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By Jô

Esmiuçando qualquer coisa especial

Em 2019…

  • Testando, Textando: Sabe aqueles poemas postados ao longo de novembro? Então, eles estarão disponíveis no canal do YouTube do blog. Dei uma editada em alguns e, é claro, o fator voz vai dar ainda mais significado às produções.
  • Rota de Estudante:Também chegando no YouTube, será publicada semanalmente uma série de conversas com estudantes que estudam onde não moram. Será uma espécie de entrevista misturada com depoimento e troca de ideias sobre essas vivências. Aguardem!

O blog entrará nessa vibe mais audiovisual nesse primeiro trimestre, mais audio do que visual, rsrs, vamos por etapa.

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Literalmente

Pobre da mente
Que tanto mente
Que se prende
A ser literal mente
Literalmente não
Pura débio ilusão
Frustrando o coração
E a mente em solidão
Sem o afago do figurado

Depois de um pouco, outro

Quando a gente se percebe marginalizado, seja em casa, na escola, no trabalho… Quando a gente vê que existir é diferente para a gente, há dor, há medo, há uma angústia em busca de uma estabilidade, que logo se torna segredo. É fácil, então, se isolar em guetos, em becos de aceitação, em ninhos reclusos de ilusão. Enquanto o mundo se conserva homogêneo com todos os seus ambientes e atitudes normalizadas, temos que fingir estarmos saciados com as migalhas que pigmentamos entre trunfos clandestinos.

Para mim, foi fácil assistir séries, colocar o fone de ouvido e entrar num casulo de mundos alheios, ser expectador de felicidades distantes, tornar-me dormente para com o desrespeito à minha volta. Foi fácil não querer sair do quarto, não querer passar das saudações forçadas, não fazer questão de ficar mais meia hora na calçada, porque minha voz foi ficando mais apagada, e eu só a sentia ouvida nos fóruns sobre séries, atrás de um pseudônimo que falava mais alto em uma frase do que eu em uma tarde inteira na fazendo dos meus avós.

Para mim, foi fácil ser apenas o inteligente, o quieto, o que não é como os outros, o que tem seu ritmo. Foi fácil me enganar e escrever e ler sobre o que eu sentia demais e o que faltava também. Guardei tudo, na aba dos favoritos, nas folhas embaixo do colchão, na nuca quente, nos dedos trêmulos, nas madrugadas de questionamentos e descobrimentos silenciosos.

Para mim, foi fácil focar, ficar, fixar em mim. Tudo que era meu foi se tornando orgulho ou remorso, e ninguém soube, e nem ninguém se importou o suficiente para querer saber. Eu fiquei mais refém, mais dependente de minha capacidade de me manter ocupado com minhas paixões. Elas se tornaram exageros, venenos, facas lentamente adentrando meu peito e me cegando em sequências de prazer e arrependimento estonteantes. Realmente, como aguentei tanto tempo, isso sim é fascinante.

Enquanto eu me privei, me poupei, me bastei… O mundo fez o mesmo. Enquanto eu me distraí e me fiz acreditar que os problemas não existiam, os causadores deles mantiveram-se no controle de seus confortos, e eu me enganei ao pensar que o meu era tão válido quanto o deles. Pensei que minhas bolhas eram magníficas, mas as tomei como morada, e não como farol. Deixei-me atrofiar em grandezas particulares enquanto tentei me convencer de que não fazia muita diferença não conversar com quem não queria conversa.

Agora, na subida em busca de consciência, me vejo extremamente frágil, inapto a ser mais do que uma parte de mim, decrepito e atrasado. Por um lado, sou tudo que se pode admirar dentro da bolha. Por outro, sou uma criança perdida nas possibilidades de si mesma, tendo que recolher todas as oportunidades secas no chão e, em vão, tento hidratá-las, mas os tempos são outros, e as iniciativas que me chamam agora não esperam que eu colha as flores incertas de omissões passadas.

Meu lugar é onde eu quiser estar. Por tanto tempo, mais do que consigo lembrar, quis me satisfazer com o cantinho aconchegante das minorias, mas cada vez mais me dou conta de que não é justo exigir felicidade apenas de uma esfera da minha existência em sociedade. No trajeto no qual me encontro, reconheço que é tanto um dever quanto uma necessidade me ligar com mais pontos de convivência, falar e me expressar até quando não sou bem quisto, passar a viver sob a noção de que vale mais a pena tentar ocupar os lugares onde desejo estar do que renegá-los apenas porque não sou uma força centrípeta deles.

Alívio? Até quando?

Assobio
“Elogio”
Asserção
Apropriação

Silêncio
Insalubre
Insensato

Suspiro
Suado
Assédio
Não assalto
A salvo…
São…
Intacto…

Suspiro
Sucinto
Suscetível
Desabo
A salvo?
Ah, alvo
Há contato
Ah, fatos…

Testando, Textando (30/30)

Nem a opção
Nem a abertura
Liberdade é loucura
Mera exibição
De ninar, chacota

Nem paciência
Nem compreensão
Para… tá feio… tá sem nexo…
Crer é si é ilusão

Ninguém diz
O que tanto falta
Meia dúzia de palavras
Nem precisam ser afagos
Apenas certificados
De há, sabe, algo
Além do que está dado

Nem é pedir demais
Nem peço, nem ouso
Ninguém respeitaria
Ninguém respeita…
Nem é nada demais
Nem é nada, mas…
Faz uma falta danada

Nem uma fenda
Nem uma referência
Nem uma tranquilidade
O campo é minado
O topo só fica mais alto
E eu, mais eu, mais desajustado
Sem em quem me apoiar
Me desencontro insatisfeito
Faço por fazer
E o querer…
Quero o fazer valer

Sigo, comigo
É bem difícil
Ser meu amigo
Quando todo indício
Nada sútil ou terno
Me manda ficar esperto
Andar na linha
Senão vou pro inferno

Testando, Textando (29/30)

E, desde de manhã
O excesso de um
Virou o do outro
Antes era tanto
Agora tão pouco
Controle, consolo
Tensão, preocupação
Fivelas no coração

Meu corpo
Novo escopo
Velho casco
Parece novo
Tão longo
Tão flexível
Compreensivo
Não compreendo
Como posso
Ser tão leve
Tão capaz
A tal ponto
De tropeçar
E não cair
De chorar
E não borrar
De gritar
E não perder a voz

Mais pouco
E eu transbordo
Não preciso mais
Agora sou tempestade
Antes era só o copo
E não me basto
E não me puno
E não paro
Cada toque é um impulso

Como nunca
Leveza na nuca
Dedilhando nada
Nenhum neurônio em brasa
Nenhum futuro presentificado

Quase flutuo
Sinto sentir tudo
Naturalmente astuto
Sobra-me intuito

Testando, Textando (28/30)

Tem gente pedindo
Tem gente pedindo
Um pouco de si
Entre as lágrimas
Entre os ônibus
Entre os prazos
Entre os sonhos

Tem gente perdendo
Tem gente se perdendo
E também o ônibus
E também as pausas
E também o tempo
E também o sono

Tem gente querendo
Tem gente não se querendo
Como o seu Deus o fez
Como sempre tem sido
Como é fundo o abismo
Como o espelho é terrível

Tem gente sorrindo
Tem gente partindo
Dessa para nenhuma
De agora para nunca mais
Dessa mesmice para aquela
Tem gente finalmente
Nada mais do que existindo

Testando, Textando (27/30)

E se fosse fácil
Ninguém quereria
Não teria freguesia
Se não fosse sofrimento
Não haveria comoção
Nem toda essa atenção
Livros e podcasts dedicados
Palestras, charlatões engomados
Não seria tão fácil ser enganado

E se o oposto não existisse
O preço nunca seria tal alto
Ninguém levantaria o braço
Suplicando por mais um pouco
Ninguém se entregaria ao sufoco

Se não fosse a dor e a depressão
O silêncio da cruel insatisfação
A constância da banal frustração
A felicidade, coitada, nada valeria
Seria só mais uma flor numa manhã fria
Coberta mediocremente pelo orvalho
Esperando o vento e o sol secá-la
Não seria tão distante, tão adorada
Talvez, ora ou outra, até pisoteada
E ao invés de escape, pausa nos traumas
Seria insossa planície de paz na alma

Testando, Textando (26/30)

Relaxe
Respire
Reflita
Renasça

De pedaço
Em fracasso
Do fim
Da constância
Da ânsia, angústia
Das certezas, a última

Queira não se querer demais
Seja menos homem, rapaz
Seja mais vivo, tanto faz
Não há nada, mas há paz

Sinta-se vibrar, ranger
Estourar, deixe-se conhecer
Ouça a pele estilhaçar
Beba o néctar sem gosto
Flutue para além do agora
Não pense em outrora

Exista porque existe
Respiração toma tudo pra si
E, sem telas e atrasados e adiantamentos
Sem degraus, sem portas, só em si mesmo
Respire, relaxe, reserve-se por um momento

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