Primeiro beijo

Apenas um moço animado com o caminho e a caminhada sem ter que segurar a mão da mãe. Sonhar de oportunidades mais duvidosas, braços abertos para a abertura de um novo capítulo na jornada em busca da felicidade. Mas não parei nos sorrisos desconcertantes, nem nos carinhos aparentemente involuntários. Fui além de uns dois copos de Whisky, de umas duas horas de vídeos de pop coreano, de uns dois mil giros no corredor entre a sala de estar e a área de serviço. Foi minha primeira vez como um bêbado, minha primeira sequência de insanidade com direito a espectadores, meu primeiro toque em um insensato e familiar nível de brasileirismo.

Os sentidos… Al-te-ra-dos, INTENSIFICADOS, baralhadosem rapidamente; Logo comecei a me conhecer como nunca, dei início a uma vivência sob um ritmo tóxico e muito surreal, externo, estranho, poderoso. Meus amigos também… abriram as bocas, as pernas, os braços, cantaram músicas antiquadas e inéditas, me beijaram em lugares que eu nem sabia que era possível alcançar com a boca. Quase a mesma geração, na mesma condução, verdadeiros em cada tropeço, límpidos em todos os julgamentos não feitos, donos de todas as vergonhas dissipadas. Eu, ali, só vi beleza e prosperidade, vitalidade, fluidez, honestidade e vontade de mais.

Quase no fim, um beijo, uma mordida, um pedido mais invasivo, um movimento ocular mais persuasivo. Mas não fui, nem sei o porquê, mas a palavra “se” ainda me persegue. Será que a satisfação proposta seria a recebida? Quase no fim, uma rejeição, uma despedida desconfortável, uma lição de moral vinda de um bêbado, para um bêbado. Dois de nós estávamos quase lá, no outro da coisa; eu estava quase lá, quase na pele do deveria ser, enfim, naturalmente, meu povo; quase lambendo o tempero tupiniquim que fervilha em mim, mas algo me puxou para longe, me jogou no colchão, no chão, de qualquer jeito, como nunca foi feito.

Cale a boca, foi só isso. Uma chance jogada fora, uma jogada de amador, uma demonstração de fraqueza, franqueza, delicadeza, despreparo.

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