Estamos, assim, um em cima do outro, alternando posições, imitando serpentes através de uma sequência prolongada de deslizamentos, abraços e toques; todos muito gentis e hipnotizantes. Preferimos não ter nenhum tipo de relógio no quarto, pois a perda do conhecimento do tempo é ainda mais rápida e profunda quando nem mesmo um pequeno painel nos mostra quantos ciclos de 60 minutos já se passaram.

Nos olhamos sem planejar tais ações, cada abertura de olho é uma experiência completamente distinta, repleta de surpresas esperadas e sensações corriqueiras, que sempre se apresentam de formas e intensidades inéditas. O vermelho que inunda o recinto é pleno e confortante, capaz de absorver grande parte das dores inevitáveis durante nossos contatos mais extremos. Confesso que, às vezes, só me situo porque busco os relevos do teu corpo e a suavidade com a qual os tecidos de transformam seguindo nossa coreografia. Ainda assim, não consigo apontar com exatidão o que está acontecendo, nem de que ângulo.

O momento é muito mais do que uma conexão, visto que a satisfação gerada pelo mesmo transpassa os padrões sensoriais. Quando nos colocamos neste determinado ambiente, até as nossas mais concretas convicções sobre nós mesmos caem por terra, abrindo nossas mentes para uma espécie quase anônima de cumplicidade. Nos afogamos no mar de sangue, de paixão, de confiança e redenção; nos permitimos explorar sentimentos tão absolutos que a simples tentativa de copiá-los em outro instante é motivo para dores de cabeça indescritivelmente inesquecíveis. Nós podemos ser inseguros e medíocres sob outras luzes, ao longo de outros espetáculos, mas com a dádiva da luz vermelha e do isolamento total, ninguém está apto a questionar nossa excelência.

O fim se aproxima e relevância da iluminação decai; nossas forças se intimidam e nossos corpos se retraem; cada um no seu ritmo, aceitamos o retorno da normalidade, pois apenas nela podemos pôr em execução os ensinamentos e leis incorporados a partir da imersão em um mundo irrevogavelmente isento de critérios desnecessários e maldosos. Lá, naquela automaticidade voraz, somos vivos, somos mais do que peças no jogo de interesses e anseios, focamos exclusivamente naquilo que desabrocha as camadas mais imediatas e emblemáticas da felicidade… aquelas que não precisa ser aprovada por indivíduos externos para ser considerada não só válida, mas valiosa.

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