Vítimas sem rosto
Preparem-se para… roubos
É só isso, sim, sei que é pouco

Mais uma jornada
De empatia inesperada
De humanização planejada
De companhias inusitadas
Mais uma jornada
De proposta mal coordenada
De atributos fora de escala
De aberturas descondensadas
Mais uma jornada
De caras mal apresentadas
De motivações secas, forçadas
De ideias frágeis e superestimadas

O que propõem é a comoção
O embarque no crime, na perdição
O amor por quem não tem nada
E de quebra, tem índole sucateada

Quando se pega tais elementos
É fácil errar no tom de envolvimento
E o que é feito para ser divertido
Acaba sendo mero componente colorido
Não deixa o espectador satisfeito nunca
Pois a ilusão, da nossa cordialidade, abusa

Um, dois, três
Irmãos, amigos, parceiros
Para baixo e avante, pelos becos
Afoitos e jovens e sem dinheiro
Com a mão sempre no bolso alheio
E vão, e fazem, e se refazem
Do nada, tudo, e nada de futuro
Do medo, o impulso, o roteiro maluco
O tiro, o abismo, o sufoco e o susto

Como é que as coisas não têm alicerce?
Um evento apenas vem, e pronto, acontece?
Como é que vamos crer no que vemos?
Se todo baque pode ser desfeito pelo vento?
Se o passado não prepara o terreno do terremoto
Se o retrovisor não balança, cadê a moto?

O monstro não tem força
Porque sua anatomia é qualquer
Seu equilíbrio é todo à toa
Tanto faz o que der e vier

O famoso drama familiar
Aqui nada mais que conveniente
Aqui nada mais que condescendente
Aqui nada mais que apelo gratuito
Aqui nada mais que barato intuito
Ai, famoso drama familiar

Se não há primor, não há sabor
Toda cor é só, a narrativa vira pó
O que se tem é o que se terá sempre
Ninguém se prende ao que se entende complemente

A fotografia é tão saturada e irregular
O preto do couro é preto do cabelo e do botão
O vermelho do batom é o do sangue e o da paixão
Não há contrastes que diferenciem o “sim” do “não”
Tudo é perdido, sem ser achado, nessa insossa confusão

O trio que era para ser o atrativo principal
No fim, é descartável, apático, banal
Nada de muito especial chega a ser realidade
Até a luta, a tensão, são insuficientes decalques
Figuras apagadas de algo que não ecoa originalidade
E se o fizer, é toda corroborada pela inegável mediocridade

Afanaram, sim
O que nos faria ficar
Afanaram, sim
O que poderia nos intrigar

Crackle e mais uma produção só sua
Que pena que ela não é boa nem coberta nem nua
Nem na base, nem em fases, nem em disparates
Tudo soa, parece, arrebenta superficialmente
Crackle, tu tá de brincadeira com a gente?


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