REFLEXO DO POST “Ainda há

E basta querer?
Se entregar ao sofrer
Saber que assim será
Que a batalha sempre vencerá

Quem é que bate o gongo?
A vítima, o começo do fim
O desdém definhando enfim
O medo se esvaindo truculento
A timidez desmoronando por dentro

Que presentes hão de cair do céu?
A certeza de lentidão e múltiplo fel
O futuro que não é de ontem nem de si
A tomada da honra da dor, como nunca fiz
O infortúnio mútuo, inerentemente áspero
O grito que floresce calejado e frágil

Quando o oprimido se levanta
Não é mágico como se delira
O pior é a mudança tão microscópica
A força opressora que ainda tanto desatina

Basta a coragem?
A alta voltagem?
O sopro, o pontapé?
O choro, a tal da fé?
Basta ser escravo barulhento?
Basta usar o sangue como tinta?
Basta massagear os hematomas com cinza?

Vida. Querida. Que vida?
Cadê quem na realidade te glorifica?
Cadê os caminhos que não existem?
Cadê as alternativas que nunca erguem?

Fazer das unhas facas
Fazer do lamaçal oásis
Fazer das dores lembretes
Fazer da mente um novo mundo
Fazer da gente nosso maior orgulho
Fazer da queda nosso menor estupro

Se houver refluxo de revolução
Uma gota de cortante satisfação
Se o pessimismo for minimamente suplantado
Será que isso vale mais do que permanecer parado?
Será que o desconforto gerado é mais valioso do que o normalizado?

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