Viajemos, pelo tempo
Sim, não é confusão, é repetição
Tem muito dessa onda na televisão
As ideias originais, ó céus, onde estão?
Vamos ver se, pelo menos, há boa ilusão

Será que o preço do tempo gasto
Do tempo aqui passado não é enfado
Será que embora a base seja ordinária
A mensagem vá além da intriga temporária

Ó, tempo
Deus sob manipulação
Manto de toda uma comoção
Conjuntura de todas as sobrevidas
As vindas, as de agora, as que ainda…
Ó, tempo
Teus laços novamente em foco
Na telinha, com ação, com romance
Com comédia sutil como charme viril
Ó, tempo
Outra pele que te dão, infame ela
Toda fértil, toda ácida, toda bela
Quanto mais te falam, mais te exaustam
O que fazem a seguir é o mais difícil
Fazer bem feito é um baita compromisso

O homem do passado, de outro país
Um homem, de tantas formas, infeliz
Outro homem sorrateiro, da mesma raiz
Destrói, desfaz, extermina e sempre sorri

Um com tanto a conquistar, ainda…
Outro com tanto a desgraçar, ainda?
Um tão simpático e gentil e inteligente
Outro tão prático, escorregadio, intransigente

Vão de um continente a outro
Vão de um século a outro
Vão de um mundo a outro
Ambos perseguidos por seus fantasmas

Há comicidade no peixe fora d’água
E no apelo ideal de ele ser o protagonista
E sua ingenuidade é o brilho da produção
E sua proatividade é a melhor coisa na pista
As adaptações e os contrastes são lindos
Em todas as suas formulações, límpidos
Eficazes, envolventes, apaixonantes
Isca que dá certo, âncora de interesse

Por outro lado, o outro caso
É perdido no meio da narrativa
Tão oculto que fica meio dispensável
Só aparece para ser um homem de um só lado
Só aparece para continuar o que já foi mostrado
Esse é, de longe, o maior dos amargos pecados

Das escolhas certas
As passagens sinceras
Os diálogos na medida certa
Apesar da exposição exagerada

Das escolhas tão incógnitas
As economias nas melhores horas
Os impulsos que, por quê, ficam de fora

Os conceitos elaborados
Os focos a serem destrinchados
Os mistérios ricamente arquitetados
Tudo isso fica fora do primeiro recado
Até porque a força desta não está aí
Mas será que há força sem que seja assim
Será que o intimismo e o minimalismo rendem?
Será que só com isso se pode nos fisgar e ir além?

Lamentemos, então
Porque mesmo com a doçura
Do moço no meio dessa estrutura
E uma proposta amorosa decente
O resto do escopo não é atraente
E até o que vem, bem, no fim
Não é tão estonteante assim
O escopo além da obviedade
É insuficiente de verdade
Não há para onde correr além do centro
Não há sementes a serem levadas pelo vento
Não há riscos que sejam frutos do tempo

ABC com uma série sem classe
Não por ser ruim, mas, apenas, básica, praxe
É o que já vimos antes em melhores condições
É condensação desprovida de grandes questões
ABC com dois homens no centro e pronto
Uma dualidade que nem é tão pertinente
E, realmente, nada da relação é instigante
Os micos do mais bondoso são mais cativantes
Mas será isso um apreço tão duradouro quanto vibrante?


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