Por mais peculiar que uma estória seja, a crescente familiaridade com ela possibilita a ocorrência de grandes oportunidades de consolidação. No entanto, o perigo também sonda a naturalização pela qual os personagens passam ao longo do tempo que convivemos com eles. Na televisão, saber quando acabar e ter o acontecimento do fim são elementos que raramente coexistem.

The Leftovers, apesar da condensação primorosa de seus ícones físicos e filosóficos, teve uma temporada final quase não tão estável quanto se esperava, mostrando que os alicerces de personagens, principalmente quando, como no caso, são respeitáveis e inesquecíveis, apresentam também complicações em serem honrados. Tentar redefini-los seria uma tolice. Mesmo com menos episódios, no entanto, o aproveitamento muito intimista por tanto tempo foi mais desgastante do que em qualquer outro momento da produção, deixando-a não menos rica, mas menos ágil e pertinente em suas colocações. Afinal, por mais válido que um ponto seja, a sensatez de sua extensão jamais deve ser subestimada.

Orçamento mais modesto, reafirmação de personalidades, lapidação de conceitos e repetição da abordagem mais que adequada de cada episódio orbitando um personagem diferente. No fim, o protagonista ainda é Kevin [Justin Theroux], mas ele não é o único com e merecedor de protagonismo. Até Matt, o mais fanático dos personagens, no auge de sua devoção solitária e dedicação desnorteadora, conseguiu levar um dos oito capítulos inteiro nas costas, fazendo da estética e do ritmo particular uma jornada a ser apreciada, pois é através da empatia que a série torna todo ponto de vista do universo estabelecido na primeira temporada formidável, dando o destaque para a diversidade de ideais que a produção buscou e obteve êxito ao explorar após ir além da uma adaptação de um livro que foi em seu primeiro ano.

Todo mundo é um lembrete diferente do 14 de outubro, o título do seriado está no plural, os vestígios são plurais, seus hospedeiros também. Uma série sobre a humanidade, sua proximidade e seu distanciamento consigo mesma não se faz apenas com um homem e seus demônios internos, nem que ele seja tão bem construído e interpretado quanto o Kevin foi.

Ainda que todos tenham papéis relevantes, uns mais evidentemente do que outros, é Nora [Carrie Coon] quem divide o pôster e a força central da série com Kevin. Saiu de uma posição de coadjuvante, ergueu-se em todas as suas cicatrizes e traumas de ter perdido os filhos e o marido, e acabou mais forte do que nunca, na configuração social e emocional mais inóspita da produção, uma vez que, Kevin Pai [Scott Glenn], apesar de ser o mais desconexo, possui uma ligação com Matt que Nora nunca chegou perto de ter com o Kevin. Todas as tentativas dela de pertencer ao mundo simplesmente caíram por terra, não importado o quão sofisticadas ou sólidas elas aparentassem ser, na superfície. Quando a alma não acredita em sua recuperação, não há ação que seja capaz de reverter o quadro que já não é uma situação, mas uma nova vida. Não há como reaver o que tanto se sente falta quando parte de quem sente a falta também se foi.

O mais difícil para a Nora é com certeza acreditar na sua felicidade, no seu conforto com qualquer coisa da sua realidade. Tudo a leva à beira de precipícios que foram muito bem mostrados no episódio #302 na forma da tecnologia que não funcionava quando a usuário era ela. E nem precisou mostrar as coisas funcionando normalmente com outras pessoas. Toda essa atmosfera de pessimismo e má sorte é um reflexo muito fiel e palpável de como ela se sente por dentro, ainda viva no sentido mais óbvio, só que morta nas maneiras que realmente fazem a diferença no fim do dia.

Por fim, se aproximando de nós, ela se esconde atrás do ceticismo, da desvalorização da crença alheia, porque não consegue crer na cobertura que a fé dá para as pessoas. E é nessas atitudes vis que a gente vê o quão desesperada por um propósito que a distancie da sua verdade mais inescapável ela está. Tão graciosa, a atriz não transcende uma emoção simples, a personagem não pede isso.

Já Kevin precisou olhar para si para encontrar a saída de si. Talvez essa seja a mensagem mais forte que a série tenha a entregar dentre todas as roupagens que a fé tomou nessa última temporada (inclusive na rotatividade da trilha sonora da abertura). Crer em si mesmo não é uma tarefa qualquer, talvez a mais difícil de todas as enfrentadas pelos personagens de The Leftovers. A questão que institui esse drama com ainda mais validade é o fato de Kevin não ser considerado importante para além de si mesmo. Por isso, o moço perturbado é visto como especial no sentido religioso e repugnante segundo as normas da sociedade que renega a lembrança do evento que deu o pontapé do desconforto todo. Ele não é plenamente um messias, nem um louco, e foi justamente entre esses dois picos que sua perdição se manteve (a segunda temporada e a decadência do controle dele sobre si foi uma das jornadas de auto[des]conhecimento mais imersivas e consistentes da televisão), fazendo dele um escravo da necessidade, também fabricada, de ter respostas sobre a inexatidão de suas interpretações do mundo e de como as pessoas o veem. Por que Kevin tem que ser só uma coisa quando o ser humano, inerentemente, não é? Ao se olhar no espelho, mais metáforas, mais respostas em perguntas, mais satisfação na ausência da satisfação pela qual ou dia se sacrificou. A tranquilidade vem quando há a conscientização de que a tranquilidade nunca virá. Não somos igapó, somos mares.

Realmente? Uma terceira temporada que pode ser definida como uma grande conclusão, uma despedida reservada e não tão apoteótica. Após uma segunda temporada que expandiu as fronteiras do roteiro e do universo coordenado por Damon Lindelof, a majestade de The Leftovers foi concentrada na nossa familiaridade com os personagens, no aproveitamento desse último ato para nos dar a oportunidade de conhecer mais dos lados que já haviam sido estabelecidos e pincelar coisas que poderiam ter acontecido caso os personagens não fossem tão governados por seus defeitos. Mas se não fossem, não seriam tão inspiradores, porque não seriam tão humanos em níveis tão exorbitantes.

1163O que mais agradou: Destaques para Laurie [Amy Brenneman] e Kevin Pai, mesmo que exijam mais empenho e atenção do espectador, mostram como os roteiristas são corajosos e como souberam distribuir muito bem o tempo desses últimos capítulos. Nessas partes, o que pode ser visto como enrolação por olhares mais pragmáticos, é na verdade a chegada de holofotes a personagens antes deixados de lado, usados apenas como muletas, boas muletas, para os que sempre ficaram no centro. A redenção do roteiro veio rica em construções identitárias, fortes e marcantes, que não deixaram nada a desejar tanto por serem retratos complementares instigantes quanto por demonstrarem o talento dos atores e a capacidade dos contadores da estória de manipularem os focos para dar espaço para quem o merece sem tornar a jornada mais complexa do que já é.

1171O que menos agradou: Analogias bíblicas voltaram, mais fanáticas e insensivelmente jogadas na trama do que nunca. Isso sim foi exaustivo. Um tiro no pé desse elemento que um dia foi distintivo e adequadamente consolidador do propósito intelectual da produção. Matt, por exemplo, teve um episódio só seu, como na temporada passada, só que ao invés de artifícios narrativos cuidadosamente utilizados como ingredientes para fundamentar as referências cristãs, o roteiro tomou uma rota de divagação satírica e apática, alheia à naturalidade elementar.

P.S.: O retorno de personagens-chave deu aquele velho gosto de nostalgia e ainda por cima tornou a evolução final do protagonista mais explícita. Foram símbolos novamente, novos, exclusivos da situação alucinógena do epílogo, verdadeiras cartas de amor para quem acompanha a série e para o que ela representa não só temática quanto tecnicamente.

P.S.: Você quer uma catarse metalinguística? Episódio #307 do começo ao fim, amigo! 

Anúncios