Diversos rostos se fazem visíveis na pequena janela de minha porta; todos com o mesmo simples pedido: um copo d’água. Eu os ouço, cada vez mais claramente; o que antes demorava para me atingir, agora já funciona como algo automático. Eu estou me acostumando com os eventos da desigualdade, mas não deveria.

Quando interpreto tais necessidades como uma coisa normal e, logo, nada espantosa, ponho-me numa posição de conformidade e firo, sem a menor pretensão, o significado do dilema que vai muito além da sede. A cada copo, menos melancolia, mais agilidade e menos sentimento. Os rostos não são só isso; são corpos, vidas, histórias reais corrompidas pela tragédia nas linhas do que um dia foi destino.

Naquele momento, a urgência dos apuros ofusca o resto dos obstáculos, por isso, é essencial absorver, ou pelo menos tentar, a situação inteira, tanto para que a pessoa e sua carga sejam honradas com a nossa compaixão, quanto para que nossos julgamentos, independentemente do que já passamos, permaneça e ascenda no lado solidário e consciente da humanidade.

Entregar alguns mililitros de água, por mais comum que se torne, não deve ser visto como uma mera ação de gentileza. O momento pode transcender o beneficiado e auxiliar na melhoria das concepções do benfeitor.


Tomando minha percepção como ponto de partida, posso acrescentar pensamentos que considero primordiais para a transformação dos nossos critérios e prioridades morais, uma vez que, enquanto indivíduo pertencente a uma categoria mais privilegiada, ainda não alcancei o patamar desejável de empatia para com os rostos carentes.

Desde muito cedo, aprendi que ajudar o próximo é sempre algo a ser parabenizado. Criado em um sistema católico de normas e recompensas, ao crescer, vi que, ao estender a mão, as pessoas que me cercam estão realmente inflando seus próprios atributos, em vez de fazê-lo pela mudança na realidade alheia. Assim, agora, mais solto, faço mais uma assimilação, concluo, até aqui, que meus motivos para trazer alívio para os necessitados nunca foram dignos da alegria que me ensinaram a sentir logo após o ocorrido, pois aquela sensação de prosperidade estava sendo depositada no ego, e não na jornada daqueles calejados pela sua persistência.

Outro quesito que passei a questionar através do surto de honestidade interna é a desvalorização das riquezas que possuo. Erguido na cultura capitalista do consumismo e influenciado implicitamente pelo rumo da ingratidão, constantemente rotulei meus pertences como não suficientes ou ultrapassados, colocando-os sempre um degrau abaixo em função da equiparação com o que é louvado como válido a cada novo segundo.

Quantas vezes aqueles rostos oraram sem o calor de um lençol feio? Quantas vezes ele choraram por não ter bananas de casca preta para findar sua fome? Quantas vezes atrasaram a escrita de seus poemas unicamente por causa da cor da caneta, e também por ela não conter glitter?

Não mentirei dizendo que sou capaz de mudar de uma hora para outra, nem assumirei que é fácil encarar nossos defeitos. Por hoje, apenas semearei a queda da cortina, esperando, sinceramente, que a transição seja relevante. O mundo não mudará instantaneamente, nem completamente, mas continuar na negação certamente não expulsará nenhuma das falhas que o compõem.

Anúncios