Exemplos de que uma sinopse pode esconder grandes maravilhas. Aquele momento que… a proposta da série faz você ver outro lado da vida, outra forma de pensar. Volume 2:

Shameless (Showtime)

Centrada numa família pra lá de disfuncional e cercada por dilemas/obstáculos financeiros, a série leva seu título muito a sério e, em momento algum, desperdiça a oportunidade de mostrar a natureza humana em sua mais crua expressão. Usando um cenário rebuscado e pouco comum nas produções de narrativa contemporânea, Shameless cria uma atmosfera tão absurda e saturada que chega a ser quase inacreditável. Servindo como palco para acontecimentos que ultrapassam as barreiras usuais do constrangimento, bom senso e sanidade, a periferia de Chicago é violentamente condensada para abrigar um monte de desventuras sociais, psicológicas e letais.

Não é preciso cavar muito. Logo na superfície, quando menos esperamos, a comédia é remontada graciosamente, dando espaço à um drama pesado, bem introduzido e trabalhado, sem deixar de ser fiel às descrições estabelecidas nas sinopses. Um pai alcoólatra (William H. Macy), uma mãe desertora (Chloe Webb) e seis irmãos segurando a barra de viver sem o apoio dos seus genitores; dentre eles, a mais velha, Fiona (Emmy Rossum), é a que faz o possível para suprir a ausência dos pais.

Presos à uma poesia que se renova sutilmente ao longo das temporadas, os tipos de vida retratados no seriado são respeitosamente destrinchados através de mecanismos de integração que envolvem elementos da sociedade aparentemente ocultos. Mas não se engane, mesmo tendo uma galeria de ocorrências chocantes e eficazes, a série não cai nas armadilhas da complexidade desnecessária; é justamente aí que o fato sem-vergonhice entra. É por meio dessas demonstrações de falta de pudor que a produção consegue manter a relação inédita de empatia entre os personagens e o espectador; assim, não importa se a pessoa assistindo já passou por alguma daquelas situações, pois ela saberá, ao ver todos os ângulos íntimos da causa, do que aquilo realmente se trata.

Desconstruindo paradigmas e erguendo bandeiras de raciocínios tolerantes, quem embarca nessa loucura pode experimentar histórias que não são sensatas, mas esparramam a realidade de muitos indivíduos na tela da televisão. No fim da linha das opiniões, sejam elas quais forem, a perseverança é a maior lição que a série tem a ensinar. Do garoto e sua homossexualidade à menina e seus vícios hereditários, todos, de uma forma ou de outra, com ou sem consequências incalculáveis, saem de um buraco para outro, afinal, a vida é assim.

A maquiagem não esconde a dor, a música não alimenta a ilusão, a crueldade está em cada detalhe. Estupro, abuso, dependência psicológica e química, carência… Todos temos nossos demônios, e no caso dos Gallaghers, a pobreza é o mais onipresente deles. Não é correto afirmar que o fato deles superarem, em parte, suas dificuldades é apenas uma jogada de roteiro, pois existem várias pessoas que, levando uma jornada quase insuportável diariamente, ainda voltam para casa e acordam no dia seguinte. Shameless nos ensina a compreender que as coisas, por mais ruins que estejam, sempre podem ficar pior.

“A vida sempre baterá. O importante é saber o quanto você aguentará.”

Bates Motel (A&E)

Baseado no icônico filme Psicose (1960), a série é um prelúdio arquitetado nos tempos atuais sobre como Norman Bates (Freddie Highmore) veio a se tornar a pessoa que gerações já viram no longa. Entretanto, com a presença de sua mãe, Norma (Vera Farmiga), em um papel protetor e genuinamente afetuoso, a produção é ambiciosa por dois grandes fatores: Tentar preservar a energia e essência do material original e constituir uma nova linguagem para a história, ambas sem abrir mão do suspense e harmonia dos personagens. Sob uma formatação estonteante, em tudo que se classifica como quesito técnico, Bates Motel é completamente segura e triunfante em suas escolhas.

O amor compartilhado entre mãe e filho é, de longe, o aspecto mais insubstituível da trama. Porém, os dois polos desse sentimento não carregam as mesmas expectativas e aptidões para atos inescrupulosos. Enquanto Norman precisa que seu lado oculto entre em ação para que ele proteja a mãe tão fortemente quanto deseja, Norma desisto do resto de claridade que ainda permeia sua mente para não se deixar levar pelo medo que tem do filho. Assim, em um emaranhado de curvas psicológicas e físicas, a relação dos dois é tóxica é inevitável, já que nenhum deles está disposto a abandonar um ao outro.

Se há um ensinamento que vale a pena levar para a vida real, ele está na certeza da integridade do amor. Se fizermos algo imprudente como descartar todos os componentes horripilantes do enredo, podemos admirar uma forma de amar tão pura e inesgotável que chega a ser assustadora. Mas se formos ainda mais perto dessa sensação tão poderosa, perceberemos que ela só é viável porque a instabilidade mental é tão mútua quanto as fronteiras maleáveis do maior sentimento em jogo. Neste caso, a vida é o jogo, mas não deveria ser.

Portanto, mesmo não podendo aproveitar essa lição tão facilmente, a presença dela desperta um questionamento pertinente: Será que só somos capazes de amar tão intensamente se nos livrarmos dos modelos de comportamento nos quais nós mesmos nos colocamos? Se sim, vale a pena pôr o pouco de ordem que existe em risco somente para ter a chance de amar plenamente? Essas perguntas não são de longo prazo, pois perturbam a frequência que utilizamos para interpretar o mundo e suas ofertas. Quanto mais paramos no meio de estrada, mais difícil fica de saber aonde queremos ir. Logo, embora desprovidos da liberdade nociva dos Bates, podemos almejá-la sem ter que lidar com os efeitos problemáticos, afinal, já temos problemas demais, não precisamos criar nenhum.

BoJack Horseman (Netflix)

Quando se pensa em animação, há uma certa resistência, mas com a odisseia de BoJack Horseman (Will Arnett), até quem gosta desse tipo de arte cai da cadeira e se maravilha com a quantidade e qualidade do conteúdo. Não é apenas uma realidade alternativa onde animais “em transição” são racionais e vivem em um mundo basicamente igual ao nosso; também é um mergulho colorido e desenfreado na melancolia e humanidade por trás da vida das celebridades, ou seja, pessoas. Tendo Hollywood como principal locação, não faltam arcos oriundos da normalidade elevados à 100ª potência do ridículo, além disso, como se ter um cavalo humanoide falante como protagonista não fosse chocante o suficiente, a série se assemelha a Shameless quando veste uma roupa engraçada, mas acaba causando um enorme derramamento de lágrimas.

Numa narrativa linear , cheia de flashbacks e explicações bem elaboradas, a pegada da série se resume em expandir nossa opinião sobre as atitudes das pessoas e o que as levou a tomar tal forma de conduta. Desta maneira, BoJack serve como modelo para todo indivíduo que não só soa e parece imprudente, mas age assim com -quase- todo o resto do mundo. A mudança nas representações dessas pessoas egoístas é a chave do sucesso da série, uma vez que o descaso do protagonista não é um comportamento exclusivo de terceiros, ele é descompromissado até mesmo com sua própria saúde, carreira e felicidade.

A partir de vários pontos referenciais diferentes, o seriado obtém exito no esclarecimento de como esses ingredientes da vida do personagem interferiram imediata e tardiamente na construção da sua visão turva tanto do seu talento quanto das contribuições alheias para a sua trajetória. Generosa nas revelações feitas por episódio, a dinâmica é bastante fluida e coerente, pois traz ocasiões plausíveis como propulsão para penetrar a essência perturbada que BoJack abriga.

Intriga e decepção são dois temas muito comuns na série, eles vêm de todos os lados e causam catástrofes de dimensões variadas, simplesmente porque não podem ser evitados e porque não existem serem merecedores da sua misericórdia, se é que ela é real. Logo, fica difícil assimilar todos os gramas de cinza que caem após cada incêndio; é ainda mais trabalhoso levantar-se estando ciente e orgulhoso dos erros, já que ninguém está disposto a reconhecer o fato mais óbvio dentre todos: nós erramos até mesmo quando não acreditamos nessa possibilidade.

Ou seja! Um desenho recheado de questões éticas nos transporta para o interior de uma vida e nos dá a oportunidade de julgá-la como nunca julgamos nenhuma outra. O elemento visual, dos animais agindo como humanos, mas sendo fieis, em alguma porcentagem, aos seus instintos, é revoltante pois esfrega na nossa cara o quão retrógrados somos nas nossas concepções de valores absolutos e modernos. Portanto, antes de rotular alguém, é imprescindível conhecê-lo. Todavia, como nem sempre temos os meios para alcançar fontes que transgridam nosso reflexo inicial, ter calma é o antídoto mais confiável.

 

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