Ouço dizer…
Que a arte nos completa
Nos eleva, nos renova
Emana a nossa existência
Pelos menos é o que me falam.

Mas eu tenho algo a dizer
Ou melhor, eu quero saber…

Cadê o negro que não é bandido?
O que não é comprado, catalogado e vendido?
Cadê o negro que não é só folia?
O que não é mantido na periferia?
Cadê o negro que não é injustamente julgado?
O que não só põe e tira os pratos?
Cadê o negro que tem decência?
O que não simboliza e sucumbe na carência?
Cadê o negro que não baixa a cabeça?
O que acredita na validade da sua beleza?
Cadê o negro que não é mal-qualificado?
O que não é covardemente evitado?
Cadê o negro que pode ser seu advogado?
O que não é descartável?
Cadê o negro que não é burro?
O que não é sujo…

Cadê os negros, os gritos, os punhos?
Cadê a luta, os passos, os frutos?
Cadê a vida, a carícia, a integridade?
Cadê o respeito, o amor, a diversidade?
Cadê a atitude?
A negritude?
A resistência?
A persistência?
Cadê a tolerância?!

Eu quero saber…
…Se a arte que merecemos
É a arte que nos limita?
…Se o mundo que transformamos
Tem que preservar essa ferida?
…Se toda expressão artística
Só é sucesso se for racista?

O preconceito não é invencível!
A mudança não é impossível!
A divergência precisa ser acessível!
No sentimento, no toque, no olhar
Na forma de agir e de pensar
Em todos os palcos da sociedade
Na solidão, na multidão…
Nunca é tarde para questionar

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