Coração partido é uma daquelas feridas que ninguém sabe curar. Pensando bem, ou mal, nem a gente sabe se quer ser curado.

É numa jornada eloquente e de construção progressiva que Johnny Stimson nos transporta, sem rodeios, para a tempestade de emoções e questões que ele hospeda durante uma fase de tremenda instabilidade; isso tudo enquanto tendo a esperança como a peça mais importante e, portanto, mais sujeita a perdição.

A primeira metade da canção é bastante tímida sutil, coloca sob os holofotes apenas pequenos picos de irreverência, que mais tarde desenvolvem um papel surpreendente, já que ascendem consideravelmente no que diz respeito a sua relevância para o conjunto de arranjos central. Mesmo não sendo para os mais pacientes e atentos, a introdução incorpora vários elementos da música alternativa contemporânea, como a voz arrastada e os tons não tão ríspidos.

Johnny Stimson. Reprodução, Facebook.

 

Logo após brincar com o violão, o ato de abertura é seguido por uma mudança de ritmo interessante, que consiste na chegada de uma energia um tanto melancólica, acompanhada das transições ásperas e aumento no volume da voz. Para tornar a mensagem ainda mais pertinente, é justamente nesse instante que os versos se tornam mais agressivos, anunciando que o rancor da composição não está posicionado estritamente de maneira passiva. Entre oscilações instrumentais e crescimento acelerado em direção ao refrão, uma tensão monumental é constituída quase instantaneamente.

Antes dos atributos vocais do artista ganharem mais destaque, sua coreografia cheia de tremores é mantida. Com a adição de batidas mais longas e moldáveis, as palavras não soam tão cuspidas e o lançamento das mesmas não faz delas apenas mais um ingrediente na confusão gloriosa que se forma no eixo inteiramente melódico da obra. Para amenizar ainda mais a presença vocal poderosa, uma leve distorção é utilizada, com o intuito único de não infectar a música com monotonia.

O verdadeiro impacto, ou pelo menos o mais marcante, só vem na última instância da canção, quando a identidade montada segundo após segundo é reorganizada, a partir de uma linguagem mais ágil e descompromissada com a clareza de seus componentes. Apesar disso, o ápice da música, o momento em que ela ganha o coração do ouvinte, a razão de ela estar aqui, não se encontra na sua roupagem versátil que anuncia seu encerramento, mas em toda a hegemonia que, a princípio pode não parecer merecedora de tal reconhecimento, porém, é a responsável por não só cativar atenção, mas prendê-la.

Olhando, ou melhor, ouvindo mais de perto, música não é divida na metade, mas em terços; os dois primeiros representam toda a capacidade do Johnny quanto a sustentação de ideias argumentativas e sonoras, principalmente na complexidade desses quesitos, que não é exposta logo de cara e contribui diretamente para a qualidade dos mesmos; já o último capítulo da canção funciona como um bônus de criatividade, pois além de ter um aspecto de improviso, não corrompe os negócios feitos ao longo da obra, uma vez que o clima soturno prevalece até no mais fervoroso dos segmentos escolhidos para elucidar o sufoco do eu lírico.

Johnny Stimson. Reprodução, Facebook.

No fim da jornada, falta não só fôlego, mas motivos para não repetir a dose. Crua e sincera, a narrativa dispensa o uso de metáforas complicadas e finda suas orações sem a carência de justificações muito elaboradas.

Para cada galho da árvore do remorso, uma flor seca e uma flor em botão, uma sem saber quando cairá e a outra sem saber quando desabrochará. Stimson dá o passo mais árduo na tentativa de se recuperar de um dos baques mais danosos da vida, ele obtém sucesso nesse movimento desengonçado, pois consegue demonstrar seus erros, arrependimentos, dores e ansiedades por meio de uma fala corajosa, envolvente, corpulenta e irrefragável.

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