REFLEXO DO POST “Cru

Alma…
Vira-lata
Tem alma?
Alma de vira-lata
Lata, latinha, sucata
Alma, alminha, barata
Barata, bueiro, madrugada
Madruga, ratazana, trabalha
Pega ônibus, pega, coleciona ônus

Sangue…
Sangue nos olhos
Vermelho, tesouro, miolos
Miolos, fervem, se matam
Não aguentam, coitados, vão
Fracos são os que uma hora param
Param e reclamam, deliram, anseiam

Ecos…
Ecos de tiros
Ecos de gritos
Ecos de feridos
Ecos perdidos
Miram, atiram, recarregam
Concentram-se, acertam, acertam
Derrubam, silenciam, controlam
Retardam, desfazem, pacificam
Ecos de ordem, de homogeneidade
Ecos de uma força, uma honra, a verdade

Bicos…
De beijos ilícitos
De peitos escondidos
De fuzis fumegantes
De ideais infelizes
De relâmpagos

Mitos…
Da laicidade
Da igualdade
Da democracia
Da cidadania

Sertão
Dá-me mais chão
Mais suor em vão
Mais abuso de patrão
Mais coronel e chicotadas
Mais escolas desmoronadas
Mais vacinas expiradas
Mais miniaturas de carcaças

Abortem…
Os fetos ricos
As esperanças pobres
A consciência pesada

A carne…
É fraca, é falha
É apressada
É fatídica, ordinária
É nossa

Noites de inverno
Mantos de papelão
Cadáveres mais mortos
Envoltos em friorento descaso

Dias de verão
Ensaio de inferno
Uns compram o suportável
Outros engolem excremento de carro

Ei, eu sei
Eu, eu já vi
Eu, pode parar
Ei, a vida é assim

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