Há uma dor e uma violência
Ambas ignoradas diante da palavra externa
Colocadas para baixo, no canto
Reprimidas até reinarem e renascerem
Ascendentes através das épocas e peles

Há uma razão e uma solução
Ambas conhecidas e subjetivas
Compartilhadas sem nenhuma paixão
Burladas em prol do progresso setorial
Queridas quando é tarde demais

Há uma mulher e uma menina
Ambas vítimas de situações e tempos
Caladas por causa de qualquer evento
Prejulgadas a partir de um mero argumento
Mais dois talismãs da maldição

Gritos nos corredores vazios
Só não se incomoda quem não quer
Quem já se acha injustiçado
Quem não ganhará nada com isso
Quem só vê seu próprio horror

Pedradas na caixa d’água
Só não treme quem não quer
Quem não levanta a bandeira inexistente
Quem não sofre pela mudança
Quem é apenas mais uma formiga
Na doçura da cegueira
Ninguém vê
Ninguém percebe
Ninguém se emociona
Com nada
Por nada
Por ninguém
Nem pensar

Na tempestade salgada
Quase ninguém se molha
Poucos trazem toalhas
Chove guarda-chuva pomposo
Tudo para preservar a fluidez
Da tortura oculta
Da caridade fajuta
Da decência indecente do povo

Entre luas, trens e ônibus
Fugas momentâneas são eficazes
Afastam os fantasmas por um instante
Nos deixam provar da serenidade
Contudo, porém, todavia
Quando amanhece e o motor esfria
Não há para onde correr
É hora de lutar, cair e se corroer
Só mais uma vez
E mais uma
Até morrer
E até depois de morrer

Há uma morte e outra morte
Ambas temidas e mal compreendidas
Uma vestida em ceda e brilho
Outra em flores e beijos repentinos
Uma é repetida exaustivamente
Outra é uma calmaria. Só isso.

Uma casca não muda o mundo
Muda como o mundo se move
Diminui e aumenta e velocidade
A inclinação também perde, e ganha, agradabilidade

Dentes podres
Roupas amassadas
Letras desengonçadas
Corpo e mente arregaçados
Tudo é raiz de opressão
Tudo é desculpa para a solidão
Tudo gera um tipo mitológico de destruição

A vingança é um caminho
Nem todos conseguem enxergá-la
Talvez por medo, pro fraqueza, por indisposição
Talvez por descrença, desânimo, lenta cicatrização…
A vingança é, sempre, um caminho
Adotado de várias maneiras
Hospedando vários anseios
Criando várias curvas
Todos na mais maligna direção

Eu digo “Oi”
Eu levo um tapa
Eu levanto a cabeça
Eu sou esculpido ali
Eu tento escapar
Eu sou derrubado
Eu me calo
Eu sou obrigado a falar
Eu me corrompo
Eu sou reconstituído

Cada um sabe o seu capítulo
De trás para frente
Cada ponto quase final
Cada vírgula inesperada
Cada diálogo tóxico
Cada parágrafo vertiginoso

Cada um sabe seu fardo
Sua culpa não merecida
Sua história não contada
Sua verdade não ouvida

Cada um sabe seu instinto
Sua vontade de desistir
De persistir, de ressurgir
Sua sede de respeito
Sua procura por claridade
Seu sonhos em ruínas

Eu não deveria estar aqui
Isso não deveria -ainda- ser um problema
Vocês não deveriam virar as costas
Eu estou aqui
Isso ainda é um problema
Você ainda vira as costas
Eu estou falando
O problema está prevalecendo
Você o está alimentando

Quer queira ou não
Nada muda em um piscar de olhos
Principalmente se o olhar estiver embaçado
E o olho roxo
E a poeira for jogada nele
E o punho for enfiado
E ninguém fizer nada
E nada [de relativamente bom] for feito


Inspirado no filme “The Dressmaker” (2015)

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