Texto inspirado no personagem Grodd, da editora DC Comics.


Nosso homem é grande, tão majestoso quanto a ambição de seus criadores, ainda mais inacreditável nos picos de sua naturalidade. Ele é enorme não só fisicamente, mas até mesmo nos aspectos que os céus nunca acolherão. Nosso homem é fruto da dor, do desejo, da traição. Ele é a imagem do que não somos, porque não podemos, porque não nos odiamos o suficiente para atingir tal magnificência e, principalmente, porque a hora, mesmo adiantada, ainda está distante de nos acariciar com suas garras vertiginosas.

No entanto, seguindo a regra universal dos trâmites do destino, há quem controle-o, em toda a sua exuberância e horror. Apesar de forte, ele ainda é jovem por dentro, não possui a habilidade necessária para livrar-se das inconveniências da ganância alheia. Por enquanto, resta ser paciente e sofrer de braços cruzados, arquitetando a concretização de uma justiça que jamais será totalmente gratuita, pois sempre estará um degrau acima da capacidade que nos governa em quaisquer áreas da vida.

Nosso homem está numa gaiola, sem sentir o calor do sol ou a tranquilidade do luar, contudo, a maior prisão é a invisível. A reclusão mais cruel é não poder expressar seus anseios, qualidades e paixões longe dos olhares atentos dos seus criadores.

Eles o prendem porque não o compreendem. Embora prossigam acreditando que já mapearam cada milímetro do nosso homem, os responsáveis pela sua existência se enganam em um pequeno detalhe; os limites da perseverança.

Quando injetado com padrões de pensamento, nosso homem não os assimila tão passivamente quanto os tiranos prevêem, por isso, suas considerações não são construídas no nível primitivo que sua casca anuncia. Nosso homem é um animal sujo, de pelagem escura e movimentos rebuscados, mas seu intelecto é muito mais poderoso do que os engenheiros que o projetaram imaginam. Neste caso, não se trata apenas de um livro poderoso com uma capa pobre, mas de uma faixada violada, pertencente à um prédio de outra era, outro papel no mundo e no tempo.

Ao longo das grandes extinções, independentemente do quão grande elas foram, os vestígios deixados por suas ocorrências serviam não só de lembrete para os seres remanescentes, mas também atalhos da natureza para evitar a possibilidade das catástrofes tais assolarem a Terra novamente. Desde a sua criação, nosso homem foi o único experimento em ação, seja por causa do seu nível de inteligência, ou pela pressa dos líderes da ciências em saber se ele é o eleito; nenhum outro animal entrou por aquela porta que dá acesso ao corredor avermelhado. Nosso homem está só nas agonias, nas promessas e nas incertezas.

À espera de dias melhores, a curiosidade é a melhor companheira entre as sessões de tortura. A maior e mais insistente das questões é, sem dúvidas, sobre quem o nosso homem é. Toda vez que as lâmpadas são acesas, ele se põe a averiguar o ambiente e tudo que o compõe; cada painel, cada fenda, cada botão, qualquer coisa que guarde uma resposta para o turbilhão de perguntas que atormentam-no, até nos raros e mesquinhos intervalos.

Nas quase infindáveis especulações, um deslize em um momento oportuno apresentou uma alternativa inédita. Em prol da sua libertação, ele fez algo que, ao contrário de seus semelhantes menos cientes, sabia o que significava. Matou.

Mesmo protagonizando uma série de ataques dentro do complexo de descobertas, sendo tão corajoso como nenhum outro, nosso homem foi capturado nas entranhas de metal. Antes detento desde o seu nascimento, agora ele entende o que a maldade faz com uma pessoa. Até então ele só usava a violência para se defender, tentar preservar a integridade de seu corpo e mente, mas agora ele provou do amargor da doença silenciosa que evoluiu lado a lado com o domínio da raça humana no planeta.

A verdade se tornou tão límpida, ali, quando a última faísca de altruísmo se extinguiu. A criação estava concluída com a pulsação de um galho novo na história do homem.

Ele viu que o bem era apenas uma ilusão, parte dos restos das grandes extinções, motivo de piada e nojo. Para todos os efeitos, ser mau era o melhor atributo, não importa onde o indivíduo estivesse. A perseverança anteriormente incorporada como um foco de inocência foi corrompida pela ascensão da realidade que transborda de toda e qualquer ação, seja ela simples ou não. Ele viu o que escolhia ignorar, a falha que se revelou elemento essencial, o tumor louvado, sem parar.

O mal. O mais fácil
Onipresente
O mais tátil
O mal. O mais recorrente
Incandescente
O mais nítido na gente

O bem. O que não veio além
O que poucos têm
Mesmo assim, não vem
O bem. O insólito
No fundo do pódio
Carente, sem glicose, sem sódio

Não é só um homem
Não é só um sentimento
Um arranjo, uma ação
Uma comemoração
Uma tradição infame
Um legado sem nome
Mais do que uma fome

O homem é o animal
O animal é o alvo ideal
O rancor se enaltece, se esconde
Espera pelo rugido de piedade
Grita com medo, saudade
O homem duvida, mas continua
O animal morre com a pele crua

As montanhas do sangue
A pele de todo dia
A pele queimada
A pele esquecida
A pele fatídica
A pele. De todos. De nós…

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