Há origens, e há maravilhas, às vezes elas se misturam, mudam de respeito, de valor, mas sempre deixam uma marca impossível de apagar. Por isso, hoje é dia de lembrar e sorrir, chorar, pular, fechar os olhos e correr para debaixo do chuveiro. Eu, assim como você, tenho uns lados bem ocultos dos episódios que todos vivemos em algum momento de nossas vidas. Iniciações são comuns, mas a forma com a qual lidamos com elas, não. Então… Vamos mergulhar, com cautela, nessas lembranças tão hostis e atraentes?

Primeira morte

Ainda vejo todas as cores perdendo brilho naquela tarde de meio de semana. Os rostos, encharcados e manchados, mudavam a cada piscar da luz no canto da caixa chamada existência, flutuavam fazendo ruídos e emanando uma energia alienígena. Não sei muito sobre o protagonista, “afinal, no final”, não importa quem está no paletó de madeira, mas o que tal pessoa provoca naqueles que a veem na última situação.

Eram quase 16h, eu cheguei, levemente engomando, com um semblante de dúvida e um olhar atencioso para com uma configuração visual da qual jamais havia participado. Ao adentrar a casa do meu bisavô, onde sua mãe estava sendo velada, não entendi aquela predominância de obscuridade, pois ainda não tinha aprendido o que a morte representava quando não podia ser evitada. Entre familiares distantes e estranhos indecifráveis, deslisei assimilando o fator extraordinário do evento, uma máscara inconfundível da conduta humana.

Todos os cômodos principais estavam lotados, ecoando conversas soturnas e choros mal coordenados. Por mais caótica que aquela aglomeração parecesse, havia uma harmonia bastante hipnótica, mas nem um pouco sadia. Quanto mais fundo eu mergulhava naquela atmosfera, mais me sentia abraçado pelo momento mórbido. Ali, diante de algo tão absolutamente inevitável, experimentei um amargor maior do que todos os desprazeres vividos até então. Daquele ponto de vista cada vez mais turvo, a resiliência automática definhou, nenhum pirulito nem ranho ao chão faziam-me sequer pestanejar.

Anúncios