temo nunca crescer
Nunca deixá-lo crescer
Nunca me reconhecer
Sempre ser pequeno demais

Se pudessem
Cortariam
Meus lábios
Meu nariz
Mais

just maybe

if you find me
anywhere
on that surface
that reflects everyone

tell me to see me
to not ignore anymore
and maybe I’ll listen
give myself some self-love

behind the dead light
and this void, oh so high
who knows I’ll survive
to draw brighter lines

if I let myself dive
no promises allowed
and somehow I find pride
then I’ll own my ups and downs

epifania, euforia, representem-me

e às vezes, por mais do que você deveria, de tanto estar acostumado a não ser lembrado, você não se dá a glória de se ver e se perde na ilusão de que sua existência não é relevante

e essas vezes são tão raras e subestimadas que você tende mais a menosprezá-las por sua escassez do que admirá-las pela sua resistência em causar uma pequena fissura no teto de vidro

mesmo o espelho sendo uma esfera, de algum modo, ele quase nunca está virado para você com a mínima nitidez, e quando isso acontece, então, assumir que é só mais um truque não parece a ideia mais pessimista. sonhar em se ver cansa porque quando você desperta fica fácil não se encontrar onde as pessoas prestam atenção

então, se o seu reflexo é embaçado, podado, coisa miúda que quando ocorre com dignidade nem o próprio dono o valoriza, a sua vivência se torna subvivência até para quem a protagoniza, e agonia fica ainda mais aguda quando não respeitada, e as migalhas de respeito se dissipam no espelho quando as manchas são esparramadas ao invés de assumidas

não é só um café com leite e sem açúcar, não é só um pacote de salgadinho de cebola esquecido aberto em cima da mesa, não é só o vazio de visibilidade, mas a crença construída desde nascença de que não há luz suficiente para iluminar uma pele tão escura, não há palco tão forte que suporte o peso de tal gordura enquanto segura todas as luzes, que ainda assim, não bastarão. sempre falta algo, e a falta se torna o motivo mór da adoração da exclusão como um algoz imbatível

mas hoje não é como tem sido, só por um segundo, a gratidão triunfa sobre a conformidade, e o auge da autoestima é a consciência de que a imperfeição não é algo que se herda, diferente da desigualdade. por uma hora antes de o sol nascer, antes de a conta de luz abusiva chegar por baixo da porta e a perna da cadeira rachar, do outro lado do espelho há um brilho que conversa com o seu. eles são irmãos que mal se veem, que mal se reconhecem, que mal existem para além de seus ninhos ditos não-rentáveis

hoje a esfera não parece maior para você, mas você se vê maior do que te sonham, porque, na realidade, pequeno é o pensamento de que a justiça é serva da estética. amanhã, a euforia do agora epifânico pode ser só uma mancha prestes a ser esparramada na tela desligada, mas hoje não tem sido assim


texto inspirado na série “Euphoria”

 

ESPECIAL “Entre Brechas, Abram Alas” (part. Wellington do TonComenta)

Inspirado no post sobre produção de conteúdo por classes populares, abaixo você encontra um episódio excepcional do Rota de Estudante. Ouça no Spotify, no SoundCloud, no Castbox ou no seu agregador de podcasts preferido.

 

Entre brechas, abram alas

O que é normal

Ao pesquisar por um vídeo de tour pela casa, por um tutorial de slime ou uma receita de uma sobremesa no YouTube, é fácil imaginar que você não espera um conteúdo produzido em um celular de custo mediano para baixo, com uma parede sem reboco ao fundo e um protagonista que peca em sua oratória. Mesmo procurando algo com que você se identifique, raramente você encontra algo que reflete a sua realidade, e isso é como as coisas ainda funcionam na maioria das vezes. Só que a maré tem mudado, e pessoas mais parecidas com você, menos simétricas e mais palpáveis, têm ganhado espaço na plataforma de vídeo mais acessada da Internet.

Eu lembro quando, durante o intercâmbio, ao fazer uma espécie de diário virtual das minhas descobertas no Canadá, fui descoberto por um grupo de intercambistas do Sul e Sudeste. Pessoas que foram pagando começaram então a caçoar de quem foi através de um programa estadual. O eu de 2015 se sentiu pequeno diante daqueles perfis xenofóbicos que questionavam a validade da minha presença no exterior. Aquele jovem com grandes sonhos e expectativas excluiu os vídeos e ficou na sua. Aquele jovem hoje faz este post, não porque não há mais quem caçoe, mas porque há mais vontade de falar do que medo de quem não quer ouvi-lo.

Como chegamos até aqui

Aposto que você já deve estar cansado de ouvir as palavras “advento” e “Internet” no início de uma frase que fala sobre mudança, inclusão, transformação, seja ela positiva ou negativa para quem profere tal clichê.

Uma das primeiras verdades trazidas pela Internet foi a facilitação do acesso rápido e sob demanda a informação, só que isso, até a chegada dos smartphones e das redes Wi-Fi, era coisa reservada para quem tinha dinheiro para comprar um computador de mesa ou notebook. Mesmo assim, a revolução das tecnologias móveis com o lançamento do iPhone (2007) foi só o começo, exclusivo para quem podia tirar do seu bolso para investir em um desses aparelhos, os únicos do seu tipo no mercado na época.

Hoje, temos não só vários tipos de smartphones, mas vários tipos de usuários e propósitos para a aquisição desses pequenos grandes instrumentos. Em 2018, onze anos após Steve Jobs apresentar-nos o seu telefone inteligente e com bem menos teclas do que estávamos acostumados, já tínhamos mais celulares ativos (220 milhões) do que habitantes no Brasil (208 milhões). Quanto mais o tempo passou, mas modelos apareceram, mais competitivo ficou o mercado, e mais fácil ficou de conseguir um celular. Isso significa que até os detentores de um único salário mínimo passaram a ter algo que só os mais estribados tinham uma vez empunharam.

Uma diferença geracional nítida é que eu tive meu primeiro celular com 15 anos, e ele nem tinha acesso à Internet. Enquanto isso, meu primo, de 8, já tem tablet e só não tem telefone porque não precisa ligar para ninguém. Eu confesso que, ironicamente, a última coisa que faço com meu celular é ligar para as pessoas… (Coitado do aplicativo de Telefone do meu telefone.) Outro abismo interessante é que minha bisavó nem tem televisão na casa dela, um rádio já basta. Minha avó, a filha dela, por outro lado, tem uma smart TV, e apesar de não saber ler, tem seus YouTubers preferidos, dentre eles, uma dos quais falarei mais adiante.

O lugar do pobre

O lugar do pobre então é acessando os mesmos espaços que o rico, pelo menos virtualmente, pelo menos aqueles que são gratuitos, justamente os mais movimentados. Mas até pouco tempo atrás, não era comum ver uma pessoa de baixa renda sendo, além de consumidora, produtora de conteúdo, porque assim como é raro haver um negro numa turma de estudantes de Medicina, é peculiar ver uma pessoa que não anda em círculos de porcelanato e aço escovado não só se mostrando na Internet, mas ganhando notoriedade e dinheiro com isso.

Eu lembro de um exemplo áureo do pobre enquanto estrela do conteúdo e esse conteúdo enquanto algo rentável. A página “Bode Gaiato”, no Facebook, hoje um clássico, traz vivências, linguagem e estética propriamente nordestinas que são caricaturescas e exageradas, mas não desrespeitosas, o que não se pode dizer o mesmo dos sotaques que muitos atores globais do Sudeste injetam em seus personagens ditos nordestinos. E então, chegamos a nossa grande diferença: quando você se descreve e não é mais apenas descrito, a sua imagem é realmente sua, ainda que coberta por diversos feixes de preconceito de classe. Quando você tem o poder de se mostrar, não há uma emulação alheia impregnada de conceitos superficiais e que, até quando recheada de boas intenções, falha em te representar dignamente.

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Fonte: https://www.facebook.com/BodeGaiato/photos/a.653549091375020/2556547147741862/

 

Do jeitinho que for

Se há espaço para o pobre acessar, e há vontade dele de criar, não existe palco mais largo e barato do que a Internet. E se pararmos para pensar, os segmentos aqui tratados, de vlog, tutoriais e esquetes nada mais são do que retratos da vida de seus protagonistas, o que implica diretamente a inclusão dos elementos que compõem o seu dia a dia, seja ele elitizado ou marginalizado.

Então, quando pensamos em uma YouTuber do interior do Ceará, o que deve nos surpreender não é a sua existência, mas a sua solidão. Não há muita gente que se veja capaz de produzir conteúdo leve e pessoal, simplesmente porque a rede que compõe esse ambiente não reflete nem incentiva muita diversidade que saia da linha de grandeza tornada banal, quando, na verdade, ter uma casa chique é a exceção, e ter uma casa dita humilde é o comum. Então, por que não temos mais YouTubers que tenham a nossa cara e o nosso jeitinho se a maioria das visualizações que sustentam o YouTube vem de celulares que não são top de linha, que acessam a Internet de um plano pré-pago ou de um pacote domiciliar básico e são segurados por mãos que não manuseiam vários cartões de crédito diariamente?

O mais refrescante e animador nos exemplos trazidos aqui é que eles são do pobre que chega a milhares (e quem sabe, um dia, milhões) de visualizações sem querer emular a vivência do rico, sem ostentar, sem entrar em dívidas absurdas para fingir um poder aquisitivo, para se enganar em um falso pertencimento a uma classe que não é a sua. Alguns deles, como o Anderson (@Andercrazyy) fazem até sátira sobre suas características físicas e condições financeiras -tantas vezes rechaçadas e diminuídas- sem alimentar nenhum complexo de vira-lata e endossando um amor próprio que contrapõe a inferioridade tradicionalmente ensinada a quem tem menos (traços europeus ou verdinhas na carteira) nesta nossa sociedade capitalista.

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Eu já me questionei se mereço e devo estar na universidade. A Lucélia, a Bianca e o Seu Nilson já se questionaram se o YouTube é lugar para eles. Nós continuamos, e há olhares que nos cercam e nos interpretam como impostores, alienígenas insolentes, almas audaciosas que não sabem onde estão se metendo. Enquanto isso, nós continuamos, e mudamos as caras da universidade e do YouTube, porque elas não são estáticas, e nossas existências não são as mesmas dos nossos antepassados, ainda que carreguemos as cicatrizes e fardos que não são inerentes a nossa pessoa, mas que os senhores de pele branca, dentre alinhados e cabelos lisos querem que acreditemos ser.

Nós temos mais consciência do que acreditamos, e muitas vozes só querem que nos calemos, que nos mantenhamos em nossos lugares de espectadores passivos. Entretanto, nossa vontade de falar independe de quem quer nos ouvir, ou como diz Victor Hugo, “não ser ouvido não é razão para silenciar-se”. Entretenimento diversificado não é só ócio e prazer, é pavio de pulga atrás de orelha, ponto de ignição para alguns porquês.

No nosso caso, não é sobre não ser ouvido -já que a Internet é cada vez mais acessível-, mas sobre não ter nossa voz bem quista. Tem gente que lê os textos que eu faço na universidade. Tem gente que assiste aos vídeos da Lucélia, da Bianca e do Seu Nilson, uma delas é a minha mãe, que era refém da televisão para poder assistir coisas como “Senhora do Destino” em um determinado horário, mas hoje vê o que quer, quando quer, em sua televisão inteligente. Hoje, ao invés de se ver numa imagem não tão fiel em uma novela, ela se vê refletida na tela ligada e desligada.

Quando nos virem

O simples e grandioso fato de nos conectarmos é uma forma de resistência. A Internet veio para ficar, e nela, já não somos apenas os olhos cheios de admiração pelo que não temos e a lamentação pelo que não temos. Somos isso quando nos falta consciência, mas somos fortes e orgulhosos quando ela vinga, seja menina ou em abundância. Seja em um blog com pouco mais de 200 seguidores, em um canal que o YouTube custa a monetizar, em um Instagram que serve como piadas para alguns, nós existimos, nós queremos nossa parte em todo lugar.

Quando eles nos veem, têm medo, porque nossas verdades são mais complexas do que eles imaginam. Não importa a qualidade da câmera, a precisão da edição, o maniqueísmo do roteiro. Se há minoria falando, há minoria se conectando, correndo o risco de se perceber maioria, erguendo senso de valor e criação, documento sua cultura, deixando de ser invisível. Quando nos atrevemos a ocupar espaços que não parecem feitos para nós, nos tornamos arquitetos de nossas trajetórias, adentramos o que eles jamais sonham para nós, nossa voz.

Saturday Church – o jovem gay e seu garimpo de refúgios

E, então, temos mais um, mais um jovem de pele escura e portador de cabelos cacheados que se encontra sem o pai. A mãe tem que se dedicar quase totalmente ao emprego para criar os dois filhos que mal vê, mal vê. Uma tia bem-intencionada e deveras rigorosa só possui o caminho da igreja como o único a ser seguido. A escola ensina que andar fora da linha de expressão custa caro, custa bem-estar, custa roupa, custa paz, e todas essas perdas custam a passar. Por cima de tudo isso, como se fosse um fardo, o que para tantos nem é assunto a ser tratado, uma expressão de gênero e uma atração sexual que, como a própria mãe diz, são problemas para adicionar à conta, e o preço de tudo quem paga é quem tem que descobrir o preço de tudo enquanto tem que aprender a se amar acima disso tudo. É disso que Saturday Church (2017) fala? Sim. Mas também sobre válvulas de escape, da mais bela delas, a arte, e de como se descobrir LGBT é uma jornada injusta, ainda que podendo ser gloriosa, nos raros e ocultos fins mais ou menos felizes.

“Como sussurros de uma estória não contada
Como desejos jamais realizados

É cruel e te deixa faminto

Sozinho”

Eu lembro de assistir Glee (2009) nos sábados de manhã na Globo. Episódios dublados de uma série americana sobre estudantes do ensino médio que entram, com várias adversidades, para o coral da escola. O programa que dá título ao filme também ocorre uma vez na semana, no sétimo dia, numa igreja, um lugar que supostamente é para todos os filhos de Deus, e que muitas vezes expulsa os filhos que Deus fez diferentes dos outros.

Os jovens que eu via em Glee eram diferentes, cheios de defeitos e de sonhos, autoestimas volúveis e pressões sociais que completavam o pacote de ansiedade e relacionamentos abusivos consigo mesmos e com os seus pares. Incrivelmente, mas de maneira bem simples, um professor, profissão para a qual eu estou estudando, reuniu esses alunos e, através da música, ajudou-os a perceber a graça de se trancar para o mundo e se abrir na musicalidade. O mundo os rechaça, e eles se abraçam. Eu me trancava na frente da TV, e meus olhos e meu coração se abriam, até que alguém passasse pela sala e meu dedo nervoso trocasse de canal. Se eu estivesse vendo um programa sensacionalista autointitulado jornalístico, desses bem indiscretos e insensíveis, provavelmente não sentiria tanto medo de alguém ver o que eu estava a assistir. Em Saturday Church, o jovem protagonista Ulysses se tranca para a casa apática onde ele mal pode se expressar e se abre para a noite, onde ser não é um fardo, apenas de existir ainda o ser.

Neste filme de estreia de Damon Cardasis, o jovem Ulysses se encontra na comunidade que a gente não vê à luz do dia, nem no horário nobre. Essas pessoas que não são pensadas enquanto pessoas, que ainda são protagonistas apenas em filmes pequenos como este que inspirou este texto. Pois é, pequeno em orçamento e proporção, mas gigante em representatividade e relevância. E falando do dia e do que é normalizado, enquanto a carnificina é algo que os pais não tiram da frente das crianças, o amor entre dois homens é construído como um monstro de sete cabeças, sete cabeças fechadas para a diversidade de sentimentos. Em uma cena do filme, Ulysses não encontra nenhum dos portos seguros que conheceu na noite, todos abandonados por suas famílias de sangue, mas acolhidos por suas famílias de amor. Ele não os encontra porque é dia, porque o sol não nasce para todos.

Em várias cenas de duração singela, com transições fantasiosas e adição de elementos que elevam os cenários visualmente, transportando o protagonista para uma espécie de realidade aumentada, a música serve como guia para essa viagem, essa injeção de expansão empática através da qual os personagens comunicam-se com ele nos momentos-chave da trama, confessando amores, dores; fazendo até pedidos de desculpas. A arte, não só a arte de fazer vogue nos bailes às margens das noites, mas a arte de se expressar para além do que os cromossomos XY significam para a maioria das pessoas, a arte de não ter vergonha da voz fina, e usá-la! A arte de olhar para os quatro lados e finalmente deixar a linguagem corporal honesta respirar! A arte de ser verdadeiro consigo mesmo através do canto, do piano, da, no meu caso, escrita. Quando o mundo quer que você se esconda, assim como existir é um ato político, ser é um ato artístico.

 

Ulysses tem a noite, os amigos, abrigos e refeições, um primeiro amor, todos como esconderijos. Eu tive aquelas manhãs de sábado, e este blog, e a internet, e, finalmente, o meu amor próprio. Foi e é duro agarrá-lo, porque não são duas ou três vezes por ano, mas amedrontadoras quaisquer várias vezes nas quais me encontro vigiando. Não posso bobear, não sou blindado por dinheiro, e apesar de minha mãe me aceitar, esse privilégio não é um guarda-chuva infinito, e assim como o sol não nasce para todas, assim como o convite para pôr a cara no sol é apenas para as pessoas LGBT que têm o privilégio de ainda ter cara para dar a tapa, há um medo imbricado, anormal, de ser quem se é de verdade. Então, todo refúgio é tudo, menos covarde. Todo refúgio é válido. Refúgio é questão de paciência, de fé, de teimosia, ora ou outra, até loucura. Então, quando numa cena do filme uma mão muito bondosa é dada, o fato de ela ser a de um algoz não surpreende, e é justamente pelo desespero que nos encontramos em situações que nos lembram o quão distantes de seres humanos somos interpretados.

“Faça chuva ou faça sol”

O abrigo pode ser visto como cativeiro, mas é onde a gente constrói forças para conquistar mais espaços, esses que dizem que não nos pertencem, essas universidades, esses horários nobres, esses filmes grandiosos. Afinal, não é de hoje que a gente existe, não é de hoje que a gente resiste, e o mundo, por mais que sonhe que acreditemos o contrário, também é nosso.

The OA – Audácia, comprometimento e honestidade

Lançada no fim de 2016, o drama de ficção científica da Netflix é umas das mais audaciosas séries originais da plataforma de streaming. Complexa e envolvente, a história mistura espiritualidade e ciência para tratar de empatia e autocuidado. Mas não é sobre o valor artístico ou narrativo da série que estamos aqui, para isso você pode visitar o post que fiz com a cabeça ainda girando após terminar de maratonar os 8 capítulos da primeira parte. continue lendo

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