Uma sobre a outra, indo cada vez mais alto, se tornando mais imponentes e difíceis de passarem despercebidas. Na casa do tio, tem caixa de todo tipo, acredito, com toda coisa. Nem tenho fôlego para contá-las; uma vez até tentei, mas desisti, perdi o foco de mim.

Da sala da frente até o canto escuro do muro, cubos de um papel marrom e resistente padronizam o mundo particular e insólito do império do estilo de vida chamado solteirão. Solteirão que se muda com frequência, sem comoção. Leva tudo, menos alma pesada, família não ecoa da sua parafernália. E se não fossem por seus rótulos icônicos e formas ligeiramente divergentes, aquelas segundas paredes seguramente despertariam mais curiosidade, não que seja pouca a que já há e nunca parece esmaecer.

Algumas marcas são conhecidas, a meu ver, é verdade, minha verdade. É difícil dizer se ainda significam algo para ele. Guarda todas como todas, sem discriminação alguma. O único critério é a conveniência, aparentemente. Às vezes chego a perguntar quais produtos são representados por aqueles símbolos que não me são familiares, mas nada chama meu nome tanto quanto os mistérios que se encontram no interior daqueles objetos tão genéricos, que desenvolvem seu propósito protetor e sigiloso de maneira eficaz e duradoura. Há nomes desajeitados, em pincéis vermelho e azul e preto, substantivos rasos que me chamam para mergulhar no interior daquelas perguntas silenciosas que muitos chama de caixas de papelão na casa do tio.

Caixas que vão e vêm, em horários quaisquer e causando emoções extremas, o que influencia diretamente na velocidade com a qual o transporte das mesmas é realizado. Uma vez ele saiu, no meio da tarde, debaixo de um sol medonho, com uma imensa e, certamente, pesada caixa que, ainda por cima, era bem barulhenta. Outrora, dias depois, a fonte de sufoco e poluição sonora voltou, mas desta vez estava com a parte superior aberta, e quando meu tio a colocou no chão, pude ver a maravilha que brilhava peculiarmente.

Era uma dupla de bonecos de madeira, devidamente lustrados e com todos os parafusos em seus lugares de direito. O dono, respeitoso e ofegante, disse que eles estavam muito danificados, e que seus conhecimentos de carpinteiro eram limitados e jamais seriam suficientes para atuar adequadamente nos reparos que, além de numerosos, eram complexos. Completou que eram de seu amigo de infância, que os deu de presente quando se mudou para a Argentina, por meados de 95.

Admito que grande parte da dúvida quanto ao que meu tio guarda tão atenciosamente em cada uma daquelas caixas é fruto da minha fertilidade imaginária. Eu sempre quero descobrir algo místico e multidimensional na existência das coisas, infelizmente, isso não é viável na maioria dos casos; deve ser por isso que bloqueei o fato do meu tio não possuir móveis. Talvez ele veja beleza nos objetos e no que eles inspiram, e não no esplendor do cubo que os comporta. O lustra móveis não é para todos, é para os que merecem, para os que nem todo mundo têm, para os que resguardam mais do que a sua superfície. A exibição de posse é anomalia para meu tio.

Sinto que posso ser mais como o meu tio, mais ciente das verdadeiras razões pelas quais devemos sorrir ao cuidar de algo. Ao contrário de muitos, ele enxerga um tipo mais sólido e pessoal de prazer, algo que não depende da opinião dos outros para causar sensações louváveis. Ah, se eu fosse assim tão receptivo de suas filosofias não oficiais nos meus tempos de adolescência, quando tudo o que tinha de dar errado, dava.

Uma caixa de papelão pode ser um cofre de metal. De acordo com o que representam, os objetos são manuseados com um sentimento cada vez mais escasso; o carinho. Aprendi que, antes de julgar, devo analisar a expressão facial, o caráter e a forma como as pessoas lidam com aquilo que lhes pertence, apenas assim serei capaz de entender não só o que tal elemento pode ser em um nível alheio a mim, mas saberei se minha invasão é realmente necessária.

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