Queridas pessoas brancas
O prazer nunca foi eleito
As diferenças jamais brandas
Os contrastes são defeitos?

Serão as peles tão imponentes?
Diante do ódio ainda vigente?
Que humanidade é desumana?
Que sensibilidade tua língua emana?

Será o grito de reflexo indigesto?
E a cor do suor do protesto?
O volume é incômodo, é?
O silêncio nunca foi lenda, mané!

Será minha escuridão teu olhar?
Será minha inferioridade teu delírio?
Será essa cogitação teu pesadelo?
Será minha inquietação meu começo?

Adaptemos um filme, então
Tirando-o das entranhas
Dando à temática ampla visão
Netflix acolhendo obras estranhas?
De 2014, do vale dos ícones anônimos
Nada de clássico, produto bubônico
Ácido, histérico, fugaz como poucos
Distorcendo o entendimento do escopo
Entretenimento de negros no centro
Misturando comédia e ativismo
Sensualidade, juventude, abismos
Curvas em hashtags e manuscritos
Negros são barulho, são orgulho, não só isso
Negro é gente que estuda e quer respeito
Negro é gente que procura seu direito
Negro é insolência à tradição opressora
Negro é irreverência à inovação enganadora
Negro tem nojo da oportunidade hipócrita
Negro tem fome de verdade agora histórica
Negro é negro em qualquer nível da paleta
Mais escuro, mais claro, não é brincadeira

Protagonista feminina
Daquelas bem ardentes
Nada de fala curta, voz fina
As palavras perfuram eloquentes
Dotada de vulnerabilidades
Afinal, ninguém é imune a desfalques
O belo toma outras formas, mais profundas
A mulher não é apenas peito e bunda
Há complicação sentimental, política
Há subversão na cabeça e na vagina
Tudo feito sob a lente de jovens feridas
Corroboradas por veia poética, íntima

Eis que, do chão, com razão
Começamos com narração
É pertinente, sem ser descartável
Contextualização muito respeitável
Contemplativa e antenada na urgência
Saliente ainda que envolta em indulgência

Os deuses aqui são a ironia
A sátira em todo “bom dia”
O sarcasmo sem máscara sombria
O amargor em toda ridicularizarão
A doçura no ataque com verbal ilusão
A falta de vergonha de corromper a prisão
Os deuses aqui são as hibridezes de expressão

Fotografia que dá show, hein
Cores para exatamente ninguém
O amarelo é espetacular, hein
Exuberante sem poupar um vintém
Casual e formal e fluido, sempre
Nos móveis, na atmosfera, na gera
O marrom cai como véu proibido
Ao invés de esconder, exalta o perigo
A diversidade valorizada é pavio aceso
Explosão de amor próprio pode ser desespero
Quem é você nesse insano contexto?

A força na direção vem de vários lados
Provando que o intuito não é barato
Há enquadramento longe de apático
Curiosamente, tudo é muito básico
Nada de truques, apenas audácia
Futilidades ilustres são para falácias
Joga o personagem para o canto
Simplesmente encurralando-o
Grave uma cena de vários ângulos
À mensagem várias leituras dando

O orçamento é discreto
O resultado, nem tanto
O crucial é o peito aberto
Sem esquecer de se duvidar
Sigamos levantando e questionando
Coloquemos a autoconfiança em seu altar

Netflix, de novo, ainda bem, acertando
Netflix, do povo, representação, continuando
Netflix, de novo, muito bem, criticando


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