Parece que o feitiço virou contra o feiticeiro… Não é mesmo?

Nada mais coerente do que começar este balanço com uma frase clichê, já que o objeto desta análise atualmente tem se resumido a isso, uma ornamentação que já foi engenhosa, hoje, barata que não gera e nem subverte expectativas, segue o curso que se espera dela e entrega resultados que nem precisamos tentar prever, em embalagens não tão factícias, mas que também têm um prazo de validade não muito confortante e admirável.

Extremamente repetitiva, logo, insatisfatória em vários níveis, Silicon Valley retornou mais fraca do que nunca em sua quarta temporada, fazendo uma retomada insossa e nada memorável do que constitui os seus primeiros anos. Isso porque os perrengues vividos pelos protagonistas, que até o ano passado formavam uma manta interessante e instigante de desventuras que sempre ascendiam em surpresas condizentes e inteligentes, agora não passam de invenções momentâneas que acabam entregando a falta de uma orientação geral mais válida para que a série persista além da já confirmada quinta temporada com uma maioria de elementos propícios à defesa da sua permanência na grade de um do canal mais bem-sucedido da televisão.

Além do que é mais do mesmo, tivemos que engolir a despedida de uma das caras centrais da comédia, que não poderia ter sido menos preguiçosamente executada, sendo claramente apontada como fruto de uma decisão sem planejamento algum que, curiosamente, casou bem com a identidade da temporada, isto é, foi mais um momento inserido no meio do episódio, detentor de um sentido raso e desprovido de qualquer repercussão, amistosa ou não.

Contudo, se por um lado o roteiro falhou em se reinventar com mais densidade ou simplesmente não conseguiu manter o que havia feito, por outro, justamente por essa deficiência no que se espera de um produto da HBO, Silicon Valley e suas piadas situacionais cumpriram seu papel mais despojado e artificial de uma maneira bem eficaz, exagerada nos momentos certos e com proporções e configurações visuais atraentes em diversos casos. Erlich [T.J. Miller] e Gilfoyle [Martin Starr], ambos caricatos, um do lado extrovertido e o outro do introvertido da coisa, foram as estrelas incomparáveis nesse quesito.

O tom mais dramático implantado nos dois últimos episódios serviu como um bom contraponto para a incapacidade do seriado de levar seus espectadores a sério até então. Com sequências de condensação de agonia e ameaças palpáveis ainda que apresentadas tão repentinamente quanto qualquer outra temática da temporada, foi possível estabelecer a imersão discrepante, fora do comum, consideravelmente mais volátil, ora até soturna.

O papel do Jared [Zach Woods] nessa reta derradeira, essencialmente nos 45 do segundo tempo, foi fundamental, apesar de clichê. Nesse caso, o apelo do apego construído para com o personagem foi um tiro em cheio no coração de quem o acompanha desde o começo de sua jornada polarizada por seu discurso auxiliar passivo. O momento protagonizado pelo personagem foi não só revigorante, cheio de orgulho e contrastante com seu histórico, mas crucial para a mudança na atitude do Richard [Thomas Middleditch] para com seus sonhos e seus colegas de profissão e de jornada.

Provando-se ainda muito pertinente na representatividade de uma atmosfera cada vez mais em evidência para o público em geral, mesmo passando os 10 típicos episódios mais abaixo do que acima da média almejada, Silicon Valley conheceu seu ponto mais baixo, talvez o pontapé para sua saída possivelmente não tão triunfal quanto as segunda e terceira leva de capítulos, mas menos desastrosa e sem impacto do que essa que acabamos de testemunhar.


1163O que mais agradou: Os absurdos de Big Head [Josh Brener] e os extremos psicológicos de Richard. Ambas explorações mais íntimas dos personagens, sendo a primeira mais desconexa do plot central e a segunda não dignamente desenvolvida para além de uma dupla de episódios. Até no que mais dá certo há a semente do que poderia ter sido evitado…

1171O que menos agradou: A falta de complexidade nos planos e a curta extensão deles. Apesar das referências à realidade, como no caso do Galaxy Note 7 explodindo, fica difícil defender uma representação do mundo da tecnologia que, em seu quarto ano na estrada, segue padrões de abordagem que a mantém no passado ao invés de exibir sua habilidade de manter-nos na ponta dos dedos.

Anúncios