Sentada no batente da cozinha, a centímetros da fera canina, segurando a xícara com a mão direita, o pão sem manteiga na esquerda e a vergonha apertada entre as pernas, ela treme, mas o frio se despediu horas atrás. Os impulsos involuntários são reflexos que a perseguem.

A forma com a qual ela devora aquela massa é estranha, vagarosa, descompromissada com os mosquitos que pousam em sua testa, ombros e dedões. Há poeira por toda parte, principalmente na dobra de sua vestimenta que toca a superfície por onde tantos pares de sapatos passam, toda hora, todos os dias. Apesar da agonia que emana, ela parece estar em paz, na verdade, em transe, longe de tudo que a faz a pessoa da qual tanto se reclama, reclamam.

“Por que sentou-se aí, sozinha?” perguntou o pai, ao passar rapidamente por ela no caminho para o seu quarto. “Nada não.” disse a moça, com uma entonação mediana, sem atitude ou certeza. É um domingo, quase 7h, enquanto uns ainda dormem, outros jogam futebol, arrumam a casa e as malas, fogem para o riacho, alimentam prazeres comuns e curiosos. Entretanto, quando o telescópio é voltado para essa menina, nenhum movimento ou sentimento é previsível, cada manhã é um desafio, pois ela nunca ousa fazer palpites sobre como despertará.

Todos temos nossas oscilações emotivas, quase sempre conseguimos assimilá-las e encontrar a rota menos danosa para vivê-las. Todavia, a questão da dona do pão infindável e café estupidamente frio é mais profunda e complexa, chegando a ser incompreensível até mesmo para a sua protagonista. “Não sei.” é o que é dito regularmente. Infelizmente ela está sendo honesta consigo e com quem pergunta, pois o labirinto sentimental é um problema tão grandioso quanto os anseios da moça. Para ela, abrir os olhos após uma noite de sono é sinônimo de desafio, dúvida, instabilidade e tortura. Mesmo quando as emoções são positivas e radiantes, até que elas tomem controle sob a situação, o medo de que seus primos depressivos apareçam é inevitável.

Agora, com o copo e as mãos vazias, ela se dirige à pia, onde avista não só um afazer, mas uma oportunidade de adiar interações diretas com as pessoas, pois estas são a porta de entrada para sensações desconfortantes que, muitas vezes, findam em discussões vazias, mas deveras nefastas e de efeitos duradouros.

“Bom dia! Está quieta hoje, aconteceu alguma coisa?” disse a mãe da moça ao se aproximar da pia, com o pano de prato e uma postura exploradora. “Só estou… um… com um pouco de preguiça.” afirmou, mais uma vez, sem carregar as palavras com a imponência de dias mais invejáveis.

Imagine-se em jogo de estratégia, inventado neste exato momento. Nele não existem maneiras de predeterminar os movimentos do seu adversário, nem de saber qual dos dois tem mais chances de ganhar. A moça vive esse jogo desde muito cedo, mas foi com a chegada da adolescência que o ritmo dele se alterou drasticamente. Uma nova rodada começa toda vez que o sol é empurrado gentilmente para fora do horizonte. Cada uma das etapas faz parte de uma disputa maior, que levará a vida inteira para ser definida. No tabuleiro, a menina é apenas uma espectadora, enquanto suas índoles esperançosas e pessimistas brigam por relevância e recorrência.

A mãe, entre a pia e o armário, lança pequenas tentativas de iniciar uma conversa com a filha sobre as aulas, as amizades, os planos para a semana. Ela está acostumada a se trancar em sua solidão e a agir a partir de um modelo de conduta neutro, no qual todas as suas contribuições para os diálogos são genéricas e indiferentes. Ela acredita, com as forças que lhe restam, que ninguém é capaz de entender, em nenhuma instância, o trauma vivido dia sim dia não.

Do ângulo mais íntimo, ela está certa, pois nenhum outro ser, por mais estudado e experiente que seja, está apto a interpretar os engasgos pelos quais ela passa constantemente. Nem ela sabe onde pisa.

“Fulana, está onde?” grita a mãe da moça, sem retorno. “FULANA!” novamente, sem resposta. A moça está presa em outro cenário, imaterial, porém um tanto mais aprazível, tentando ignorar a realidade espinhenta, só até ela esvaecer e ser suplantada por algo muito ruim, ou razoavelmente bom. Quando a mãe coloca a cabeça na porta do quarto, acena e avisa que está saindo; a moça pausa a música, e diz “OK.” Sim, já está no quarto. Sim, já responde. Sim, não sabe como foi parar ali, como recomeçou a interagir. Só é, só faz.

As pessoas a esquecem provisoriamente porque não processam o que está acontecendo. Ela. Esquecida por si mesma, porque não sabe por onde começar. Esquecida até que um dia melhor venha, até que a inspiração a possua e a alegria momentânea seja a plenitude mais bem apessoada, mais bem instalada em sua vida. E aí, outro capítulo sombrio, em uma manhã qualquer, aparecerá. Mas aí, é outra história, outra rodada, outra perda.

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