Quase dois anos após a sua estreia, Sense8, a série que pode ser considerada a mais ambiciosa da Netflix voltou para a segunda temporada. Tendo que driblar o aumento das dificuldades logísticas e monetárias geradas pelo fato de ser gravada em quatro continentes, a ficção científica que tem sua maior base de fãs aqui no Brasil chegou com novos episódios, tão forte em seus primores quanto em alguns de seus defeitos mais notórios.

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Sense8 – 2016

No que diz respeito à imersão em elementos louváveis e exagerados, houve desenvolvimento do histórico da ameaça principal, que rendeu muito mais amplitude e concretude para os riscos de pertencer a uma espécie humana mais elevada. Mas também teve tentativa falha de dar atenção a protagonista mais banalizada da trama. Sim, Kala [Tina Desai] continuou regendo um núcleo extremamente limitado, no qual o pico de validade deveu-se a um breve eco das tensões políticas e religiosas introduzidas na temporada anterior. Assim, o fator mais recorrente de sua trajetória nesse segundo grande capítulo do seriado continuou sendo sua atração por Wolfgang [Max Riemelt], o que não diz nada que já não tenha sido dito sobre ela. Até seus questionamentos para com sua própria conduta, eficientemente introduzidos em um momento existencial dignamente apenas dela, foi, como outras coisas, esquecido ao longo do resto dos episódios.

Sense8 – 2017

Se por um lado há escassez de aprofundamento nas histórias paralelas adicionadas ao leque de diversidade cultural e comportamental da produção, por outro há excesso, superexposição, overdose de ângulos do Lito [Miguel Ángel Silvestre] em suas crises de autoestima e autodescobrimento. Entre ser drama honesto e alívio cômico, essa parte perde clímax antes de ser parcialmente encerrada. Como ponto positivo, as lágrimas infinitas do ator mexicano terminam na renovação do seu amor por Hernando [Alfonso Herrera], pela primeira vez sincero e longe dos holofotes, apenas eles dois na praia, com a vida imitando a sétima arte.

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Sense8 – 2017

Com uma boa parte dos episódios dedicada à investigação da organização responsável pela caça aos sensates, o mistério, e seu desvelamento, entregues na junção do que torna a série ainda mais peculiar e única, isto é, a trilha sonora estonteante com a estética teatral e fotografia riquíssima em contrastes foi um dos maiores opostos da mediocridade manifestada em partes específicas e gerais do roteiro que a beleza das locações e a coerência das atuações, ainda que não tenham sido prejudicadas, não conseguiram ofuscar.

Com casais lésbicos, gays, uma transexual como protagonista e diversas simplificações de confusões semeadas apenas por preconceitos, a representatividade que a série criada e desenvolvida pelas irmãs Wachowski e J. Michael Straczynski proporciona é respeitável em diversos níveis. O problema tem início quando a necessidade de reafirmar o orgulho LGBTQ compromete a qualidade do produto. Já havíamos tido lapsos de transcendências grandiosas da liberdade criativa da série na sua temporada estreante, mas nesta o quadro se agravou. O começo dessa segunda temporada tem vários momentos ridiculamente panfletários, que não só repetem felicidades e confortos sexuais já estabelecidos na trama, como também não contribuem em nada para a densidade das histórias contatas. A ficção perde um tanto o seu valor de simbologia da realidade quando as linhas que unem uma a outra são ignoradas em prol de um espetáculo baseado na elevação inconsequente de relações atreladas à trajetória dos personagens sem nenhum propósito ou efeito além da sua dimensão primordial.

Em um tom mais agradável, a troca de papéis entre Will [Brian J. Smith] e Riley [Tuppence Middleton] é uma das dinâmicas mais interessantes e apropriadamente trabalhadas durante toda a temporada. É um ingrediente bastante irrefutável a congruência dos novos postos de cada um até os diferentes tipos de poços e picos que ambos vivenciam enquanto membros do grupo de sensate, contanto os bônus de comporem um casal e que estarem fisicamente lado a lado. O herói vira a vítima e a vítima vira heroína. Não faltam novas roupagens de coragem e autossuficiência entre os dois. A cumplicidade vem com fidelidade, é resiliente e relevante, o tempo inteiro, para benefício de um desenvolvimento inteligentemente acorrentado pelo roteiro, em um capítulo ainda obscuro, mas menos solitário da sobrevivência dos dois fugitivos.

Dentre as coisas que já eram de se esperar e que foram muito bem edificadas, tanto narrativa quanto imageticamente, está a habilidade sensate, que nessa temporada foi muito além dos truques visuais e assumiu uma postura mais científica e humana ao mesmo tempo que integrou uma noção de autoconhecimento e evolução da percepção da vida e das relações sentimentais, sendo o desejo de prevalecer entre os vivos umas das trações mais pertinentes de todas. A expansão veio pragmática e, é claro, sensorialmente. Tentáculos em contatos além daquele com o Whispers [Terrence Mann] viabilizaram cenas que serviram para solidificar o amadurecimento dos protagonistas sem precisar escrever na tela ou executar distribuir dezenas de paráfrases. Talvez o intimismo no cerne da série, intensificado pela sua mitologia, ainda seja o seu ponto mais original e válido.

Sense8 – 2017

Contando com oito protagonistas, o foco em cada um deles é algo complicado de se pensar e executar, principalmente quando apenas uma mente, a da Lana, esteve à frente das orientações dessa temporada. O arrombador de cofres alemão, por exemplo, teve um desenvolvimento pessoal tão existente quanto o de sua amada indiana, ou seja, praticamente não teve. Enquanto isso, a filha renegada coreana ganhou flashbacks que duraram até o presente, dividiu a tela com companhias passageiras gentis e hostis, mas terminou sozinha como sempre, mas não como antes. A hacker de São Francisco foi abençoada com mais carinho e tempo de tela, além de ganhar um coadjuvante que foi uma das joias da temporada. Por outro lado, o queniano fã de filmes de ação e filho de pai ativista teve começo de conflito relâmpago, clímax eletrizante e contagiante, mas o desfecho foi jogado para o alto, junto com os dez últimos minutos da temporada.

Felizmente, as conexões foram além das óbvias, e se multiplicaram. O mundo falou em movimentos bruscos e dóceis, mais lugares funcionaram como palcos de contemplação das maravilhas e dos problemas da vida. Como uma obra geral, Sense8 é isso, uma grande lição de empatia, que ainda vale a pena ser vista e compartilhada, mas que, infelizmente, não retém tanto valor narrativo quando poderia.

É lamentável que tantas possibilidades tenham sido mal aproveitadas, e que o final da temporada não tenha sido uma redenção, mas uma consolidação dos principais erros cometidos: pressa, falta de amarração nas ramificações do roteiro e coincidências que extrapolam as barreiras da licença poética e tornam-se fraquezas preguiçosas ao invés de serem artefatos de esperteza. Nem  tudo é suruba, nem tudo é violência avulsa, nem tudo é alternância de corpo. Menos da prepotência das resoluções, mais da consistência dos temores e uniões, por favor!

Como disse no começo, porém, o que era bom ficou ainda melhor, então nada mais justo do que enaltecermos as sequências de ação, a coordenação dos atores, o posicionamento majestoso das câmeras e o cuidado com os figurinos que, aqui e acolá, têm seu fator inusitado mais atiçado para deixar certas cenas de apreensão meio adocicadas, mas não menos impactantes.

Não pode-se negar, também, a extensão do universo da série confeccionada tão bem até os últimos três episódios da temporada. Tanto o ritmo quanto a montagem da série culminaram em uma satisfação que corrobora a experiência única que é assistir a Sense8 e ver toda essa engenhosidade dos produtores sendo viabilizada com um zelo tão inquestionável quando se trata da identidade visual e dos terrenos explorados pela produção.

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Sense8 – Netflix, divulgação.

P.S.: Jonas e sua posição final foi surpreendente. Se tivesse raízes, seria ainda mais.


1163O que mais agradou: Resposta não só a questões principais, mas a dilemas como a devoção de Amanita [Freema Agyeman] e a função de Daniela [Eréndira Ibarra].

1171O que menos agradou: Conveniência exageradamente usada das habilidades de Nomi e sua “equipe” de hackers. Sim, tudo que é conectado a uma rede global tem portas, umas de acesso mais fáceis, outras de acesso quase impossível, mas todo cadeado ser aberto e todo penhasco receber uma ponte cibernética deixou de ser excitante e passou a ser vergonhoso.

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