Antes, durante os bons tempos, eu sofria, pensando em como eles uma hora me deixariam, iriam sem dizer adeus, suavemente, e então, de repente, me despindo do incomum sentimento de completude. Antes de ficar ao relento, sem as respostas, apenas com perguntas, eu crucificava minha felicidade, minha estabilidade; me culpava por não estar mais preocupado com o futuro, com a mudança da maré, com a alavanca emperrada do destino. E então, me preocupava, mas não me sentia melhor, muito pelo contrário, me condenava a sofrer em dobro, antes do tempo, como se eu tivesse feito algo horrível; e fiz, a mim mesmo. Não era a falta das perguntas que me animava, mas a simplicidade da instância da melhor solidão de todas. Eu amava não ter que me desdobrar em mil só para me torturar e me amparar e me torturar. Não ter que questionar toda curva como se não houvesse nenhum retorno aceitável ou digno o suficiente, não ter que contar com a minha falta de paciência para me guiar pelos mais ordinários dos eventos. Tudo isso ficou para trás, um pouco mais, quando parei de tentar suprimir meus defeitos, quando finalmente os abracei como inspiração, não só no tempo, mas no modo como os assumi como parte de quem fui e sou e quem sabe serei. Nada está perfeito e as turbulências me seguem aonde quer que eu vá, mas os tombos são parte da coreografia, agora, a maior dificuldade é me impedir de voltar para dentro do casulo. Posso não ser a borboleta mais esperta ou graciosa, nem a mais radiante e sedosa, mas conheço meu voo melhor do que ninguém, sei que a dor de cada batida de minhas únicas casas é a risada de amanhã e o desespero de daqui a pouco é a normalidade da semana passada. Não peço desculpas a mim mesmo porque o erro é, também, parte do meu brilho, principalmente quando incompreendido.

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