“Tomar medidas é fácil
Ficar parado é difícil”

Como a letra da música que acompanha a abertura diz, ignorar é mais árduo do que agir, até porque a ação nem sempre é a mais certo. Mas dificuldade é relativa, e quando há coletividade, lidar com o desejo, a angústia e a coragem se torna um inimigo extra. Nesta quinta temporada, Orange is the New Black mirou longe, não teve tanta potência no tiro, mas acertou alvos surpreendentes de formas ainda assim satisfatórias. Uma morte no fim da temporada passada serviu como base para um renascimento durante toda essa leva de episódios.

Uma rebelião nasceu da negligência com a contratação de guardas para a prisão sob cuidados privados. Desta, apesar de a densidade da promessa inicial ter sido esmaecida antes mesmo do sexto episódio, podemos apontar com louvor as temáticas oriundas do contexto inédito que renderam uma temporada morna, de reflexão, da imersão mais ampla no psicológico das detentas de Litchfield. De falta de protagonismo não podemos reclamar.

Já que a perfeição não acompanha nada, é claro que desfalques são nítidos, embora a extensão do elenco sirva como uma cortina de fumaça que exige que nossa atenção seja restrita a quem está na tela a partir do momento que aparecem nela. Curiosamente, infelizmente, justamente quem fica no centro dos pôsteres da série acabou sendo a figura mais notoriamente flutuante da temporada, quase sem nada para fazer. Piper [Taylor Schilling], com seu teor se relevância e envolvimento que foi de insignificante e tedioso a mediano e meio aceitável, respirou depois da onda de hostilidade postiça do ano passado, mas o custo foi caro, uma vez que sua redenção enquanto personagem só veio através de um ato concomitante de amor com proporções bem pequenas.

Resultado de imagem para orange is the new black season 5 character posterAlex [Laura Prepon] também desceu do pedestal de tensão que havia abraçado anteriormente e ficou apenas como acessório narrativo recheado de incerteza. Ela e Piper se mereceram. As duas formaram uma bússola tonta que não interferiu nas engrenagens principais da temporada. Por um lado, meio triste, por outro, muito formidável, pois estamos falando de uma série que é a mais assistida da Netflix e que já está renovada até a sétima temporada; nada mais sensato do que distribuir o foco central com as demais, deveras férteis, personagens que compõem esse ecossistema tão diverso e representativo. Rotatividade de protagonismo é sagacidade, quiçá nunca beire um abismo.

Falando em ecossistema, precisamos iluminar as várias bolhas sociais que se formaram na penitenciária sem rédeas, capturando muito bem a necessidade do ser humano de pertencer a um movimento, de nutrir um senso de propósito na companhia de seus semelhantes. Abaixo, as que foram mais interessantes.

  • Pidge [Miriam Morales] e Ouija [Rosal Colon]: Da loja de café comunitária à carreira de guardas abusivas;
  • Tastee [Danielle Brookse a sua trupe: As mais politizadas, ativistas em várias plataformas, nunca profissionais, é claro;
  • Frieda [Dale Soules] e seu senso de preservação: Rendeu momentos surreais, um tanto inverossímeis, mas muito divertidos e com uma trilha sonora amistosa para lá da conta.
  • Flaca [Jackie Cruz] e Maritza [Diane Guerrero]: As vlogueiras arrasadoras, muito cheias de autoconfiança. Núcleos de uma amizade jovial e envolvente como nenhuma outra na prisão.
  • Boo [Lea DeLaria] e Linda [Beth Dover]: Que casal, meus amigos, que casal. Uma mais canalha do que a outra, ambas tóxicas do seu jeitinho, gerando uma mistura apimentada, de um entretenimento que manteve a Boo acima da linha da pertinência trazendo uma nova integrante para o elenco em uma roupagem sensual recheada com vergonha alheia.
  • Angie [Julie Lake] e Leanne [Emma Myles]: As loucas, forçadas goela abaixo do meio para o fim de suas aparições. A relevância delas foi como fogo na pólvora, se esvaiu bem rápido. Deixaram elas correrem soltas e perderam totalmente o controle.

Resultado de imagem para orange is the new black season 5 character posterJá outras instituições, antes tão fortes e emblemáticas, desmoronaram, não completamente, mas o suficiente para não resguardarem o valor memorável de antes. Isso é mais um mérito do roteiro que, mesmo sem muito alarde, faz questão de rearranjar, através de alguma distorção, as normalidades que certamente estagnariam a produção, nem que fosse em um pequeno aspecto, certamente não seria um defeito mero. Além do mais, lidar com perdas faz parte da vida, então nada mais eloquente do que integrar uma representação da vida. Red [Kate Mulgrew] já não é a mãe de antes porque os momentos não pedem atitudes do passado. A união agora é outra, há ressurgimento do que nunca existiu.

Imagem relacionadaTambém vale reconhecer o destaque dado à voz da Tastee, que após o roteiro simplesmente deixar Daya [Dascha Polanco] de lado, teve um desenvolvimento variante nas temáticas superficiais, mas consistente na motivação. A morte de Poussey [Samira Wiley] foi a pauta dela do começo ao fim, até quando ela não pôde mais controlar a situação. No fim, desgastada como toda boa líder, suas forças vieram do desabafo, da genuína honestidade de ter chegado ao limite psicológico e físico, coincidentemente, ainda bem, era chegado o fim da rebelião.

Imagem relacionadaSuzanne [Uzo Aduba], tão querida, ganhou uma profundidade que há umas duas temporadas não lhe era dada, e aí voltou à tona o porquê de a Uzo ser tão aclamada. Os tons da atuação são tão hipnotizantes, ela faz a interpretação de todos os distúrbios da personagem parecer tão fácil…. É como assistir a um espetáculo isolado que mostra o quão dependente algumas pessoas são do controle social, da rotina, da mesmice. Suzanne foi o objeto da metáfora, e a dor que sua trajetória exalou nessa temporada não poderia ter sido transmitida com mais maestria sem corromper a integridade do eixo central do roteiro.

Gloria [Selenis Leyva] e Maria [Jessica Pimentel], duas guerreiras lutando pelo reencontro com suas famílias. No meio da luta coletiva, se desprenderam dos ideais gerais e puseram suas liberdades em primeiro lugar. O amor de mãe é tão incondicional que elas foram capazes de trair não só a confiança das pessoas com quem vivem enclausuradas, também traíram a si mesmas, a sua noção de honra e dignidade. Ambas heroínas sem sucesso, perdedoras nas duas esferas, familiar e prisional, maltratadas pela crueldade de uma história que é feita para tocar e arranhar as feridas que a sociedade gosta de esconder. Parabéns aos roteiristas. Sinto muito, Glorias e Marias por aí.

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Doggett [Taryn Manning] e Lorna [Yael Stone], por outro lado, foram as que finalmente conseguiram suas respectivas famílias, não no modelo ou nas circunstâncias mais subversivas, mas após desenvolvimentos dolorosos e coerentemente lentamente arquitetados, com toda a sensibilidade e os fatores externos resolvidos de maneira linear. Enquanto Dogget não teve a influência positiva nem mesmo de sua amiga Boo no seu renascimento em uma relação de amor recíproco, Lorna contou com o apoio moral e emocional de Nicky [Natasha Lyonne], que chegou a fazer o sacrifício de se separar da moça para que ela voasse com as asas que as duas construíram juntas. Uma encontrou o que jamais teve através de mais uma das coisas mais comuns em Litchfield, relações de abuso; enquanto a outra finalmente foi levada a sério como merecedora do amor que ela tanto ansiava.

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O mérito das representações foi fechado com a presença do Piscatella [Brad William Henke] nessa temporada. Apesar de a configuração de conduta do personagem não ser trabalhada para além do seu fator chocante que é estabelecido através da violência, a importância de se ter um personagem homossexual como um vilão que não exala caricaturas providas por estereótipos homofóbicos é imensa. Se por um lado ele não é nada a mais e isso o torna extremamente unilateral, ainda que com o flashback de eficácia questionável, por outro, o simples fato de ele existir em uma série tão popular significa mais um passo, mesmo que pequeno, na direção correta. Contudo, se considerarmos o que OITNB faz pela comunidade LGBTQ em relação ao gênero feminino, podemos ficar de cara feia para os roteiristas, sim, já que o esforço para tornar Piscatella mais válido e complexo apenas não existiu, uma vez que, se voltarmos ao flashback dele, percebemos que sua estrutura é apenas OK, mais um enchimento de linguiça agradável do que uma contribuição intrigante para a história do guarda e seu incessante abuso de poder.

A segunda metade da temporada é seu ponto mais fraco, e ainda por cima, no nível macrotextual. A coesão entre os episódios simplesmente não existe. São desenvolvimentos estupidamente isolados e flashbacks que não surtem o efeito de conjunção com o presente necessário para fazermos as ligações com o mínimo de empatia. Na verdade, está aí outra fonte de desfalques, a qualidade dos flashbacks. Estórias rasas, previsíveis, chatas. Os da Frieda e da Alison foram os que mais se destacaram como menos dispensáveis. No fim, essa estrutura insossa demarcou inegavelmente a falta de uma linha orientadora robusta para toda a temporada, o que fez desses 13 episódios, no geral, serem os menos cativantes. Assistimos por inércia. Salvam-se com picos difíceis de esquecer os #501, #502, #504, #506 e #513.

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O melhor de tudo é que, depois de superlotação e rebelião, vem aí mais uma reinvenção da série, que pode significar um recorde de qualidade ou um ainda maior tiro pela culatra. Enfim, torçamos pelo resultado mais surpreendente positivamente.


1163O que mais agradou: As proporções catastróficas dos três primeiros episódios. E em seguida, o alívio cômico com a humilhação aos guardas como resultado da falta de educação e reabilitação que corrobora a qualidade e a visão de vida daquelas mulheres. Sob o que choca e o que faz rir, a discussão mais que válida sobre o sistema prisional e o que ele faz com as pessoas.

1171O que menos agradou: Bayley [Alan Aisenberg] e a abordagem forçadamente cômica, em alguns momentos, do seu sufoco com a consciência de ter matado uma pessoa por acidente. Parte do fim compensou, foi tocante, mas logo suplantada por mais uma falta de compromisso dos roteiristas para com o personagem, que mesmo tendo sido apenas uma ferramenta para um evento icônico, merecia um final com mais conteúdo.

P.S.: -Burset [Laverne Cox], cadê você? Desaparece do nada, quase não tem desenvolvimento e está simplesmente no limbo da série. Mais um ponto negativo no placar, Orange.

P.S.2: Brincadeiras do tipo com o corpo do Humps [Michael Torpey] são de muito mal gosto.

P.S.3: Guarda mais fofo: Blake [Nick Dillenburg]. Guarda mais divertido: Stratman [Evan Hall].

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