De tanto atirar para todos os lados e não acertar, de maneira significativa, praticamente em nada, Unbreakable Kimmy Schmidt entra para a lista das séries veteranas que desperdiçam sua longevidade em abordagens esquecíveis. E por mais óbvia que a lacuna deixada pela ausência de uma rota central maciça seja, a sua permanência até o fim dessa terceira temporada foi o que a tornou ainda mais notória, uma vez que a série, assim como já falamos sobre Silicon Valley, abandonou sua identidade mais sólida, neste caso, de produto de streaming, e foi para a trajetória mais tradicional, impessoal, de episódios com temáticas isoladas e oportunidades de repercussões duradouras desperdiçadas. Pouco empenho, pouco alento.

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Kimmy [Ellie Kemper] enquanto protagonista esmaeceu de vez, perdeu o foco e o rumo. Suas buscas por independência e felicidade se tornaram, assim como o estilo da temporada, rasas. Cada nova desventura, circundada ou não por seus velhos e novos amigos, não foi além do começo-meio-e-fim apresentado no período de meia hora de capítulo, o que não só contribuiu para a formação de uma rotina na estrutura dos episódios, como também retirou qualquer possibilidade de esperarmos algo a mais da proposta instituída na cena inicial que antecede a abertura.

Ainda infantil, nas filosofias e no figurino, mas um tanto mais madura em seu posto de altruísta, Kimmy traz momentos de sensatez que não soam estranhos ao mesmo tempo que não põem a essência da personagem em risco.

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Titus [Tituss Burgess], que desde a temporada ganhou mais destaque e ameaçou a relevância agora perdida da personagem que dá nome à série, não foi muito além de um veículo de referências gratuitas à cultura pop, uma máquina de memes e paródias, assim como um festival de exageros geradores de risadas que são esquecidos assim que os créditos tomam a tela sob fundos vibrantes. Infelizmente, o personagem quase não saiu do lugar, ou seja, mostrou as garras, mas não arranhou ninguém. Tanto profissional quanto amorosamente, tendo uma conclusão avulsa, mas coerente, em relação a esse segundo aspecto de sua jornada tão hiperbolicamente vivida, o furacão da série passou por mais maus bocados do seu nível e triunfou em um total de 0%, justamente o que esperávamos dele.

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Impressionantemente, Jacqueline [Jane Krakowski] teve a maior das transformações. Foi de dondoca abusiva e sem noção a agente defensora de direitos civis, mulher cuidadora e consciente do seu valor para além da beleza exterior padrão e do prestígio financeiro. Mais sutil e paulatinamente desenvolvido, o feminismo aqui funcionou melhor do que na caricatura universitária pintada em minutos de distorções frenéticas e simplistas que puderam ser testemunhadas assim que Kimmy passou a frequentar a faculdade.

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Lillian [Carol Kane], querida, ranzinza e cabeça-dura como sempre, até atiçou o espectador que há tempos sonha com uma mudança em seu quadro, isto é, de modo integral, e não momentaneamente, chegando a ser covarde e banal, como foi feito. É que, infelizmente, ainda que a fita da incompatibilidade dela com o mundo tenha sido trocada, apesar de o motivo da troca ter sido charmosamente fundamentado a partir de seus princípios conservadores e seus problemas psicológicos, a volta à música antiga e já tocada à exaustão foi tão clichê que nem levou o tempo de tela que dignamente mereceria se fosse algo válido para o avanço do núcleo da personagem ou da série como um todo.

No fim das contas, os fatores mal andaram em seus eixos centrais, as temáticas foram simplesmente injetadas nos episódios a serem produzidos e o compromisso com a correlação dos fatos ficou para trás como um ideal inatingível, coisa que não é. É até interessante notar que, com o tempo, ao invés de a série utilizar o conforto de não ter que se provar merecedora da nossa atenção, principalmente quando consideramos a quantidade de conteúdo novo que estreia a todo momento, ela se aproveita de sua popularidade enquanto produção leve e colorida para deixar a peteca cair. Nesta metáfora, a peteca é a qualidade mesmo, e o que decepciona é que Unbrekable Kimmy Schmidt se contenta cada vez mais em ser um ícone postiço, que pode ser desbancado a qualquer momento e não resguarda pertinência para além da intertextualidade superficial e da militância de gênero e de orientação sexual que faz quando bem quer.


1163O que mais agradou: As loucuras de Titus, as suas famosas gambiarras e acidez nos comentários ao mundo dos famosos. Cada diálogo é uma sacada, que mesmo sem levar a lugar nenhum, às vezes, com os absurdos que os roteiristas poderiam usar com mais frequência e ascendência, surtem efeito prazeroso em meio à plasticidade do resto dos elementos. Os atores estão, por sinal, consideravelmente mais à vontade com suas representações de estereótipos sob a lente cômica surreal pela qual a série ficou tão conhecida.  

1171O que menos agradou: A recorrência do problema do abrigo na forma do reverendo [Jon Hamm] e da amiga [Sara Chase] da Kimmy que acha o máximo se aproveitar da sua imagem de vítima de abdução. Além de ter sido mal contemplado pelo roteiro em questão de método de abordagem, a conclusão também nem beirou o mínimo da satisfação, ficando em aberto para ser arrastada mais uma vez ano que vem.

P.S.: O crossover com OITNB foi bem tímido, um agrado para os fãs das séries.

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