Um tanto menos polarizada na política e na tecnologia, The 100 retornou para a sua quarta temporada em uma nova e inédita série de desventuras pela sobrevivência. Mais marcada pelas batalhas ganhas e aliados perdidos, o futuro distópico que começou com 101 jovens servindo de cobaia, hoje, é madura e competente admiravelmente para com a sua longevidade, demonstrando mais forças do que fraquezas no constante empenho em se manter relevante e minimamente consistente ao introduzir elementos novos à história que vem sendo erguida, com mais altos do que baixos, há quase meia década.

The 100 – The CW

Desta vez, nada de cativeiro como banco de sangue ou inteligência artificial almejando ter o mundo em suas mãos, a antagonista da temporada não teve rosto próprio, se projetou no medo da morte, na sede por uma vida humana por cada vez mais escassa. No fim, deixou o maior número inexistências já registrado no período em que acompanhamos os personagens centrais. A radiação, uma nova grande dela, foi não só um sofrimento adiantado durante os últimos momentos da vilã da temporada passada, mas uma fonte de instabilidade completamente diferente de tudo que já havíamos testemunhado em The 100.

A orientação da temporada, interessantemente, não foi a chegada da radiação em si, mas a sua aproximação, as rotas de proteção, várias, cogitadas e como as tribos que mal se relacionam no contexto comum passaram a se comportar diante dos caminhos apontados, incluindo, principalmente, as limitações que os compuseram. Essa injeção de tensão abalou ainda mais as interações entre os clãs, tornando-a menos racional ao ser enviesada pelo extremismo da barreira ainda latente entre os nativos da estação espacial e os da Terra.

Na caminhada em busca de meios de prevalecer além da mudança drástica na atmosfera, efeitos colaterais envolveram não só o psicológico dos personagens, mas as suas instituições sociais, ideológica e fisicamente. Octavia [Marie Avgeropoulos] foi uma fibra intimista e externa ao mesmo tempo nessas transformações, mesmo não estando, primordialmente, na parte ativa das curvas. Sua ascensão, há muito tempo uma prioridade dos roteiristas, continuou firme, seguindo com vestígios da dor gerada pela morte de Lincoln [Ricky Whittle]. A solidão teve poucos declínios, todos condizentes com os distúrbios centrais. O ponto de vivência dela, tanto na distribuição do acampamento Arkadia e a queda do sistema dos Comandantes da Chama simbolizaram instabilidades épicas que respingaram na personagem de maneira inesperada. Entre defender o povo onde ela nasceu (mas nunca foi acolhida) e abraçar de uma vez por todas o povo no qual ela encontrou sua liberdade, a atitude nobre da moça surpreendeu até os mais corajosos dos corações, essencialmente quando se leva em conta a identidade introvertida ainda que confiante que vem sendo condensada na personagem primorosamente.

A evidência de Octavia, na segunda metade dos 13 episódios, foi tão grande que não só esmaeceu a presença de Clarke [Eliza Taylor] como também deixou o lado nada ideal da protagonista aflorar ainda mais para nós espectadores. Ser líder em 100 é um fardo sem descanso, pois além das várias decisões cruciais, as escolhas feitas sempre têm repercussões extremamente nocivas para quem não está do lado que as faz. Bellamy [Bob Morley] é a pessoa que mais entende Clarke nas atitudes que as erguem como heroína e as destroçam como pessoa, porque a intenção é sempre a de proteger, mas os métodos jamais foram convencionais nessa série. Por isso, só ele foi capaz, coerentemente, de impedi-la de impedi-lo de executar uma manobra que não era a mais inteligente, mas a mais emotiva, humana. Ao pôr a sobrevivência sempre em primeiro lugar, Clarke não percebe que tipo de vida está salvando. Sozinha, ao fim da temporada, sem o peso de só salvar a si própria, será que ela conseguiu se resgatar como alguém que não vive para os outros 24h por dia, 7 dias por semana?

The 100 – The CW

Outro grande destaque foi para Raven [Lindsey Morgan], também isolada em seu mundo, atormentada pelo desabrochar de outros botões deixados por A.L.I.E. [Erica Cerra]. Mais uma personagem parceira de si mesma, sustentada pelo peso de suas contribuições para o grupo e pelos danos que suas qualidades, por serem utilizadas em excesso, a trazem. A inteligência, a proatividade, a resiliência e a independência da engenheira técnica tanto a fazem mais forte do que muita gente quanto a distancia do resto do pessoal. Nessa temporada, mais um exorcismo tecnológico aconteceu, só que desta vez a agente e a hospede ocupavam o mesmo corpo, logo, toda a autossuficiência da personagem foi levada ao extremo da sua validez e vulnerabilidade, para a partir de uma superação comandada por heróis e vilões passados, nenhum deles como interesse amoroso, uma nova personagem pudesse surgir das próprias cinzas.

The 100 – The CW

A renovação de fato foi o tema central da temporada. Partimos de um senso de um urgência e desespero para abordagens das tentativas (experimentos sanguíneos, reaproveitamento de bases espaciais…) de encontrar meios de assegurar a resistência das pessoas a um inimigo que elas não puderam combater com punhos, balas ou espadas. Para isso, aceitar que nem todos sobreviveriam foi de um impasse clichê a uma ornamentação unicamente vil.

Mas quem sobreviveria? Quem merece? Apenas quem encontra a “saída” ou também quem nunca soube que precisava de uma? Qual vida é mais valiosa? Ao fim, de toda forma, há limpezas; uma na face da Terra, outra na mente das pessoas. Quando outro capítulo do fim do mundo chega, divisões estúpidas se revelam mais voláteis do que nunca e a história é contata por quem fica de pé. As mortes, pelos punhos, balas e espadas, são como vírgulas, sentinelas de um tempo que nunca será mais. No meio do caminho, mais questões surgiram. Não se trata apenas de ficar de pé, mas de como se consegue levantar, o que se faz e o que se deixa de fazer para chegar a tal posição.

Mais curta, vagarosa demais no começo e muito audaciosa nos momentos finais, essa temporada foi um último suspiro para todas as feridas que ainda ferviam na mentalidade dos povos. A partir de aqui, com o auxílio do evento radioativo global e de um salto temporal, tem-se a oportunidade de recomeçar, em uma união imposta pela natureza, não só como povos diferentes em uma mesma situação, mas como uma só raça ainda vívida, finalmente, em convenção.

No ano que vem, talvez a grande mudança não esteja no caráter do vilão, talvez as linhas entre o bem e o mal não estejam mais tão embaçadas, talvez a unidade da singularidade seja a defesa mais potente do povo que nunca existiu no meio do mundo que é mais velho e mais novo novamente.


1163O que mais agradou: O resgate, nos dois últimos episódios, da angústia aguçada que a série tanto esbanjava nas duas primeiras temporadas. É que apesar de a expansão de núcleos ser frutífera, esses frutos geralmente não são dos mais suculentos. Em convenções mais simples, a imersão é tão certa e orgânica que chegamos até a pensar, nem que seja por um segundo, que a protagonista pode realmente, vejam só, morrer.

The 100 – The CW

1171O que menos agradou: A estagnação dos primeiros episódios, não só na temática como também nos personagens. Um exemplo imbatível disso é a recorrência fútil do Jasper [Devon Bostick], que em nada acrescentou além do que já havia feito na temporada anterior. Felizmente, é um dos que foi, até porque mensagem repetida perde a relevância e o valor.

P.S. 1: Jaha [Isaiah Washington] também já podia ter ido no mesmo bonde que o Jasper, mas ficou. Para quê isso, produção?

P.S. 2: Igual na recorrência, divergente na evolução, Murphy [Richard Harmon] foi protagonista de uma cativante e nada simplista conversão de comportamento. O amor o mudou, mas não de uma vez, não magicamente. Foi com graduais e coesas pitadas que ele passou de elemento externo e egoísta a membro intermediário e sem total confiança a amigo instaurado nas piores das circunstâncias.

The 100 – The CW

Emori [Luisa D’Oliveira], por sua vez, não foi mantida como mero adereço de apreciação e proteção, questionou atitudes, defendeu honra, adicionou conhecimento sobre a vida e sobre os ambientes, foi mais do que simplesmente poderia ser. Renasceu também, foi de alma e corpo deformados e negligenciados a alguém que não precisa de rótulos, já tem carinho de seu amado e parceiro mais íntimo e respeito do grupo que um dia a temeu, que um dia ele temeu.

P.S.3: Indra [Adina Porter] e Marcus [Henry Ian Cusick] deram ótimos conselheiros e braços direitos, ambos mais sãos do que antes, juntos e separados, priorizando a integridade em suas manobras até nas mais complicadas das discussões.

The 100 – The CW
Anúncios