Longas caminhadas significam muito mais do que familiaridade, principalmente em um mundo cada vez mais necessitado de manifestações criativas realmente genuínas. Orphan Black, que começou como uma experiência eletrizante, uma ficção científica repleta de elementos de suspense bem ornamentados, findou, com suas cinco temporadas, se transformando em mais uma trajetória de desenvolvimentos esperados e surpresas fabricadas sem nenhum sinal de riscos respeitável tomados. A intimidade construída através dos anos com os fãs foi superestimada, e a capacidade dos espectadores em geral de identificar uma estória contada sob padrões nada ambiciosos, também.

Apesar de um último ano bastante consistente quanto à execução das explanações, o mais questionável é a relevância dos eventos e a sua basicamente inexistente exorbitância. Faz sentido terminar a aventura de autodescobrimento com o vilão [Stephen McHattie] que criou as protagonistas, mas o peso de tal personagem cai por terra quando ele não é nada além de uma montagem nebulosa e estereotipada de um maníaco por imortalidade que faz de tudo para garantir sua longevidade. Sem sombra de dúvida, o desfalque que mais impressiona nem está nos atos supostamente inescrupulosos tomados pelo antagonista, que poderiam ter qualquer outro algoz os cometendo e não perderiam nem um pouco do seu já mínimo potencial. A verdadeira e mais marcante insatisfação fica por parte da falta de atenção do roteiro em costurar todas as pontas deixadas em relação ao desmascaramento completo da organização científica criminosa que o tal criador das clones ornamentava por baixo dos panos, diretamente daquela ilha.

Ilha aquela que saiu dos trilhos e perdeu a pouca atratividade que tinha quando deixou de ser apenas o pedaço de terra no qual Susan [Rosemary Dunsmore] se abrigava e passou a também hospedar uma aldeia de experimentos e experiências genéticos meramente posicionada para introduzir o personagem que, como já foi elucidado, não contribuiu lá essas coisas para a galeria de vilões da série. Além disso, pessoas como a Virginia [Kyra Harper] e o Mark [Ari Millen] voltaram apenas como elementos narrativos baratos, dependentes de suas apresentações anteriores e jogados de paraquedas nessa realidade decrépita, que danificou não só a temporada, mas suas estrelas também.

Sim, por conta do destaque dado a última e mais insossa busca por respostas, clones ficaram apagadas e as interações entre elas, consequentemente, mais escassas, o que poderia ser perdoado caso as dinâmicas instituídas com os coadjuvantes fossem interessantes, o que não aconteceu. Cosima [Tatiana Maslany] foi deixada de lado, numa espécie de prisão ambígua e cheia de rodeios vazios, enquanto Alison [Tatiana Maslany] foi simplesmente tirada de alguns episódios, com a desculpa de um descanso que não caiu nem um pouco crível, especialmente quando se leva em conta o contexto de perseguição que o roteiro tentou reafirmar, mais através de palavras do que de qualquer coisa, episódio após episódio. Por fim, flashbacks e retomadas estritamente contemplativas, sem a adição de informações pertinentes, fecharam esse comboio de elementos frágeis, defensíveis apenas de um ponto de vista muito parcial.

Sarah [Tatiana Maslany] cumpriu seu papel de sempre, sendo ácida e inconsequente toda vez que era possível. Enquanto isso, Siobhan [Maria Doyle Kennedy], como era de se esperar, foi um alvo de sacrifício fácil, e mesmo tendo um encerramento meloso, é inegável que ele foi coerente. Kira [Skyler Wexler] continuou aleatória como nas últimas duas temporadas, e suas premonições não foram sequer exploradas com o mínimo de ceticismo. Por fim, Helena [Tatiana Maslany], a maior e mais explorada fonte de empatia da série, sugada até a última gota, até mesmo em um apelo tão sem fundamento quanto vários momentos da temporada, ao relevar que o nome de seu livro é “Orphan Black”, mas não dizer o porquê.

Bem, pelo menos não temos do que reclamar quando lembramos o quanto Helena evoluiu e como a mutação da imagem dela ganhou significados aprazíveis sem perder pitadas de estranheza. Sua relação de irmandade transbordou os laços sanguíneos com Sarah e acabou tornando o elo entre as clones muito mais afetivo do que conveniente e necessário, trazendo ainda mais humanidade, no sentido emocional, para elas.

E o lado emocional de OB até que funcionou, só houve erro no exagero da sua ocorrência. O último episódio sofre dessa síndrome de apelo emocional desproporcional, mas a série se voltou tanto para esse lado que não é possível apontar outro caminho final. Se correr, Helena pega, se ficar, ela pega também.

Resumindo, pode-se dizer que a busca pelo equilíbrio após as inconstâncias da terceira temporada e a recuperação triunfal da quarta foi bem-sucedida, tanto que se atrelou à mesmice e dela não saiu. E mesmo a mesmice de Orphan Black estando acima da média, nenhuma obra está acima da percepção crítica.

Resoluções fáceis ao extremo, considerações afoitas e temática de um mesmo tom. É assim que podemos definir essa última temporada de uma das produções canadenses mais merecedoras de sua notoriedade. E embora o roteiro não tenha feito nada muito além de preencher as caixas básicas para entregar um fim aceitável, o resto da ficha técnica continuou impecável, sim, até a trilha sonora usada e abusada. Tatiana continuou dedicada às atuações, ainda que com menos oportunidades de nos maravilhar. Enfim, ficam as lembranças dos tempos melhores das primeiras duas e quarta temporada. Fica a certeza de que valeu a pena. Fica a sensação clara de que os vestígios do fim poderiam ser mais do que são; afinal, a série um dia já foi mais do que se pensava dela.


1163O que mais agradou: A momento realmente surpreendente no qual fomos guiados a pensar que a série iria repetir truques antigos e então ela nos presenteia com algo simples, mas muito mais agradável. Krystal [Tatiana Maslany] mereceu suas cenas de atitudes inteiramente suas, mesmo que a ignição de tais cenas tenha sido clichê à beça.

1171O que menos agradou: A falta de sustância nos episódios. Longos diálogos que contemplam muito e não provocam quase nada só servem para preencher a duração padrão do episódio e fazer a gente ter a impressão que se dedicar à série é uma perda de tempo.

P.S.: Sem prolongações extensivas, vamos só apontar a super conveniência da redenção da Rachel [Tatiana Maslany], né? Além de totalmente fruto da trajetória da personagem, essa mudança de atitude viabilizada pelo descobrimento da verdade sobre a interpretação de seus superiores sobre ela teve um impacto deveras leve.

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