No meio da estrada, um amor esbarra no outro; prontos para disputar pela minha devoção, começam uma tempestade, sob a qual não tenho controle. Olho para a esquerda e vejo, quase completamente coberta pela bagunça emocional que se formou rapidamente, uma placa que indica onde estou. Demoro a entender, mas já sei que não me encontro em uma localização aleatória, pois ela ganha um significado claro e perturbador. Estou no lugar certo para testemunhar meu crescimento, resumindo, estou amando, ainda mais. Não há porque olhar para a direita, afinal, nada é mais valioso do que esse confronto. Por alguma razão que não consigo apontar, essa euforia silenciosa dentro de mim não me deixa tão desesperado quanto deveria.

Até o momento, o único amor que eu tinha era aquele que foi nutrido pelas pessoas que me criaram. Desde o nascimento, ele foi cultivado graciosamente ao longo dos anos dourados da infância, quando tudo era tão fácil quanto encaixar formas geométricas em seus respectivos buracos. Outros tipos de amores, principalmente o que encaro agora, eram apenas figuras distantes, perdidas nas camadas de inocência, aquelas que me faziam perceber o mundo desprovido da confusão que me possui, lentamente, atualmente.

Sentir essa briga de titãs é, acima de tudo, um alívio, visto que eu não me julgava capaz de ser instrumento de tais sentimentos. Talvez, este seja o melhor engano da minha vida, talvez, quando o céu for azul novamente, eu possa dar menos espaço para pensamentos negativos em meu coração. Eu pensava que nada mais iria vir até mim sem que eu precisasse sacrificar minha integridade, mas parece que continuarei a rir dos erros que cometi sobre ao confeccionar minhas presunções de destino. Mesmo encharcado, abrigo um calor que não se acanha.

O novo amor vem para me mostrar que, ao acreditar que não havia mais nada a ser colocado no meu catálogo sentimental, estava equivocado, a partir do começo. Essa nova parte de mim traz consigo o poder de desconstrução, que invalida as concepções amadores firmadas quando eu não conhecia minhas aberturas para uma sensibilidade maior. Sendo o mais popular de todos do seu tipo, esse amor carrega uma voracidade assustadora, que além de causar o surgimento de desejos estonteantes, me faz ver mais um arranjo na sinfonia da felicidade.

Errei, mais uma vez, quando disse que o amor familiar era o único que estava comigo antes da chegada da minha aquisição mais recente. O amor próprio é tão onipresente e insubstituível que nem se preocupou em entrar na batalha. Ele sabe coisas que eu nunca imaginei, como o fato de nenhum dos amores se sair vitorioso, já que não há como evitar a consolidação de novos ingredientes do futuro eu. Errei ao esquecê-lo, e por justificar esse esquecimento porque ele nunca precisou demonstrar seu poder para que eu usufruísse da sua existência. De algum modo, até mesmo nos episódios em que eu simplesmente refutava sua influência sobre meus atos, ele não desistiu. O amor que chega é parecido com o que nunca me abandonou, ambos são constituídos por um senso de persistência e vivacidade que, ao extremo, ultrapassa os limites da estupidez.

Depois que o vendaval se tornou uma leve brisa, a chuva se despediu e os dois amores se abraçaram, pude, com o auxílio de uma nova mente, compreender a verdadeira importância da colisão de meus amores. Esse sentimento é tão complexo e árduo para nós, humanos que, ser dominado por somente alguns deles não é viável para aqueles que cogitam alcançar um nível confortável de satisfação. Mesmo variando de pessoa para pessoa, a necessidade de um grande leque de amores é um aspecto não ignorável de nossas jornadas; independentemente da raça, posição social ou qualquer outra categoria, ser um espectador de diversas disputadas emocionais é um dádiva que muitos têm, mas à qual nem todos se entregam.

Não estou apressado para o próximo embate, entretanto, o aguardo com uma ansiedade incomum, que não é refém da hesitação de antigamente, nem me deixa cair nas poças do regresso. Em frente, aos poucos, amo mais, sou mais.

9661339950

Inspirado no filme “Legend” (2015)

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