Numa tarde qualquer… Fiz uma viagem ao porto, fui em busca de uma aventura, algo a mais para o meu novo ser. Sem querer, nem planejar, nem mesmo imaginar, me deparei com uma sujeira onipresente, que dominava tudo e todos, seja lá qual fosse a sua idade, altura ou semblante. Aquela podridão, tão úmida e magnífica, não parecia estranha, mas despertava em mim uma sensação inquietante, porém neutra. Eu era, desde o primeiro passo dado naquele local, parte dele, parte daquela atmosfera hostil e, principalmente, parte dos anseios que rastejavam na lama.

Indo de porta em porta, reconheci a pobreza da qual havia fugido anos atrás. Nos retângulos de madeira? Desenhos, números, adesivos de propaganda eleitoral, manchas de carvão e terra; todos vestígios de sonhos esquecidos, suplantados pelas dificuldades incessantes e injustiças em pele de cordeiro. A cada esquina, uma surpresa, uma lembrança ressuscitada, uma vertigem momentânea. Nenhuma das minhas estratégias de fortalecimento funcionavam ali. Eu estava, mais do que nunca, vulnerável, sujeito a quaisquer ataques.

Contudo, foi no retorno que o maior baque me tocou. Dentro de um tambor enferrujado, por causa de uma falha no posicionamento da tampa, parte do couro cabeludo era visível. Ao chegar mais perto, o cheiro horrível que se intensificava não vinha do esgoto a céu aberto, mas do corpo que descobri ao olhar com cuidado, nas entranhas daquela água impura. Com um bastão, levantei um pouco o objeto que mal cobria o recipiente. Na conversão da minha experiência de escoteiro desequilibrado, pude comprovar a mais famigerada das minhas impressões, era um homem, dono de olhos esbugalhados.

Cabelos negros, pele parda e dois círculos castanhos refletindo, tremulamente, eu e meu espanto. Aparentando estar na sua terceira década de vida, embutido como se tivesse voltado ao útero de sua mãe, ele não passava de mais um ornamento macabro daquela vizinhança, jogado sem dignidade alguma, perdido até no último suspiro. Será que aqueles olhos ainda eram seus? Ou será que nem isso lhe pertence mais? Fica a dúvida, a coceira, a boca mordida.

Parado por pelos menos 10 segundos, sem ação, sem palavras, sem choro ou relutância, apenas me abismei, permaneci deste modo até não poder mais, até ter que lidar com a situação, até precisar processá-la, denunciá-la, vivê-la.

Na ironia metalinguística da coisa, lá estava eu, prestes a sair de uma viagem infame, quanto caio em outra, ainda mais capaz de alterar meu conforto. Não fiquei histérico, nem saí correndo, anunciando o fato para os quatro cantos do meu alcance, pedindo ajuda, enfim, fui frio.

A verdade é que, ninguém sabe o que ninguém sente, na maioria das vezes, muitas expressões só são manifestadas porque aquilo é o mais esperado, o mais aceito, o mais compreendido. Somos diferentes em tantas coisas, mas não podemos deixar essas diferenças nítidas. Em certos casos, nem a gente sabe o que realmente prefere fazer, pois estamos presos no ciclo vicioso que se alimenta da complacência alheia para com nossa normalidade. Ser normal não é crime, mas é danoso, é desvantajoso, é cruel!

Depois de pedir o auxílio de uma moça que estendia suas roupas no varal, ligar para a polícia e prestar depoimento, tive que me sentar diante de mim mesmo. Me pus a montar minha tese sobre o ocorrido e como ele não é tão extraordinário. Para uso exclusivo de minhas concepções, esse julgamento se manteve imaterial.

Desde pequeno, quando falava que não tinha medo da morte, minha mãe brigava comigo, me fazia retirar minhas palavras e calar-me, seguir as regras às quais todos estava acostumados, através das gerações. Suas ordens, excepcionalmente nessas ocasiões, eram como tiros oriundos de caçadores sábios. Ao fechar a boca, eu saía automaticamente da mira dela, mas sou persistente e desconcertante, sou dono da bagunça que chamo de mente. A partir dessa característica, eu viajava, procurava memórias e frases para explicar porque eu deveria temer algo tão certo, tão inevitável, tão pleno.

Cheguei à uma conclusão simples, por isso duvido que seja rara. Eu tenho medo de uma única coisa relacionada a morte, e não é ela em si, mas o possível sofrimento que pode antecedê-la. De novo, não perco o brilho quando penso na minha partida, entretanto, não estou disposto a ter que suportar um período agonizante que, no final das contas, mesmo trazendo algum ensinamento, este será inútil, já que não estarei mais entre aqueles que podem vomitar as aprendizagens no mundo, digamos, real.

Eu vejo uma beleza e um desperdício no raciocínio da minha mãe. 1º: Ela se sente mais próxima da sua divindade ao acreditar que a morte é algo grandioso e que deve ser aguardado com temor. 2º: Ela perde a oportunidade de aproveitar a vida com mais relaxamento porque sempre que alguém na nossa cidadezinha do interior morre, ela se lembra de que a cada dia, o dia dela está menos distante. Hoje eu poupo minha querida mãe dos meus tijolos filosóficos mais leves, não porque minha convicção é fraca, mas porque ao confrontá-la, eu estaria desperdiçando tanto a minha integridade quanto a dela. Minha abertura mental não precisa ser uma tortura para quem me colocou neste mundo.

Voltando à análise da descoberta do corpo… Não fiquei eufórico porque não penso numa pessoa como um corpo, mas como o que ela deixa por onde passa. Quem era aquele homem? O que fazia? O que ensinava aos filhos? Quanta esperança compartilhava com seus semelhantes? Eu realmente não sei, e mesmo as respostas não sendo tão positivas quanto eu, com humano bobo, espero, ainda assim estarei mais satisfeito com a minha interpretação da morte. O que fica não é o odor, a feiura, o vazio. A certeza mais remanescente é a de que aquela pessoa foi, bom ou ruim, parte de quem somos, de quem ainda somos. Também não quero me aprofundar em quem o matou, nem por que, afinal, não tenho o poder e a sagacidade para mudar o que está tão firmemente impregnado nos trilhos da precariedade da convivência.

Mais uma vez, um cadáver não é um símbolo da morte, mas apenas um fruto dela. Se pensarmos bem, cada pedaço do nosso passado é um fruto da morte, pois não somos capazes recuperá-los, ou reproduzi-los. A vida é um livro, cada capítulo tem um presente para a gente; na última página, resta-nos abraçar nosso término, nossa vez de ir, nosso carimbo final. Há esplendor naquela rasca em decomposição, no brilho, na moleza, na transformação. Tudo possui um propósito. A fila anda.

Não me entenda mal, não estou alegando que a morte é banal, ela é especial e definitiva, mas não requer, em nenhuma circunstância, a perda da nossa vivacidade. Sim, quando nos deixamos desorientar pela urgência DO momento, abrimos mão da preciosidade que não podemos comprar, emprestar ou vender. Aquele homem é só mais um homem, aquela morte é só mais uma morte. E aí, vai fazer o que com a morte dos outros? Vai fazer o que com a sua morte? Vai se jogar no chão antes da hora? Vai antecipar a hora só para se sentir mais digno do seu respeito? Eu sei o que vou fazer, eu vou viver, até não poder mais, até que seja tarde demais para qualquer outra atitude fútil.

Por enquanto, nada de adeus, mas quando ele chegar, que seja só isso, uma palavra, um momento, um sentimento e uma razão para continuar de pé, até cair.

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