Exemplos de que uma sinopse pode esconder grandes maravilhas. Aquele momento que… a proposta da série faz você ver outro lado da vida, outra forma de pensar. Volume 1:

Grace & Frankie (Netflix)

A vivacidade na última parada no expresso da morte. Assim que nascemos, enquanto nos iludimos com a beleza do primeiro amanhecer, escolhemos ignorar o fato de que viver é, na verdade, morrer aos poucos. A morte em si, em sua plenitude e excepcionalidade, é apenas um símbolo da jornada que traçamos durante nossa existência. Para muitos, uma vilã, para outros uma redenção; a despedida final sempre guarda um significado especial para cada uma de suas vítimas/anfitriões.

Grace and Frankie é estrela do por duas atrizes magníficas (Jane Fonda e Lily Tomlin), que já tiveram seus auges  e hoje continuam a lustrar os legados. A série gira em torno das personagens que dão nome à mesma, mas a produção está longe de ser sobre velhice, tristeza ou morte. A série é, em sua mais nítida e frequente declaração, sobre recomeços.

A narrativa central tem como pontapé o relacionamento homossexual entre os maridos ( Martin Sheen e Sam Waterston)das duas senhoras e a revelação de tal laço. Ao se verem com a liberdade da vida de solteiras, à esta altura do campeonato, ambas, mesmo sendo divergentes em inúmeros assuntos, encontram compatibilidade na sensação de abandono com a qual têm que lidar, para que o trem progrida.

Quase todos os segmentos da série possuem coragem como o maior pilar. Tanto no lado dos rapazes, que já na terceira idade resolveram viver o resto de seus dias na zona da verdade; quando no das moças, que inevitavelmente terão que superar a perda de seus companheiros para poder priorizar sua felicidade. Independentemente de sexo ou orientação sexual, o seriado tem como intuito inspirar a disseminação de pensamentos otimistas que, por sua vez, descartem os julgamentos prematuros que as pessoas confeccionam diante de quaisquer empecilhos.

Carregado com um drama sutil e bem contextualizado, o pacote de aventuras de Grace e Frankie representa não só uma vitória para a diversidade na televisão, mas firmam a abertura da mente dos espectadores para questões que são comumente menosprezadas, e que poderiam ser resolvidas com uma pitada de atenção e consideração. A perda do brilho óbvio da juventude não significa encerramento da festa, mas a necessidade de determinar um novo ritmo, sob uma nova iluminação. Não há formula para ser feliz, o segredo está no quão único você se acha e o quanto de você ainda está disposto a dar, todos os dias, até o último deles.

Into the Badlands (AMC)

Assim como Grace and Frankie não se restringe ao ser idoso, Into the Badlands não aborda apenas as maravilhas das artes marciais. Se fosse uma produção simples, talvez não fizesse tanto sentido; a integração entre cultura, comportamento, desejo e habilidade acarreta na construção de uma história intrigante, que não depende somente de questões emocionais para se sustentar.

A distopia não cai no poço dos clichês quando opta por não focar nas partes destruídas do mundo -pelo menos não visualmente- e solidifica seus conceitos de funcionalidade a partir das ligações feitas entre um passado e um futuro distantes. A luta e a brutalidade são, como sempre foram, pequenas ferramentas que viabilizam a aceleração das relações políticas, sociais e amorosas. Dentre todas as regras do universo criado, nenhuma é sagrada, nem mesmo o poder mais incontrolável e incompreensível. Por mais influente que alguém seja, este  jamais estará acima de todas as peças que formam o quebra-cabeça no qual eles vivem.

Numa configuração de sociedade híbrida, o ocidente e oriente se convergem em prol da sobrevivência; assim, deixando várias barreiras históricas para trás, o ser humano põe sua vontade de continuar andando sobre a Terra como prioridade irrefutável. Embora ainda tropeçando na fluidez das engrenagens, o mundo em ruínas é melhor do que a extinção. A força não se concentra estritamente no punho, mas em qualquer setor que se faça carente de tal elemento. por isso, é importante frisar, a hostilidade é nada mais do que um combustível, uma camuflagem para os outros participantes do jogo chamado perpetuação da vitalidade.

Não sendo o bastante para poetizar a constante transformação dos limites humanos, a série ainda entrega uma tímida, mas perspicaz, discussão sobre o papel da mulher e a sua capacidade de liderança. Como um ponto excepcional, grande parte das intenções da antagonista partem de um raciocínio que empoderam as mulheres e a relevância das mesmas na dignificação de uma nova era. Contudo, apesar de recorrentes, os argumentos agressivos da “Viúva” (Emily Beecham) são ligeiramente egoístas, o que traz à tona o instinto individualista do qual nós não podemos nos livrar.

Contando com um leque enorme de possibilidades, o enredo mistura aspectos reais e místicos de uma equação que se torna mais palpável a cada capítulo. Conduzido por uma premissa romântica e tradicionalista, o trajeto da trama logo se revela inovador e cativante, abrigando uma tabela de qualidades técnicas incontestáveis e moldando suas pretensões com o auxílio de rotas familiares e confortantes. Saturada nas impressões sensoriais e pálida nos discursos, um trabalho excelente é trazido para a dissertação do tema destino, incluindo fatores que são tratados com indiferença regularmente.

No fim, todos somos ou um garoto, ou um matador. Ambos sem família, machucados pelas maldições de suas origens e em busca de respostas tóxicas, mas inegáveis.

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