Eu nem deveria estar escrevendo isto, afinal, tem tanta roupa suja para lavar é tanta batata para descascar. Mas então, se penso bem, assim como preciso de roupas limpas e batatas sem casca, preciso limpar o caminho da minha dignidade, para que ela não seja contaminada ao longo da concretização dos meus sonhos. Sendo assim, eis abaixo uma lista de desculpas que não planejo pedir e o porquê dessas lindas não serem expelidas nem pela minha boca, nem pelos meus dedos.

Desculpa por me amar

Para tirar os questionamentos primordiais do caminho, digo logo que não sei onde todo esse amor próprio começou, só sei que não é oriundo de uma só fonte, nem possui um só propósito, nem mesmo é expressado de maneira imutável. Eu simplesmente me quero bem, tanto que chego a perder o fôlego, e só o recupero porque se trata de mim, e só por mim tenho coragem de viver mais um dia, abrir mais um sorriso, fazer mais um discurso de esperança e pisar tão forte quanto nunca.

Gostaria de te entregar a fórmula de tal amor, mas a verdade, a verdade mais intensa e inesgotável, é que eu não tenho tanto controle assim sob esse sentimento, já que ele é extremamente independente e fiel à mim. No fim, sou apenas seu servo, seu feliz e dedicado criado, fruto e bandeira da sua existência, mensageiro de tudo que ele significa para mim e o que pode representar para aqueles que o desafiam. De um lado, um monstro, do outro, uma maravilha; basta abrir seu coração, seus olhos, sua mente.

O amor próprio não é motivo para vergonha, mas a desordem sempre o segue, já que ele é raro e almejado, valioso e impagável.

Desculpa por não desistir

Sobre a resposta correta, sobre a luz inevitável, sobre o dilema que tanto abraço, persistir é tudo isso e mais um pouco. Eu não sei se me firo ou se me curo, mas na maioria das vezes prefiro acreditar na segunda das opções, até porque ser pessimista é um tipo de freio que não preciso, uma vez que a vida é curta e feita de fases, provações, quedas, desilusões. Tenho que levantar, continuar, me sacudir e gritar para mostrar que ainda respiro. Portanto, se parar para lamentar, logo fico para trás, na página mastigada, debaixo das fezes, da poeira, do vento de ontem.

Meus amores são muitos, muitos e complicados, companheiros. Suas belezas são tão infindáveis quanto as armadilhas que chegam com as mesmas, mas isso, como já mencionei, não me desmotiva, ou pelo menos não edifica a desmotivação, pois não há tempo para tal perda de tempo, para tal descanso no leito da fragilidade humana. Então, senhoras e senhores, o show aqui é como uma série policial, os vilões mudam, mas o mocinho, mesmo abatido, sempre sai vitorioso, e se não sair, é porque o fim ainda não chegou.

Gosto de pensar que o único final que irá me parar é aquele do qual meus pais não gostam de falar, a morte, a límpida, certa, famigerada e perfeita última sessão de sono.

Desculpa por problematizar

Irei sim, problematizar, defender quem merece defesa e rodar a baiana no meio do baile de gala. Irei correr como as gazelas sendo perseguidas por leões, irei brilhar como o sol ao meio-dia, irei refletir esse brilho como a lua cheia pega o brilho do sol emprestado, irei fazer tanto, por tanto, com tanto. Se eu, e você, e mais alguns loucos não nos colocarmos no alvo daqueles que não se mexem, o mundo gira e a gente cai, o mundo não muda e a dignidade fica lá atrás.

Iremos, eu, você, seus irmãos, mulheres e filhos tradicionais. Iremos entrar em combate, e só sairemos dele quando o lado mais sensato for absolutamente reconhecido como o vencedor. É hora… quer dizer, já passou da hora da gente se manifestar além das paredes das redes sociais, da gente parar de levantar discussões apenas nos nossos grupos de conforto, da gente se libertar sem duvidar do nosso momento, da gente adiantar o ponto da história que já foi adiado demais.

Irei, na fila do banco, na apresentação na faculdade, no trabalho, no cinema, no ônibus, na padaria, até onde Judas perdeu as botas. Não irei ficar calado, acanhado, petrificado, suado; não irei ficar no lugar que me deram, pois ele não é meu, não comporta meus talentos e capacidades, não conforta meus anseios e, consequentemente, vulnerabilidades, ele é apenas uma construção antiquada. Eu tenho Internet, eu tenho oportunidade, eu tenho voz, é hora de usá-los.

Desculpa por eu ser eu e você ser você

Assim, eu nem sei bem o que cada um é. Hoje eu estou aqui, deste lado da tela, já amanhã eu posso estar numa sala totalmente isolada do mundo que tanto nos maltrata; resumindo, estamos perdidos nas nossas certezas. Nossas vidas nos moldam através de métodos muito hostis, e é por isso que, em quase todas as situações, temos uma enorme dificuldade para entender a dificuldade dos outros, até parece que a empatia não faz mais parte das nossas habilidade cognitivas. Então, atirar flechas é mais fácil do que estender a mão.

Eu vou me julgando melhor do que você e você vai se julgando melhor do que eu, a gente se separa, meio que se odeia, mas no fim, bem no fim da vida, percebe que toda essa intriga não passa de uma extravagante e inconsistente rede de aparências venenosas alimentada pela conduta que nos é ensinada 24 horas por dia, em 360º e em n dimensões.

Mas OK, não há mais o que fazer, a velhice chegou e as desculpas são esquecidas antes de serem dadas e antes de serem recebidas. OK, a gente aceita isso, e repassa isso, e procria isso, e amamenta isso, e sofre por isso, e para por isso, e morre por isso. No fim da vida, eu sou eu e você é você, ninguém está completamente certo, nem completamente errado, ambos estão sem noção alguma do que realmente deveria ter sido feito, do que era e continua sendo viável, mas imperceptível: A mudança nos ângulos do autoconhecimento. Visto que se conhecer é essencial, mas conhecer que papel fazemos por onde andamos também é um fator decisivo e insubstituível.

 

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