Como posso ter contado uma história sem sair do meu ninho, sempre sozinho, à espera de ninguém? Como ainda tenho esperança de contar tal memória, se não a vi outrora, nem sei se a vivi chorando… ou sorridente? Como ouso rimar com este caso, com cada vírgula e abraço, se sinto um arrepio inexistente?

“Em minhas desventuras, pequenos prazeres saem dos arbustos; eu sorrio levemente.”

Havia um menino sentado no batente, na tarde de uma sexta-feira. De duas uma, ou ele era muito corajoso, ou não sabia no que estava se metendo. Não sabe que encostar o traseiro nestes lugares, neste exato dia da semana, é pedido de maldição? Pelo semblante de abandono, o estômago vazio e as mãos petrificadas, o menino não tem pais atenciosos, não o suficiente para alertá-lo sobre os perigos dos mistérios trazidos de outras vidas.

A porta da cozinha está aberta, por ela entra vento, poeira, galinha, cachorro, um pouco de sol escaldante e mensagens distorcidas oriundas do carro de som. Só não entra esperança, que sempre é motivo de piada, realidade forçada, positividade exacerbada. Por mais abençoado que o dia seja, a melancolia reina sem pedir licença. Apenas se faz presente, recorrente, persistente.

Noto, no olhar avermelhado, um horizonte peculiar. Seria esse menino um sonhador? Seria ele mais um dos loucos que não se contentam com a vida que têm? Seria ele tão imprudente? Confesso que tenho até medo de averiguar, mas não paro nas suspeitas, afinal, a curiosidade é um dos meus vícios mais alimentados. Quando me aproximo, quase lambendo os cílios do moço, tenho a certeza mais surpreendente da ocasião; ele é, sem tirar nem pôr, um portador do vírus do orgulho e autoestima preservados.

Mas por que tão triste se não vai desistir tão cedo? Talvez toda essa calmaria assombrosa seja uma demonstração de inteligência. Já ouvi falar das pessoas que guardam suas melhores partes para ambientes que as merecem. Seria esse menino um caso de livro que não deve ser julgado pela capa? Se sim, na verdade, são duas capas: aparência e emoção. Se estiver certo em minhas considerações. Ele é uma espécie de camaleão, que mergulha na atmosfera atual para proteger sua maior riqueza, a única coisa que não requer recursos óbvios para lhe pertencer.

Logo, todos os indícios da sentença final são, essencialmente, camadas de sagacidade que carregam algo promissor e muito íntimo para ser totalmente assimilado por escravos externos.

Sem parentes aparentes, sem brinquedos; apenas com o dedo e a terra, ele escreve e imagina. O barro dourado está tão quente quanto os seus pensamentos, ele não se incomoda em queimar as extremidades, pois cada segundo se expressando da maneira que pode é um presente incalculável, já que também é sinônimo de fuga da realidade que o cerca. São formas que não lhe ensinaram, visto que ele mal frequentou a escola. Diferente do que se espera de alguém tão machucado, ele comemora vividamente ao conseguir materializar suas ideias e, ao transbordar um tipo de felicidade pura, expande as rachaduras nos lábios desnutridos.

A barriga faz barulho, as costas doem, o corpo reclama, mas ele não para. Eu o admiro tanto. Eis os porquês.

1º. Porque seu sofrimento é uma das coisas mais belas;

2º. Porque sua teimosia ultrapassa a minha;

3º. Porque tudo que ele faz é um reflexo do que eu teria feito;

4º. Porque sem essa visão sobre dele, eu não seria alguém melhor;

5º. Porque não posso seguir em frente sem olhar para trás;

6º. Porque nada que é gratuito é realmente da gente;

7º. Porque para entender um dilema, não é preciso vivê-lo;

8º. Porque sentir-se mal não é tão mau quanto se pensa;

9º. Porque as feridas serão cicatrizadas… se formos em busca delas.

Agora, espero que compreenda, se identifique, repense suas reivindicações. Se pergunte, quantas vezes achar necessário, até ter certeza de que se ama incondicionalmente e que tem forças para levantar a bandeira do que está fazendo. Quero que se olhe, explore sua casca, repita o nascimento, valorize seu momento.

Agora, depois da história, quero que escreva a sua, sobre quaisquer degraus que tiver que subir, diante de qualquer pessoa. Quero que seja, independente de onde esteja, o melhor que puder ser, sem duvidar de que isso é o melhor a fazer.

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