Estória oitentista na pista
Drogas, negócios maniqueístas
Destinos na linha do fogo cruzado
Ambições e escapes no risco gerados
Juventude em rota de perdição
Substâncias e aflições em circulação
O que se perde é a inocência, é roubada
O que se ganha é a manha, a jornada

O moço negro e inteligente de bairro pobre
Que não se encaixa nas oportunidades nobres
Que não tem figura paterna e vai para as drogas
Sem outra saída a não ser jogar a complacência fora

O detetive, o moço em busca de realização
Preso no meio de uma incerta certa confusão
Vítima voluntária de abutres que estão por vir
Ciente das quedas futuras, incapaz de delas se despir

O fracassado, sonhador, usado, ludibriado, pau-mandado
O mais corrompido, derrotado literal e emocionalmente
Sem casa, sem família, sem esperança, escravo da agonia
Sem características que o levem além do vira-lata de sempre

Estória de vários tentáculos, aspectos
Abordagens múltiplas, núcleos espertos?
Muita amplitude é contundente atitude?
Trajetos demais trazem imersão que satisfaz?
Neste caso, nenhum caso se torna especial
Não há tempo para desenvolvimento ideal
Todo destaque é raso e todos têm buracos
Para completar, a conexão nunca se torna fato
Nem é atiçada, nem indicada de maneira sutil
Todos entram na corrida, nenhum vai a mil
A validade da proposta perde validade, sim
O começo e o meio têm a mesma excitação do fim
Toda massa é batida, nenhuma é assada
Três estórias são instituídas, nenhuma aguçada
Porque até nas escolhas mais básicas há falhas

Clichês onde quer que haja espaço
Clichês até no que não faz diferença
Clichês que podiam ser facilmente evitados
Clichês até nas mais fúteis insistências

A fotografia é um show que até anima
Fora ela, tudo segue praticamente a mesma sina
A falta de foco polarizador, linhas compartilhadas
O excesso de falas vazias, motivações de fora deixadas
Assim, embora as cores sejam coerentes e vibrantes
Todo o resto da produção é experiência frustrante
Porque nem de perto nem de longe há autenticidade
Ficamos sempre carentes da tal essencial boa inverdade
As informações são básicas e primárias demais para engolir
Os atores até tentam honrar os papéis, mas não há muito o que fingir
A densidade nunca chega a compor realmente o que é dito ou feito
Dessa forma, toda ação e consequência tem frágil, esquecível efeito

Anos oitenta, sim, com música bem contemplado
Fora isso, pouco do contexto histórico é valorizado
Não há atenção que se preze e que ancore a gente
A atmosfera só na introdução cativa eloquentemente

FX errando nas doses, acertando na questão
Trazendo diversidade, sem a devida lapidação
Investindo em tramas que restringem o talento negro
Pecando na qualidade, acaba enfraquecendo o seu peso
FX certamente não fazendo por mal, mas fazendo
Manchando sua grade, estereótipos e desvantagens mantendo


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