Jane the Virgin, uma das poucas séries do The CW que fogem das temáticas fantasiosas e distopias, apesar de não ter prosseguido em sua ascensão criativa, isto é, macrotextualmente falando, ainda é uma das produções mais originais e culturalmente diversificada da emissora, e da televisão aberta americana também.

Com 20 em vez de 22 episódios compondo o seu terceiro ciclo de exibição, a dramédia familiar inspirada e constantemente influenciada pela cultura latina das telenovelas foi feliz em se reinventar a partir de uma tragédia e um salto temporal, mas derrapou na implantação e desenvolvimento de mudanças palpáveis, que ultrapassassem a momento dos seus anúncios e ecoassem por núcleos além do da protagonista.

Divulgação – The CW

O crescimento incomum do bem-estar de Jane no começo da temporada foi o ingrediente principal para tornar a morte de Michael ainda mais impactante, mas não tão chocante no que diz respeito ao evento ser um estágio natural da história, já que as coisas não ficam realmente boas até que o fim da história seja iminente. Para o bem do personagem e para a integridade-base da produção, Michael morreu do mesmo modo que o conhecemos, como viveu, cheio de esperança, indo em busca do sonho que surgiu graças às sequelas deixadas pelo seu primeiro grande baque (o segundo foi o último). Sob o apoio do amor da sua vida, ele foi, mas deixou rastros melodramáticos que ressoaram até mesmo no último episódio da temporada, sem perder a pertinência, fechando, talvez, as aparições do Brett Dier na série.

Jane, devastada, magnificamente interpretada por Gina Rodriguez, teve duas grandes fases após a ida repentina de seu marido. Primeiro, viúva, depois, solteira. Em ambos momentos, apesar da discrepância enorme entre as suas características, a personagem estava similarmente desestabilizada, sem uma orientação clara e organizada sobre a sua vida, como era de costume. Nem cabeça para seu filho e sua carreira como escritora ela estava conseguindo ter. Condizentemente, o tempo (três anos), sua paixão (a escrita), e a família (sua mãe e sua avó), como sempre, curaram, aos poucos, a ferida que a solidão trouxe. Na terceira e ainda não mencionada fase, sem nome, sem exageros, Jane voltou a dar-se mais ao seu trabalho e ao seu pequenino, terminando a temporada de volta na casa onde cresceu, com o livro, um grande romance, inspirado na sua história com Michael, em lançamento e fazendo sucesso.

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Jane the Virgin – The CW

O lado mórbido de Jane foi mais breve do que as suas aventuras enquanto mãe, mulher solteira em busca de sexo casual. Ao libertar-se da parte de Michael a qual ele com certeza não quereria que ela ficasse presa, a jovem explorou sua sexualidade como nunca, o que acabou tornando-a uma personagem ainda mais desconstruída em relação às tradições de mocinha perfeita e pura. Fabian [Francisco San Martin], o interesse sexual da [“primeira”] vez, não serviu apenas como apetrecho do roteiro, foi composto inicialmente como apenas um corpo sarado, mas serviu para abordar outro tema muito negligenciado na mídia, a sensibilidade sexual masculina e o romance sob o olhar do homem pelo homem, pela sua noção de conservação e preservação da estima do sexo como algo além do prazer físico. Essa dicotomia entre Jane querer apenas sexo e Fabian querer sexo apenas se houver algo a mais funcionou muito bem, porque a inocência dele um dia já foi dela.

Vamos aos casais e uma breve assimilação do que lhes ocorreu, partindo do menos válido, passando pelo menos evidente, mas não menos truculento, e terminando no menos mal concluído.

Rafael [Justin Baldoni] e Petra [Yael Grobglas] possuem um elo confuso, que sempre foi contornado por hostilidade e atitudes nocivas, principalmente vindas de Petra. Nesse terreno instável, até que tentaram reavivar a chama do possível amor deles, mas é claro que não durou muito mais do que um episódio, afinal, ambos estão claramente, mesmo que sem saberem, envolvidos fortemente com outras pessoas.

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Jane the Virgin – The CW

Alba [Ivonne Coll] e Jorge [Alfonso DiLuca] entram no louvor da representatividade do amor na terceira idade sem machucar o histórico religioso da abuela. Assim, nutriu-se, ao longo da temporada, em pinceladas singelas e respeitosas, uma jornada que, assim como muitas, menos agora do que nos primórdios da série, narrativas de JTV optam por fazer, corroborou várias questões comportamentais, como o casamento como sempre anterior à relação sexual, a vida amorosa em diversos níveis e momentos da nossa existência, sem esquecer da família como nossa fortaleza mais confiante não importando o momento no qual mais precisamos dela.

P.S.: É refrescante, depois de abordar a questão da imigração da Alba, vê-la nessa energia toda romântica e experimental. Podemos fazer um paralelo com Jane, pois ambas embarcaram em promessas para seus corações/corpos após a morte dos amores de suas vidas.

XO [Andrea Navedo] e Rogelio [Jaime Camil] foram, vieram, ataram, viraram inimigos, moraram com outras pessoas, fizeram voto de silêncio, ensaiaram reatar, o fizeram, quase o desfizeram, mas, finalmente, se casaram. Sim, não foi perfeito, mas proposital e, do meio para o fim, cansativo, esse caminho dos dois até o matrimônio, consumado pela sua filha. O desfecho também não foi ideal ou comum. Há sementes de turbulências externas ao casamento, e ele foi realizado em circunstâncias completamente contrárias as quais os dois, com o senso de grandiosidade de Rogelio e o de realização de um sonho de Xiomara, almejavam. Positivamente? Nada mais homogêneo do que uma experiência bagunçada para fechar um emaranhado de bagunças. Mas como Jane disse enquanto abençoava os dois, o que vale prevalecer não é a ideia fantástica do amor, mas a vontade e o empenho de mantê-lo vivo através de todas as tempestades que estão à vista e as que nem conseguimos antecipar enquanto estamos envoltos na paixão.

Voltando à questão de a série não ter sido tão robusta nessa temporada, podemos apontar a falta de uma presença antagônica forte e pertinente, como havia nas primeiras temporadas. Infelizmente, a forma como a vilã foi posta sob manos mornos e trazida à tona de maneira não menos apática não foi, consequentemente, nem um pouco satisfatória, muito pelo contrário, pois a este ponto, todos os atos horríveis cometidos por Rose [Bridget Regan] já esfriaram, assim como o seu poder de ameaça e sua personalidade volátil. Colocar Luisa [Yara Martinez] em foco é só mais uma das subversões fracas que ficam mais notórias como manobras desesperadas do que como evoluções inteligentes e instigantes. Da mesma maneira, esse interesse amoroso para a Jane resgatado do passado é apenas mais um adereço narrativo que, no fim das contas, no máximo, poderá deixar algum impacto respeitável na série, e nada mais, pois já é claro que Jane e Rafael são o alvo sagrado da produção. O problema não é sabermos que o Adam [Tyler Posey] não ficará por muito tempo, mas termos que testemunhar as tentativas ineficazes dos roteiristas de fazê-lo parecer mais importante do que ele realmente é.

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Jane the Virgin – The CW

Talvez o maior pecado de JTV nesses últimos 20 episódios tenha sido, vejam só, focar demais em sua personagem central. O mais interessante disso é que tal atenção nunca foi raiz para uma fraqueza tão abrangente na série, mas é que dessa vez a prevalência dos holofotes sobre Jane não apresentou uma sinergia minimamente válida para com os demais personagens, que mais ficaram parecendo boias, flutuando em suas próprias histórias sem relações influentes no olho do furacão. Pensando bem, nem houve um furacão atingindo todo mundo de modos variantes. Alguns dos personagens coadjuvantes, como Petra, mal tiveram desenvolvimento pessoal, ficaram restringidos aos resquícios de histórias mais contagiantes, o que não contribuiu em nada para o potencial do entretenimento em vê-la em tela no contexto, como disse no começo, geral.


1163O que mais agradou: Mateo [Joseph Sanders] é dono de um carisma sem competição, talvez a coisa que mais dá certo, ainda que em pequenas doses, atualmente na série. O ator tem uma ótima relação com o resto do elenco e se comporta convincentemente em diversas situações, desde quando não é nada além de um pestinha até quando sua doçura é irresistível.

Divulgação – The CW

1171O que menos agradou: A explicação desinteressante e fácil que deram à morte do Scott [Wes Armstrong], principalmente quando consideramos tudo o que ela gerou tanto para os mocinhos quanto para a… vilã(?).

P.S.: O narrador [Anthony Mendez], mais do que nunca, gente como a gente, dispondo de um discurso com o qual os fãs da série inegavelmente mantêm uma relação de identificação indescritível.

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