A dor nas costas, a que não veio da curvatura das apostilas ou do prazer tardio, começou em um outono distante, foi a primeira, uma das mais intensas, pulsa mais quando o céu se despe de luz e as cigarras chamam as estrelas. De dentro do quarto, sobre travesseiros e agulhas, ouço pouco do que ainda consigo captar. Minhas antenas já não são as mesmas, e são, ou não? Bebo o que ainda posso, ainda bem que posso. Agora sei, realmente, o quanto vale cada nuance, de cor, de cheiro, de temperatura de tudo que vem de fora de mim. Não é tempestade de prazer, e é, da última das formas. Cada nova lua é velha que se renova, diferente de mim. Nas as veja, mas elas entram pela janela que abrem de vez em quando, cada uma é uma mais próxima daquela que iluminará meu ser quando eu já não for o que me resto. Atravessei corredores, pontes, ruas e diagnósticos. Me afoguei em lamentações, cuspi arrependimentos, abracei as poucas glórias, condensei todo sofrimento. Agora, mais lentos, as luzes e os ventos, passam como lembretes e amostras, do que eu fui parte e do que eu nunca participarei. Agora, sem mais horas para desperdiçar, sem mais honras para acumular, sinto o toque de cada segundo e cada vírgula de cada pesar. A mente é sábia. É sabido que tudo não é palpável, mas tudo é respeitável quando se percebe que o que há é o que há, assim como o que não há simplesmente não há. Não há o que fazer quando o que há a se fazer é esperar o ponto que é único. O último traço da linha, o último conto da coletânea, o último pingo do texto, o último suspiro, o último grito, o último delírio, apenas mais um, talvez o mais significativo, talvez o menos aceito.

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