Já passam das 22:00hrs, dou pinceladas incertas na arte de adormecer; com os olhos fechados, os reviro na esperança de encontrar alguma rota imaginária que me leve até as ilhas do sono, pois a exaustão e o tédio em excesso não são potentes o suficiente para me mostrar o caminho. Na indecência do conforto desperdiçado, me mexo constantemente, sinto a fibra do lençol me acariciar e esfriar meu pensamento, dando-me mais calma e prazer, enquanto o momento mais almejado não chega.

De tanto cogitar soluções mágicas, desisto delas e abraço a visão turva de um quarto caótico. Fico, por alguns segundos, procurando um objeto familiar, ou uma fonte de luz confiável, mas só avisto a esquina do guarda-roupa e o buraco no canto superior da parede que beija a rua. Por esse orifício entra uma aura azulada, inconsistente, que perde força toda vez que os tentáculos da árvore são obrigados, pelo vento, a rebolar.

Com essa inquietude climática, constato uma curiosidade; a noite é estranha não somente porque não consigo pegar no sono, mas também porque ela, em sua excelência cheia de brisas indecisas, sucede um dia de segunda-feira bastante quente e parado. Tento checar a previsão do tempo, mas não há nada de extraordinário no aplicativo. Contanto que para ser motivo de surpresa aqui, na minha terrinha, só basta haver a chance de 30% de chuva. Aquele vento que antes só servia para distorcer meu único porto seguro luminoso, agora ganha um significado oculto, místico e, consequentemente, atraente.

Graças aos espaços abertos pelos felinos, nas telhas, vejo que a luz lunar não está se derramando sobre o sertão. Dias atrás, na tarde da sexta, tivemos um temporal repentino e feroz, que levou algumas plantas e muros ao chão e, por uns minutos, a Internet. Contudo, não me lembrei dessa ocorrência e voltei a meditar, do meu jeito, sem ficar parado, sem me concentrar.

Em questão de, digamos, meia dúzia de minutos, pingos robustos começaram a se esparramar no telhado, formando uma bateria animadora e lenta, que rapidamente aumentou em tamanho, barulho e efeito. Se com o silêncio quase pleno eu não conseguia me deixar em paz, com a sinfonia indiscreta de uma tempestade, minha aproximação do sucesso se tornou ainda mais remota. Trovões e relâmpagos fizeram-se notáveis, uma vez que trouxeram consigo ainda mais assobios por baixo da porta e intensidade para a H2O que caía do céu, sem dó.

A glória da ocasião era pomposa, até demais. Metade da família já estava alerta para pular de seus ninhos e posicionar os recipientes embaixo das famigeradas e icônicas goteiras, que surgiam nos locais mais improváveis e causavam danos dos quais não podíamos retirar sossego. Assim, eu, meu pai e minha mãe estávamos de pé, sem poder aproveitar o frescor que chegará com a precipitação e ainda nos estressando com as inconveniências da divisão espacial da residência.

Não durou muito. Depois de um tempo, a raiva se transforma em conformidade, o nervosismo em agilidade e o ressentimento em alívio. Não adianta prolongar a desventura, é melhor nos recolhermos, para tentar, mais uma vez, sob uma nova sensação, dormir. Não aprecio confissões decepcionantes, mas ao me encontrar são e salvo, no leito, no auge das boas circunstâncias, redijo um roteiro desconcertante; me dirijo ao meu telefone celular e jogo games, jogo fora a disponibilidade da minha mente e metabolismo para o espetáculo de ninar.

Enquanto a chuva foi uma oportunidade para me tirar da monotonia que não me fazia bem, o período que veio após as medidas tomadas para me defender da mesma me amaldiçoou com uma vontade avassaladora de viver. Mas aquela não era hora de explorar mundos, nem rir com quedas inofensivas. Ali, naquele instante, eu deveria ter me controlado, fechado minhas janelas faciais e me entregado ao chiar da água batendo nas centenas de peças de barro cozido.

Fui bobo; de certa forma, inocente; frágil; moldado pelas impressões dos eventos ao meu redor. A insatisfação na demora para capotar foi o pontapé inicial para eu me perder nas expectativas da realização do sonho que sempre se torna real, mas por razões desconhecidas, naquela noite, nem chegou perto de ser mais um capítulo repleto de primor. No fim, sim, afundei na espuma do colchão, me despedacei na mais linda das solidões, empurrei minha suscetibilidade mórbida para debaixo do travesseiro.

 

Morto, com gosto
Desgosto. Aposto!
Nas pétalas dos pesares
De migalhas à milhares
Sou escravo de olhares
Meus amantes, meus queridos
Meus achados, meus perdidos
Meus desprezos, meus inimigos

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