Desde não sei quando, com a interferência de sei lá quem, tudo que vivo parece já ter sido vivido, soa repetitivo, não tem gosto de extraordinário. Como sempre, então, me ponho a averiguar, a pensar sobre as possibilidades e razões. Contudo, só encontro becos sem saída, grafitados com as velhas sensações de incapacidade. De tanto procurar dilemas e defeitos, eis aqui uma grande questão, sem pistas, em vestígios. O que faço não exprime nenhum grau de satisfação.

Bem que eu queria ser como os meus primos; meno marcado pela passagem dos anos, dono de prazeres simplórios, disseminador de alegrias fáceis. Todavia, eu sei como jornada é, como boa parte de nossos pedidos é perdida, jogada no poço de desilusões. Logo, me recomponho do jeito que posso, engulo mais um dia, tento amenizar a intensidade das expectativas, mas continuo refém da agonia.

Quando não determino certa coisa como já experimentada, cismo com qualquer outra característica, afasto-me e torno-me centro do transtorno; despedaço a esperança e renovo a descrença. Rabugento como jamais me vi, tenho raiva e dó de mim; choro por dentro e me bato mentalmente, desconheço todas as rotas de momentos contentes. É tão frustrante e injusto que eu mal consigo me recuperar, quando outra onda vem e me derruba. Apesar de ensaiar a desistência, minha tolice me resgata e me aguenta, por mais que eu teime em me menosprezar.

Opto pelo raciocínio mais comum e fatal, rotulo o fenômeno como uma fase, um período de aprendizado. Só assim fico quieto, mas não totalmente conformado, pois sem a graça da fuga na cultura, sou obrigado a me encarar. Sem a máscara do entretenimento, bebo do meu próprio veneno, sou ignorado pelos meus talentos, por isso perco o controle e a vontade de tudo.

Se mal me movo e me identifico no meio dos reflexos, também não tenho a mínima ideia de como será o futuro. Qual versão de mim sairá das cinzas, qual flor do meu subconsciente desabrochará quando essa tempestade cessar. Por enquanto, sob observação, nem sei quem vai me levantar; só sei que qualquer faísca pode ser A faísca, mas minha alma está muito úmida. Confesso ao universo que voltar a apreciar arte é a minha única chance de cura e salvação, visto que nunca fui amado, nem por mim mesmo, fora da minha expansão.

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