Morta. A moça volta.
Morte que foi por si só?
Ela retoma, reconta, revive, retorna
Do seu ponto de sofrimento
Da tumba, da fita, da memória
Do boato, da verdade, da história
A que se conta para causar
A que se conta para dignificar
A que se conta só por contar
Suicida. A moça ainda é ativa
No preto do passado das fitas
Em cada lado, versão, dela, dita
Como um laço de sua despedida
Como cicatrizes de como terminou sua vida

O moço gentil, quieto
Agora no olho do furacão
Mais que tipo estranho de confusão
Psicológica, nostálgica, sem nenhuma ilusão
Apenas o amargor das grades da prisão
Os frutos podres de cada percepção
O erro do veneno da precipitação
O moço é parte da compilação
O moço pôs o olho, a mão?
O moço fez o quê então?
Ou não houve feito, não?
Há inocência nessa perdição?

E há desenvolvimento
Introdutório, consciente
Com a magia adolescente
Com o horror adolescente
E há contextualização
Do primórdio do prazer
Do primórdio da desgraça
De todo gozo perigoso
De toda pequena arma
De como dói se entregar
De como contamina o pensar
De como é imensurável o pesar
De como é metamórfico o viver
De como nunca é suficiente o saber
De como o fim nunca é aparente
De como se subestima o valor da gente

Fotografia tristonha, azulada
Mas acesa, nada soturna
É a maciez incrível que assusta
A realidade não é tão engomada
Melancolia chique, desonesta
Dona de hashtag, olha essa…
Se faz de irreal, mas vem à tona
Com máscara banal, também vai à lona
Mudança de canal, novo tipo de bomba

Trilha sonora visceral
De toda forma, jovial
Ardente em todo instante
Do mais ameno ao mais vibrante
Virtualmente enviesada na maior parte
Camadas eletrônicas de intensa arte
Tradução ansiosa de emoções volumosas
Roupagem coerente para trajeto ascendente

Tratar da juventude com mistério
Sem tirar o teor de previsibilidade
Mostrando as sombras da realidade
Sem dispensar grandiosos critérios
Ir com calma, fazer com sutileza
Não dar de graça, enaltecer belezas
Até nas quedas e distrações e distorções
Encontrar joias na narrativa e nas atuações
Pescar dicas de personalidade e possibilidades
Completar teorias de probabilidade e inventividade
É possível ser imaturo na superfície, na aparência
E por dentro fazer diferente, com toda paciência

E quem diria
Carta do roteiro
Protagonistas alucinantes
Níveis discrepantes
Um que ainda respira
Não tão autoconfiante
Um que já se deu adeus
Mas finalmente deixa marca
Ambos numa viagem alarmante
Nos dois lados, trágica

Pulamos clichês
Replicamos outros
Desafiando o freguês
Subvertendo o ouro
Partindo do básico
Para o que há além dele
Sem fugir tanto do básico
Para refletir sobre ele

E tem espaço também
Para visão da sociedade
Da mulher e seu corpo
Da sua liberdade sexual
Do que vem infame no pacote
Do que vira viral, chacota
Do que é mérito idiota
Tudo isso desde cedo
Nas raízes da tal cidadania

Netflix em temática jovem
Mandando bem, cautelosa
Competente, vertiginosa
Netflix cultivando ícone pop
Agraciando vulnerabilidades
Preservando sinceridades
Netflix ácida como sempre
Fiel a identidade do produto
Radiante acima de tudo
Netflix em mais um projeto
Mais uma semente de sucesso
Outra série prestes a dar certo
Se se manter relevante, então…
Se se manter respeitável em sua contemplação…


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