Porque não precisar se preocupar com (quase) exatamente nada é muito bom. Então, aqui vão algumas produções bem amigáveis, que sempre entregam episódios em um modelo narrativo linear e não requerem sua atenção em outros episódios. Mas, se por acaso, você realmente for curioso e quiser saber como os personagens chegaram até ali, também será uma jornada válida e positiva. Todas são comédias e duram, no máximo, 30 minutos, logo, não há desculpa para alegar que são deveras longas e entediantes para a sua sessão de relaxamento.

2 Broke Girls (CBS)

Desde 2011 trazendo muita irreverência e piadas de cunho sexual para a televisão, esta comédia é centrada em duas mulheres que se conhecem, principalmente, por causa da situação financeira na qual se encontram. No entanto, enquanto uma delas, Max (Kat Dennings), é uma pobretona experiente e acostumada com as inconveniências do subúrbio nova iorquino, a outra, Caroline (Beth Behrs), foi criada em uma atmosfera social completamente diferente, cercada por privilégios e extravagâncias, até que seu pai foi preso por ser o maior beneficiário de uma série de crimes do colarinho branco.

Assim, unidas por um destino repleto de elementos desvantajosos e injustos, elas buscam ascender na vida através da junção de suas aptidões. Max faz cupcakes para complementar sua renda e Caroline ornamenta os números, já que sempre foi interessada por economia. Tentando redefinir suas rotinas, as duas montam um pequeno e amador negócio culinário, visando a realização de seus sonhos, ou meramente a melhoria do seu quadro atual.

Durante a série, ao fim de cada episódio, uma tela com a quantia que as garotas possuem no momento é mostrada; às vezes os números são motivadores, mas grande parte dos resultados é decepcionante. Sendo um retrato de uma esperança cultivada por milhares de pessoas, a produção usa o sufoco como base para os acontecimentos intensos e quase inacreditáveis na arquitetura de um roteiro fluido e cativante. Os temas amizade e persistência são muito bem trabalhados; além disso, o texto raramente decepciona e as risadas de fundo quase não são percebidas, uma vez que a química entre as atrizes protagonistas é hipnotizante.

P.S.: A objetificar masculina é uma artifício comum.

Broad City (Comedy Central)

Também comandada por duas mulheres, a série que começou timidamente no YouTube não sofre com os mesmos limites da TV aberta. Transmitida pelo famoso canal direcionado à conteúdo sintético e satírico, a trama também é localizada em Nova Iorque e, se desenvolve sobre a premissa das aventuras insanas entre Abbi (Abbi Jacobson) e Ilana (Ilana Glazer).

Hospedeira de uma estética bastante peculiar e expressiva, a série aborda diversos temas de maneira explícita, sem deixar de lado os mais insignificantes dos detalhes. Fazendo críticas a hipocrisia da sociedade em relação às drogas, orientação sexual, religião e etnia, o seriado não tropeça em momento algum. O humor negro é ácido e pertinente, não deixa a peteca cair e ainda envolve diversos subtemas dentro da proposta central de cada episódio.

Com um tom informal executado maravilhosamente, as crônicas inescrupulosas pegam os desafios do cotidiano e os transformam em pequenos shows contundentes e de natureza saturada. Frequentemente ridicularizando clichês, “Broady City” não tem vergonha de mostrar nada, mas não vai tão longe a ponto de perder o rumo da coerência poética instaurada no início de cada capítulo.

Rica em diversos quesitos técnicos, a série não se prende a uma só forma de contar suas histórias, portanto, esperar o inesperado é sempre o melhor a fazer, quando se está prestes a dar o play em um dos exemplos de criatividade que nunca falham na arte de entreter e provocar.

New Girl (FOX)

A eterna fofa Zooey Deschanel dá vida à incontestavelmente fofa Jess, numa comédia de configuração doméstica que esbanja fofura, mas não evolui muito ao longo de suas longas temporadas. Basicamente mais uma produção sobre um grupo de amigos caricatos e estranhos, a estrutura interna da série não oferece características surpreendentes, mas serve justamente para ocupar nosso tempo durante o almoço, jantar, ou antes de dormir; é uma série perfeita para não se estressar com originalidade ou progresso, já que sua intenção, desde o início, é ser comercialmente bem sucedida.

Sustentada por romance e atos inconsequentes, “New Girl” é excelente em seu posicionamento mais recorrente; a demonstração de que mesmo ao crescer, continuamos com uma criança dentro de nós. Desta forma, constantemente dependente das atitudes imaturas e mal pensadas, a produção, assim como seus personagens, brinca com coisa séria, e empurra o amadurecimento para baixo do tapete. Felizmente, isso é feito de maneira impressionante, já que a lentidão no contexto geral da série deveria ser interpretada como algo negativo, mas acaba se consolidando ao conservar o nível de agradabilidade.

Muito situacional na construção de seus episódios, o seriado difícilmente toca em assuntos mais sérios; o mais próximo de um bom drama que ele chega é quando resolve distorcer o andamento das ocorrências com as cenas de diálogos, estes sendo compostos por um certo teor de emoção, mas inúteis em eventos futuros. Não se detendo fervorosamente à causas externas ao labirinto comportamental do grupo de companheiros fieis, é normal que todos os problemas apresentados sejam muito similares aos já resolvidos. Mesmo assim, exclusivamente como um motivo para dormir assistindo, a professora infantil e seus amigos que acreditam não ser infantis valem a pena. No final das contas, um horizonte sem montanhas pode ser sinônimo de prazer.

Younger (TV Land)

Das mesmas mentes por trás de Sex and the City, vem uma série tão encharcada nos sonhos femininos quanto ela. Um tanto ilusória e desprovida de sensatez, “Younger” só precisa de uma chance e uma mente aberta para inúmeras curvas não programadas. Esta é, resumidamente, uma história sobre uma mulher que se divorcia aos 40 anos de idade e ao sair para se animar na noite, é confundida com uma pessoa na casa dos quase 30. Encorajada por sua melhor, e mais audaciosa, amiga, ela embarca em uma vida alternativa, onde todos, inclusive seu novo namorado, pensam que ela é uma década mais jovem do que sua idade verdadeira.

Ao nos desacorrentarmos da eloquência, podemos também desconsiderar o fato de que as pessoas não seriam tão facilmente convencidas de que ela teria a idade que alega e, portanto, aproveitar o mais instigante da série; a nova oportunidade de trabalhar com publicação literária e viver um amor ni qual ela não se sinta como uma fornecedora de orgasmos e roupa limpa. Funcionando como guia do que fazer enquanto ainda se tem juventude, a série coloca a mediocridade com a qual as pessoas se tratam ao ficarem mais velhas e enfatizam a importância de acreditar no seu potencial e felicidade, independentemente de quantas primaveras já se passaram.

Dinâmica e antenada nas atualidades, recheada com referências culturais do outro século e sacadas que dão complexidade à identidade dupla de Liza (Sutton Foster), o canal TV Land acertou em cheio quando apostou nesta mina de ocasiões sutis e icônicas, que além de serem essenciais para manter a jovialidade da série, contribuem integralmente para o atraso do desgaste natural pela qual a produção deve passar. Assim, trilhando um caminho feito de tópicos simples e lições inspiradoras, a produção sobre futilidades tóxicas e magníficas alimenta um senso de experiência e sabedoria regularmente.


Young & Hungry
(Freeform)

Se distanciando dos padrões dos sitcons, a obra televisiva em questão gira em torno de Gabi (Emily Osment), uma jovem chefe de cozinha que mora com sua melhor amiga, Sofia (Aimee Carrero), e trabalha para o empresário do ramo da tecnologia, Josh (Jonathan Sadowski). Vítima de sua inocência diariamente, a garota se mete em tremendas confusões, das quais só consegue sair com o auxílio de terceiros. Toda trabalhada na tragédia e vexames, a série não decepciona na ampla exibição de acontecimentos infames.

Muito eficiente na mistura entre vida pessoal e profissional, o seriado impõe transições maléficas e gentis nas visões de mundo dos personagens. Elliot (Rex Lee) e Yolanda (Kym Whitley) são os extremos mais bem-vindos entre todos os existentes em “Y&H”; eles servem como palcos perfeitos para a explanação de pequenos, aleatórios e queridos momentos. Apesar de se perder, às vezes, no romance inviável e vergonhoso, o enredo não tem outros desfalques e consegue se erguer sem apelos que fujam das suas características usuais. Refém das gargalhadas inconvenientes, o estilo das piadas nem sempre surte o efeito pretendido, entretanto, o intuito é recebido e a qualidade é raramente comprometida de forma severa.

Confortantes e satisfatórios, todos os episódios representam a superação de algum obstáculo ou medo; logo, “Young & Hungry” é fonte não somente de risadas, mas também de inspiração e alta autoestima. Entre equívocos provocados pela impulsividade e maravilhas na colisão de ideais, a série oscila graciosamente e perpetua sua missão de espalhar alegria usando ingredientes absurdos, mas não tão perturbadores.

The Middle (ABC)

A mais apropriada para qualquer idade, “The Middle” e versátil e consistente em todas as suas temporadas. Diferente de “New Girl”, o tempo só faz bem e mostra que os roteiristas sabiam com o que estavam se comprometendo quando começaram a escrever a partir da primeira ideia. Além disso, a produção familiar e simplória tem atores como Patricia Heaton e Neil Flynn no topo de sua torre, sem esquecer do time de talentos mais principiantes formado por Charlie McDermottEden Sher e Atticus Shaffer

Quando a estranheza da família ganha espaço na TV, nada melhor do que colocá-la em um ambiente tradicional e divergente do que vemos quando olhamos pela janela. Numa constituição de fácil assimilação, os Heck vivem e nos fazem reviver capítulos ordinários de várias fases da vida através de uma lente rústica e descompromissada com a beleza absoluta. Quando falamos deste seriado, a maior exuberância está nos ensinamentos imbutidos no mesmo.

Bullying; crise de meia idade; realidade da vida adulta e universitária; primeiro beijo e muitos outros dilemas; todos tratados com uma sensibilidade incrível, organizados numa bagunça que carrega consigo uma certa passividade. Conhecida por seus episódios de datas comemorativas, a série não poderia ser mais relevante na construção do seu reflexo de um núcleo social tão universal. A genialidade está depositada na exploração de um grupo de parentes “normal” para penetrar conflitos existentes em todos os tipos de linhagens.

Em conclusão, se você gostar de assuntos que exercitam a sua capacidade de se conhecer e aprender a amar as pessoas com seus defeitos de fábrica, não sinta receio e abrace essa obra de arte.

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