Eu, apenas eu, não sou mais suficiente; até na hora de brincar, é preciso competir, brigar por destaque, avanço, prestígio. 1 pedra, 1 giz, e como disse, nada de solidão.

Formas geométricas, quando desenhadas por mim, são feitas cautelosamente, todas quase perfeitas, idênticas umas as outras. Enquanto tomo o tempo necessário para atingir a excelência, os outros conversam sobre o jogo de futebol, já as meninas falam como a novela das 19:00 hrs está indo. Não me encaixo muito bem em nenhum dos assuntos, mas quando se trata de uma boa disputa, dinâmica e rápida, entro na roda sem pestanejar. Naquele momento, sou parte da turma, sem nenhuma questão, preconceito ou receio.

Quando o esquema já está pronto, decidimos, aleatoriamente, qual será a ordem dos participantes. Eu não quero ir primeiro, não sou extrovertido o suficiente, prefiro ficar no meio, pois aprendi, da pior forma possível, que pessoas como eu não podem ser deixadas no final da fila. Com o encerramento dos preparativos, não é necessário explanar as regras, visto que a ação a seguir está longe de ser uma brincadeira nova. Assim, começamos a jogar a pedra e, consequentemente, pular.

Este deve ser o exercício disfarçado de diversão que eu mais aprecio. Não existe ninguém me empurrando e, embora haja uma torcida negativa para que eu perca o equilíbrio ao tentar recuperar o pequeno objeto, não me sinto tão pressionado quanto nos esportes que praticamos na aula de Educação Física. Eu vou bem, e quando perco, não ocupo a pior posição; talvez seja porque, mesmo atuando junto à um grupo, trabalho bem dependendo somente de mim; sempre foi assim, não me pergunte O ou os porquês.

Jogar e recuperar aquela pedra trazia, a cada tentativa, uma sensação de glória diferente. Tudo ia bem, mesmo quando eu extrapolava na força ou errava nas deduções da mesma. Por alguma razão que jamais consegui assimilar, ao falhar no jogo de Amarelinha, não sentia tanta infelicidade quanto em outras atividades. Gostaria de justificar tal fenômeno com a irrelevância do ritual infantil, mas se realmente analisar do que aquela ocasião se tratava, constato que ela significava muito para mim e meus colegas. Logo, a plenitude da alegria naquele instante ainda permanece como um mistério, que me persegue acompanhado de uma trilha sonora de suspense, intensificando minha incapacidade de decifrar os capítulos mais ingênuos da minha existência.

Mesmo gordo, pulava como todos os outros; mesmo tímido, sorria sem me censurar; mesmo desesperado por dentro, esquecia da agonia quando estava ali, brincando. A magia daquele momento suplantava seus alicerces. A grande vitória era obter êxito na colocação da pedra em todas as 10 “casas”, todas as manobras tinham que ser feitas  seguindo as regras minimalistas de uma coreografia à qual estávamos acostumados. No fim, alguns gritos eram o prêmio. Eles vinham de várias direções, sendo que os mais influentes eram os oriundos do vencedor. Não me recordo de quantas vezes venci, mas tenho certeza de que não foram muitas. Caí e relei o joelho numa tarde de quinta-feira; gargalhei diante do sangramento. De todas as maravilhas do mundo, nenhuma se fez tão digna da minha dedicação quanto àquelas vezes em que brinquei, nas calçadas mais óbvias e inusitadas, de Amarelinha.


Estou na frente da minha residências, o clima é tão propício para brincadeiras quanto nas tardes em que meus pés se despiam para dar mais liberdade àquela maravilha empoeirada e ofegante. Mas a preocupação atual não é encontrar um bom material para desenhar no chão, ou um número considerável de crianças; existem contas, afazeres, responsabilidades e prazos.

No início, o frenesi parecia animador, pelo menos na minha visão, entrar nesse novo estágio da vida era o mesmo que ampliar os perímetros do prazer. Contando com o aumento de lugares onde minha presença é permitida, ao adentrar a faixa etária mais determinante, percebi, aos poucos, que as desvantagens compartilham a superioridade das primazias. A maioria dos engasgos se deve à complexidade e relevância das escolhas, independentemente de seus tamanhos e repercussões.

Se na Amarelinha as escolhas eram organizadas e previsíveis, agora, qualquer passo, até os mais banais, se transforma em uma desordem interna. De todos os ângulos possíveis, a dificuldade não se concentra em pegar e arremessar a pedra, mas em carregar o que a mesma significa, tanto para o protagonista quanto para os que não só vivem ao seu redor, mas influenciam direta e indiretamente em qualquer julgamento dessas escolhas.

As decisões mais vertiginosas são, de longe, as que partem das preferências involuntárias do indivíduo e que, futuramente, definirão que tipo de vida ele terá. O jogo não era transferível, nem moldava a forma como a pessoa era vista após o término do mesmo; qualquer resultado era rapidamente esquecido, logo as pessoas envolvidas voltavam se relacionar cordialmente. No entanto, isso não pode ser dito quando nos referimos aos mecanismos de interação atuais. Com o passar do tempo, as pessoas se distanciam, não porque gostam de ficar sozinhas, mas porque temem a má conduta dos outros para com os seus planos.

A quietude antes cultivada por motivos obscuros e íntimos se classifica como algo comum, necessário para conviver entre os seres mais desenvolvidos, que já têm mais contato com o mundo, quem sabe, real.

O fato do universo dos crescidos não se sustentar com simplicidades é o mais decepcionante entre as descobertas feitas durante a transição. Os adversários, anteriormente portadores de performances pacíficas e leves, não alimentam mais a reciprocidade sadia porque acreditam que essa atitude é uma das debilidades primordiais.

A falta de compaixão e entendimento das limitações alheias é onipresente; mas é no setor dos erros que sua malevolência obtém mais notoriedade. Para todos os efeitos, funciona basicamente assim: Quando caíamos, em qualquer situação do jogo, éramos acolhidos com um olhar/discurso de zombamento inofensivo e momentâneo que, quase sem exceções, também era incorporado pelo perdedor. Todavia, hoje em dia, quando beijamos qualquer superfície degradante, somos praticamente obrigados a carregar, além do fardo inicial, as dezenas se sentenças pessimistas e saturadas que utilizam nossas inabilidades e escorregões como matéria-prima.

Se esse monte de desgraça não pudesse ser ainda mais desgraçado, existe outra mudança nas coordenadas do percurso das escolhas: Quando uma batalha acaba, outra começa instantaneamente. Apesar de não de não se originarem restritamente dos nossos milhares de sonhos, as lutas por respeito, dignidade e destaque são totalmente tóxicas e inevitáveis. Suas características variam de acordo com cultura e posicionamento social, mas enquanto houver combustível para ser queimado, novas formas de tortura continuarão emergindo e se provando mais duráveis.

Pior que marcar o cimento com gesso é manchar a consciência. Sem harmonia em mais da metade do processo, brincar de viver é chato e desgastante. Não há copo d’água que alivie a tensão, nem abraço que retire o desconforto da derrota; pular tentando evitar as linhas do destino letal é uma rotina sem padrões, que não pode ser aceita ou rejeitada; há uma contradição eterna nas opções que se estendem em confronto com as nossas disposições, mas não podemos dizer nada, não enquanto quisermos ser, como eles dizem, alguém. O ganhador da Amerelinha ficou para trás, com suas mãos sujas de terra, olhar radiante e entusiasmo não fabricado.

Por fim, estou mais distante de mim, apenas querendo mais uma tarde sem a ladainha da ditadura da excelência, afinal, ninguém quer que ninguém seja ilustre, a não ser que essa pessoa seja a que está no controle. Contudo, se pararmos novamente, saberemos novamente, que quem está no controle, na verdade, está sob controle.

As regras da competição invisível são tão tradicionais quanto as do entretenimento rudimentar, a única diferença está na maneira como as duas se camuflam. Enquanto uma se vestirá com as mais belas vestes, com o puro intuito de seduzir as peças do seu tabuleiro, ou seja, nós; a outra, em todas as localizações, será um desenho em uma tela aleatória, servindo como treinamento inútil para uma briga nefasta.

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