Eu já deveria saber que a última vez não foi a última, que você e eu ainda somos os mesmos de duas semanas atrás. O discurso que me dei foi o de sempre, e agora me encontro decepcionado sabe-se lá o porquê, sabe-se lá até quando, talvez até que eu me deixe ludibriar pelos sinais em nosso favor que o universo nunca manda. Sou teimoso e, sabe, só fico porque nem dói tanto quanto merecemos. Não fazemos o suficiente para sentirmos a dor que merecemos. Ainda, porém, é esmagador, só que, no silêncio do desdém, fica pequeno, mesmo que internalizado, aos poucos, cada vez mais, normalizado.

A gente se abandonou sem nunca ter nos dado uma verdadeira chance. Eu nunca disse meu sentimento em sua mediocridade completa, você nunca sorriu olhando no meu olho. Fomos empurrando delicadamente, jamais com violência banal, nos maltratando através da privação de sabermos se valemos a pena um na vida do outro. A gente se esquece do ideal, perde-o entre os lençóis amassados e as refeições apressadas. O banho é frio, o abraço é superficial, o elo é qualquer.

Eu faço mais por mi do que por nós. Prefiro a solidão, mas não te liberto nela, ainda não. Sempre tem um amanhã no qual uma coragem sem precedentes virá nos socorrer de nós mesmos.

Não sei porque temo tanto me entregar a mim mesmo. Me viciei na noção de te ter orbitando meu campo de visão, mas as coisas que faço reconhecendo sua presença são tão poucas, tão propícias a serem só minhas. Eu me sinto tão pouco culpado. Tudo é tão insosso que a crueldade nem chega a me fazer gritar por dentro. Esse é o nosso desencanto, nosso fel tão brando.

Em momentos de embaraço mor, eu tento apontar razões externas para justificar a nossa inexatidão. Fico quieto, pensativo, fingido. Lugar nenhum me vem porque eu não aceito a necessidade de me despedir do limbo que compomos. Somos duas âncoras solúveis, duas bússolas degringoladas, duas pessoas que não são nem companheiras nem inimigas. Termino onde comecei. Não mais nem menos zonzo, volto a ignorar a nocividade da nossa desatenção para com nossa situação.

Você esquece de dar boa noite. Eu esqueço de cheirar tua camisa. Você não me beija desde a selfie de férias. Eu não me preocupo em ser teu desejo. O fim sempre é mais distante do que precisa. O agora sempre é buraco negro que não nos suga. A melancolia não é aumentada nem reconhecida. A nossa história continua a não ser escrita.

Anúncios