Os piores fins são os que chegam anunciados, antecipados, sob aura condensada pela visão mais negativa que é possível pôr sobre eles. Infinitos antes mesmo de acontecerem, perfuram mental antes de concretamente, influem como imaginamos que influirão, gerando danos que são nossos maiores pesadelos em níveis que só nos machucam quando os nutrimos. Quando não os nutrimos?!

O medo não vem do fato, da perda do que é fato, da descida do trono do que já é consumado. Ele é ainda mais distante, por isso, igualmente cortante. Infiéis a nós mesmos, nos condenamos a uma série única e ao mesmo tempo familiar de testes inúteis de suposições hostis que nos colocam como versões menos preparadas de nós mesmos diante de um vazio inédito, parido pelo começo sem nome que vem depois do fim superestimado.

São belos porque nos iludem, nos fazem de burros ao virar a nossa experiência com a sua existência contra nós. Viramos fantoches de novo. Marionetes conscientes de nosso papel. Vangloriamos o poder dos términos propagandeados e a sua superioridade em relação àqueles que vêm como quaisquer outros eventos intitulados surpreendentes. Na verdade, o que mais deixa marca é aquilo com que se pode contar, aquilo que corrói antes, durante e depois. Aquilo que tem tentáculos novos a cada esquina.

Os fins abruptos, então, nada mais são do que usurpadores impotentes de uma fama que pertence, sem sombra de dúvida (mas com sombra de ansiedade, e muita) aos pilares da insegurança fomentada pela ciência de que a relação que temos com algo está com os dias, os ciclos, os picos contados.

Tememos porque somos dependentes de rotina, e quando há um fim, há fim de uma parte de uma rotina à qual tão complacentemente nos humilhamos e ainda temos a coragem, o prazer de compartilhar nas telas mais variadas, em histórias descartáveis diárias, o quanto somos escravos sorridentes de um padrão de vida que nos eleva numa concepção de sucesso ordinária e cega. Quando um dos pontos esmaece, perdemos o controle do que podemos fazer com o tempo que agora é livre, com a submissão que já não existe, sem a sensação de estabilidade que vem do controle que a realidade alheia tem sobre a gente.

Não importa qual é a temática. Se tem amor, profissão, lazer, comoção. Se é enaltecida sem nenhum atrito ou variante discussão, é parte de um sistema que retarda nossa humanidade e disfarça sob o manto de uma unidade que corrompe a individualidade que cada vez mais é piada, crime, esquisitice, aberração. Nisso tudo, nesse caldeirão de temperos mesmos sendo aguçados com demonstrações rasas de interação, acabamos reféns do pensamento de terror que nasce só de pensarmos no período de abstinência que temos quando uma de nossas drogas chega, naturalmente ou por manipulações que gostamos fingir não compreendermos, ao fim.

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