Não sei que horas são; na verdade, não preciso saber.

De lá para cá, de cima para baixo, nem sei quem sou. Quando tenho um tempo só para mim, sem afazeres ou prazeres mais deslumbrantes, venho até o parquinho, sozinho, para ser dono de nada, só para ter uma paz gratuita longe dos holofotes. No sol, no vento e na metamorfose do crepúsculo, até na chuva eu já vim, vivi, ainda estou aqui. O pior, e melhor, é que não posso explicar com palavras bonitas, pois não sei de onde tanta plenitude espiritual vem. Tenho medo de feri-la.

As chegadas, sempre quietas, têm seu silêncio quebrado quando minhas mãos tocam as correntes e as correntes se tocam. É quase um ato mágico. Já sentado, meus pés acariciam as pedras, anunciando o início da sessão de pequenos impulsos, os primeiros e mais decisivos. Não importa se estou ofegante ou desanimado, sempre encontro forças para puxar meu corpo para traz e depois libertar-me da antecipação, deixando a gravidade ser minha amiga, apenas ali.

Quando já estou numa velocidade confortável, gosto de fechar os olhos e apreciar o frio na barriga, que interliga as ascensões e declínios de altitude. Quanto mais alto, mais demoradas são as viagens; nas descidas, não perco apenas minha noção de espaço, mas parte da escuridão em meu coração. É mais do que bom, estar tão naquele brinquedo é uma mistura de controle de despreocupação.

Quando já estou cansado, paro de fazer quase nada e passo a fazer completamente nada. Em seguida, no fim, volto para casa, com um tom mais vívido na alma.


Acordo, morro, renasço… Obrigatoriamente. Sinto saudades daquele balanço, de nossos momentos isentos de expectativas e despedidas onde lágrimas não eram elementos corriqueiros.

Andando pelas ruas, ainda avisto alguns de seus semelhantes, vazios, parados; todos esperando por crianças insanas ou a bênção de uma brisa qualquer.

Hoje, viver, por alguns segundos, apenas sendo, é um “ato de desperdício”. Mesmo querendo muito, não tenho como me colocar em estado de alívio, por mais insistente que minhas memórias sejam, as prioridades atuais são muito perversas, não abrem nenhuma lacuna para que eu esqueça de tudo que está dando, e pode dar, errado na minha caminhada.

Ainda lembro de como aquele ritual inocente mudava minha perspectiva, restaurava minha esperança e adicionava mais algumas razões para eu continuar lutando. Estou colhendo os frutos doces de tais ocasiões de desabafo. Entretanto, temo, diariamente, um amargor, já que as fontes de absorção de energia negativa estão cada vez mais escassas. Isso tudo porque, ao crescer, aprendemos a engolir não só o choro, mas todas as outras demonstrações de fraqueza e instabilidade. Só nos ensinam a oprimi-las, e não a lidar com as mesmas, logo, se não são expelidas na atmosfera em forma de desapego e aceitação, nossos defeitos e fracassos nos corroem de dentro para fora e em algum momento, de uma forma ou de outra, as marcas dessa atitude começam a surgir no nosso olhar, pele, emoções. Dos atos mais ordinários aos mais cruciais, 15 minutos no balanço fazem muita falta.

Me perco no bosque das questões. Ele parece não ter saída.

  • Como voltar ao parquinho?
  • Como ignorar as podridões que os outros pensam?
  • Como ir contra a normalidade sem ser prejudicado pela ditadura da mesma?

Aquele lugar sagrado não está mais acessível por diversos motivos, determinados pelas nossas percepções e mudanças involuntárias. Contudo, evoluir na idade, ao contrário do que a maioria alega, não é, indiscutivelmente, sinônimo de perda de certas belezas; sendo assim, é possível adotar um novo ambiente, onde o mundo do cotidiano seja inteiramente ofuscado e a poeira possa, finalmente e momentaneamente, baixar. Confesso que ainda não encontrei meu próximo santuário, por isso, me aflijo diante da incerteza de um novo dia, uma vez que não possuo nenhum instrumento ou rota capaz de me alertar quando os resquícios do recinto acolhedor anterior irão acabar.

Bloquear as alfinetadas alheias é um procedimento tão árduo quanto perigoso. Além de representar um grande passo na jornada em busca do mínimo de tranquilidade, posicionar-se fora do radar de eficácia do veneno das pessoas pode acarretar na precarização das nossas habilidades de defesa. Esses ataques ácidos são tão influentes que se proteger deles através de uma simples manobra de desconsideração não é o método mais promissor. Todavia, aprender a reutilizar esses insultos desnecessários é, de longe, o mais sensato a se fazer. Infelizmente, nem todas as pessoas estão dispostas a se arriscarem nesse jogo de opiniões e valores que, em quase 100% dos casos, é governado pelo senso crítico dominante, que por sua vez é o menos racional e intolerante, ou seja, visualiza apenas um rumo no sucesso de seus planos; a dedicação integral dos indivíduos às filosofias que excluem a reciclagem da sabedoria infantil.

Se ainda estou desfilando miseravelmente, é porque não sei como combater o sistema do qual sou dependente. Confrontar, explicitamente, os julgamentos absolutos sobre como um adulto deve agir não é tão fácil e rápido quanto soa. Principalmente para aqueles que, como eu, ainda usufruem das riquezas das eras passadas e estão cientes de que poderiam ter aquela maravilha sem glamour ainda hoje, conviver com a hegemonia de pensamentos estritamente focados no progresso, independentemente do nível de felicidade e bem-estar interior, faz parte de uma rotina desgastante e desanimadora, que só pode ser enfrentada por hospedeiros de mentes desprovidas de mecanismos padrões de envelhecimento.

Resumindo: Para sobreviver aos ultrajes camuflados na sociedade, temos que não só lembrar do passado, mas preservar o que há de melhor nele.

Mantenho a cabeça erguida
Enquanto der
Para o que vier
Mantenho o sorriso no rosto
Genuíno, até no fundo do poço
O que sempre tive
O que nunca deturpei
Mantenho a sede de uma justiça anônima
Sempre merecida
Raramente apreciada
Sem preço, indomada
Matenho a esperança intacta
Ao longo dos anos, dos desesperos
Depois de inúmeras quedas, de desapegos
Mostro o punho, de pé, de joelhos

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