Em seu terceiro ano, o drama mais aclamado do canal ABC sofreu cortes de produção e, lamentavelmente, de qualidade também, mas continuou tão relevante quanto sempre, retratando esferas sombrias da sociedade raramente sob os holofotes do entretenimento.

Mais do que uma simples série antológica, um arranjo estonteante de talento nas atuações, na estética e linguagem, American Crime é uma fonte de reflexões que vai até os limites mais sórdidos do que se pode fazer na televisão aberta e entrega um produto que requer a participação e atenção constante do público, porque o sangue as lágrimas derramadas na telinha podem ser vistas nas esquinas dos expectadores.

Com menos episódios nesta que é a sua temporada mais desesperada por visibilidade e mais variada na contemplação de temas delicados, a série escolheu três grandes narrativas, que foram divididas e desenvolvidas nos oito episódios que compõem esta que pode ser a última das levas de episódios da antologia, não por causa da falta de inspiração, de dinheiro ou de talento disposto a continuar com a nobre empreitada, mas graças à audiência, que chegou aos níveis mais baixos que a série já atingiu. A mudança do dia de exibição, da quarta para o domingo, ajudou a enterrar o campo de probabilidade de estabilidade ou ascensão da produção, principalmente por conta da competição com a qual ela tem que lidar em tal dia.

Talvez a necessidade de ficar mais fácil de assimilar e, quem sabe, atrair olhos que anteriormente não se dispuseram a acompanhar onze ou dez episódios de uma história e suas várias complicações e nuances foi a razão de a série ter abandonado sua imponência narrativa. Se essa foi a estratégia, é uma pena que o sacrifício não gerou os resultados esperados.

Felicity Huffman como Jeanette Hesby – American Crime, 2017

Diferente da temporada anterior, o foco foi ramificado, contudo, a amplitude do escopo trouxe consigo, não arbitrariamente, a falta de interligação entre as histórias. Seus protagonistas apenas habitavam a mesma região, e só os vimos juntos na última sequência do último capítulo. E mesmo assim, na circunstância em que terminamos de acompanhar as trajetórias, apesar de elas estarem em um ponto comum (e isso por si só já ser uma enorme representação de como as interações humanas estão tão tóxicas que, não importa onde elas e como ocorram, todas acabam no mesmo poço de julgamento, deixando os envolvidos para sempre marcados), ainda que o roteiro, de forma um tanto apressada, tenha obtido êxito em amarrar os sofrimentos e as vilanias com toda a angústia realista pela qual American Crime é conhecida, o que permanece evidente é a lacuna de uma interdependência entre a história sobre a exploração de imigrantes, a trabalhista e a sexual.

A assistente social de Regina King, a dona de casa de Felicity Huffman e a empregada doméstica de Mickaëlle X. Bizet foram as mulheres que mais brilharam, todas cheias de vulnerabilidades, de crenças e ideais frequentemente bombardeados pelas ondas de normalidade atribuídas à injustiça que corrobora a noção, ou a escassez dela, das pessoas sobre o que acontece nas entranhas do sucesso capitalista. No lado masculino das atuações, Benito Martinez e Richard Cabral também foram grandes pilares, um na pele de um pai em busca de um filho desaparecido e o outro sob o peso da consciência de um capataz não tão extremista por dentro quanto por fora.

Benito Martinez como Luis Salazar – American Crime, 2017

Mais para uma cartilha com segmentos bem definidos do que para uma história sólida destinada a ter um fim (aberto), essa temporada decepcionou ao não possuir uma fibra que fizesse, por exemplo, a história da venda de sexo de menores, nas ruas e na Internet, ao menos respingar nas condições inumanas de alojamentos de imigrantes ilegais em grandes complexos agrícolas.

Em um setor técnico, ironicamente, a influência de um elemento sobre o outro foi mais uma questão desanimadora. O roteiro arrastou a edição para a insatisfação, pois era praticamente impossível não ser incoerente ao transitar entre histórias tão distintas sem nenhuma correlação a não ser o âmago ilícito e inquietante das situações trabalhadas. Esse distanciamento pragmático dos polos funcionou positivamente apenas a princípio, quando se acreditava que, ao longo da temporada, as histórias fossem se aproximando, enaltecendo o quanto ignoramos os vários problemas ao nosso redor, o quanto a hipocrisia de uma cidadania silenciosa é, também, nociva, força, impulso dos problemas.

O otimismo do primeiro episódio foi substituído, semana após semana, por uma incerteza e um questionamento sobre o rumo e o legado da temporada. É claro que a pressão vinda das expectativas deixadas pela qualidade inédita do ano passado foi um ingrediente ácido para a curva criativa drástica adotada aqui. Sem dúvida, um dualismo teria sido mais eficiente, tanto para o impacto geral da temporada quanto para o desenvolvimento do psicológico dos personagens, fator extremamente prejudicado pela diminuição da quantidade de episódios. Não que as atitudes tenham sido gratuitas, mas é que para valerem a pena serem deixadas nas entrelinhas, elas precisam ter raízes, pavios devidamente estabelecidos, o que não foi viável considerando os parâmetros da temporada.

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Regina King como Kimara Walters – American Crime, 2017

Fica a felicidade de ver assuntos tão importantes sendo abordados na televisão com o alcance que a ABC tem. Fica a tristeza em ver uma série tão cheia de pessoas capazes descarrilando após crescer tanto da primeira para a segunda fase de sua existência. Fica a certeza de que a série merece continuar, talvez, em uma plataforma em que a liberdade para xingar e mostrar a violência não seja apenas um desejo.


1163O que mais agradou: A fidelidade aos “fins” nada formidáveis e, consequentemente, enganosos. Fins cheios de ecos de dor, de cicatrizes apenas como ânsias e olhares trêmulos, lembretes de que os casos da série são meros exemplares das milhares de gravidezes resultantes de estupros, mortes por negligência, dependências químicas subestimadas e tidas e como falta de vergonha na cara.

1171O que menos agradou: Apesar da omissão de eventos chocantes ser uma marca da série, o excesso dela, em conjunto com a troca constante de foco, só contribuiu, realmente, para que os personagens fossem constituídos como mais rasos do que o ideal.

ATUALIZAÇÃO: American Crime foi cancelada.

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