Fora do (familiar) padrão
Com animal de estimação
Comédia que vive de emoção
Feita de fidelidade e compaixão
Sobre a força e o poder da união
Sobre receber e dar as mãos
Sobre ser parte ativa da relação
Comédia minimalista, de coração

Atmosfera imersiva
Prevalente, não cansativa
Que inusitado esse protagonista!
Fala direto com a câmera, com a gente
Relevante, doce, envolvente, sempre

Cachorro meio para baixo
Na via de acepção do carinho
É objetivo, mas jamais apático
Destila bem como se sente sozinho

Cachorro falante e indignado
Se vendo pouco valorizado
Vem ser confidente a gente
Num discurso puro. Inocente?

O ator responsável
Pela voz, pela entonação
Não é qualquer um, não
Competente e respeitável
Engloba genuinamente
Cada variante mergulho
Os de agonia e de orgulho
As harmonias e os insultos
Toda imagem abençoa o pesar
Porque a narração só faz ajudar
Não tem como não se entregar
À voz carente, ao dócil olhar

Mas ele não é só ideal
Às vai por caminho abismal
Para ser visto, põe lente nociva
Só é tocado por ação repreensiva

Uma construção intelectual incomum
Ácida e desesperada por reciprocidade
Martin, o cachorro, quer amor como antes
Não a frieza que se tornou normalidade

É que mesmo sem ser proposital
Falta de atenção nunca é formidável
É uma dor silenciosa, toda insuportável
O medo de ela ser infinita traz o caos

Nan, a dona, dona de si
De sua solidão e convicção
Encontra no Martin uma fortaleza
Mas falha em retribuir a mesma sensação
Profissional em encruzilhada típica
Entre ser sua e alimentar machista
Nada demais nesse núcleo se semeia
Mas concordância, a solução, permeia
Não basta se valorizar enquanto mulher
É preciso ser ver como humano de valor
Voltando o olho não só para o sucesso qualquer
Mas para a felicidade vinda do verdadeiro amor
E nesse caso, nem precisa ser
O velho carnal humano jeito de prazer
Nem apenas o próprio conforto em se ter
Mas a presença de um companheiro
Que não quer nada além do elo inteiro
De idas e vindas, de altos e baixos
Martin quer, e merece, ser mais amado

Apesar da narrativa também incomum
Com seu desacelerado tom mais tênue
Sua escassez do sorrisos brancos e céu azul
Downward Dog é, no que pretende, excelente
Além de se atar aos velhos clichês batidos
Como o chefe alienado, heteronormativo e abusivo
Ou a amiga negra como adereço narrativo
No geral, a mensagem nem é das mais fortes
Mas sua validade não é questão de sorte
Porque no cerne, no âmago da construção
Há mais do que a mesmice do roteiro
As lacunas de interesse preenchidas são
Pela relação central e seu componente mais faceiro

O que Martin tem de sensibilidade
É alheio a muito humano na realidade
E isso é mais do que atraente e eficaz
Deixa a gente leve, faz querermos ficar mais
Não é à toa que é a melhor parte do seriado
Golpe baixo pô-lo tanto em evidência?
Incrivelmente nunca menos adequado
Sempre com o palavreado afável em coerência

ABC com comédia nova
Essa sim, não cavou sua cova
Pode até não ter vida longa
Mas passa longe de passar vergonha
ABC com algo robusto em personagens
Com tons louváveis de representatividade
Mas ficando abaixo da média nos pecados
Talvez, por isso, renovação seja um difícil cenário


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