Quando vocês me tocam daquele jeito, eu me perco. Toda vez é apenas daquele jeito que eu nunca desejo, é sob a única lente que vocês me vivem, e eu me sinto apenas como posso me sentir, alheio a mim mesmo. Murcho de vontade de não estar no meu lugar, porque é a pior das sensações mais recentes, o mal na brincadeira, a violência no cumprimento que não passa de uma violação. Lamento ser eu, pelo que passo, pelo que não faço, por não conseguir perdoar minha fraqueza, por não ser minha maior fortaleza. Por ser daquela forma, sou apenas um objeto, uma porção de carne e osso, que tem coração e aflição que pulsam como em nenhum outro momento. Por ser tão meu, é um sofrimento silencioso, momentâneo, chama ecoa rapidamente e só reacende toda vez que o sorriso precede a mão que apalpa sem a noção do quanto dói ser visto apenas como um pedaço de pele quente sujeito a um contato tão frio. Por ser tão raso, e tão profundo, é nocivo como poucas coisas em mim. Todo ato é um empurrão, um puxão para a semente da perda da autoestima. Então eu me jogo. Eu mergulho no fato e logo volto para cima, respiro bem fundo. Em negação que conforta por ora, finjo não me importar, minto para mim tão automaticamente. A dormência da superação fabricada é uma bênção infame, e dela sou dependente. Há vezes em que me culpo, porque sou tão desprovido das rédeas comuns quando se trata de sexo, sou tão aberto, mas não quando sou invadido. Não chamo a mão que aperta e perfura a alma, não sorrio de volta, não demonstro satisfação, porque não sou ator quando não tenho controle da situação. Todo portão, todo corredor, todo encontro começa com pavor. Levanto os braços e me viro. Às vezes escapo, mendigo de alívio. Quando vocês me tocam, e estas são as únicas vezes que me tocam, me tocam do jeito mais danoso, e é só nesse momento, que há tempos não é só um momento, que eu não sei quem sou além do que vocês veem.

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