A inspiração, seja lá de onde ela vem, surge de maneira extremamente ordinária. Espontânea ou induzida, ela representa, do começo ao fim da vida do artista, algo esplendoroso e único, já que é o nascimento de mais uma de suas ramificações criativas. Este momento, por mais íntimo que se manifeste, logo se torna parte do ambiente, das pessoas com as quais o autor se relaciona e do filtro utilizado pelo mesmo para assimilar as transformações protagonizadas pelo mundo. A inspiração, portanto, é mais do que uma pausa mágica no decorrer da execução dos planos; ela é um marco, um motivo de celebração, por fim, ela é a certeza de que persistir na crença de que somos estrelas vale a pena.

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Contudo, há uma transcendência incontrolável quanto aos limites primariamente estabelecidos pela ideia. Este fenômeno fere as expectativas de seu criador positiva e negativamente, uma vez que os rumos tomados podem ou não refletir a sensação causada durante a aparição do pensamento. Na escrita, na pintura, na composição musical e corporal; toda forma de arte é refém das possibilidades que hospeda desde a sua chegada ao cérebro de seu cultivador. Assim, sem que possamos reger, padronizadamente, os trilhos percorridos por nossas inspirações, ou aprendemos a nos adaptar aos ritmos que elas adotam ao longo de seu desenvolvimento, ou corremos o risco de nos perder em sua essência.

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A calma, pelo menos nos primeiros instantes, não é a maior das virtudes. Funcionando tanto como uma aliada para a preservação do sentimento de competência, quanto como uma certificação de que estamos no caminho certo, a pressa raramente é sinônimo de erro, apesar de sempre significar imprudência. Logo, é imprescindível se preocupar com o que está sendo acelerado, pois uma conclusão primorosa só é viável quando há uma sequência de etapas constitucionais que prezam pela conservação da qualidade. Em uma sociedade onde a imediaticidade das coisas é cada mais mais comum, é exigido do artista que ele estabeleça uma linha tênue entre a excelência do seu trabalho e a velocidade com a qual ele é feito.

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O roteiro começa com a ideia, é seguido pelo frenesi, mas as complicações são realmente palpáveis quando as alterações intuitivas começam a entrar em cena. Ora pequenos e pouco geradores de dor de cabeça, ora donos de dilemas que corroem a disposição da pessoa, os retoques que se fazem indispensáveis ao longo da moldagem da inspiração são elementos decisivos para a imagem final. Entretanto, esses ingredientes dinâmicos se equilibram sobre conceitos muito delicados, que podem levar o autor à um nível de autoestima admirável, ou condenar sua satisfação quanto à o que é desenhado. Se a segunda opção se concretiza, a rota até o desfecho fica turva, e os sorrisos esmaecem.

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Quando a dúvida sobre o tom correto para a arte ganha força, não há como manter a sanidade durante a criação. O constante questionamento sobre cada curva no processo não só prejudica a continuidade racional do conteúdo, mas se associada à falta de paciência abordada anteriormente, forma a receita perfeita para uma avalanche de decisões precipitadas e desprovidas de prazer. A dor é uma imensa e revelante esfera da nossa atividade emotiva, mas assim como todas as outras vertentes do nosso intelecto, ela não pode ser aproveitada sem antes passar por qualquer lapidação, que tenha como objetivo tornar a experiência menos danosa.

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Ao nos identificarmos como escravos de nossas vulnerabilidades, podemos escolher entre duas saídas: A redenção, a aceitação dos erros e o recomeço; ou a desilusão, o desespero e a desistência. Já que falamos de arte, a relatividade nunca é demais, por isso, nenhuma das duas soluções é absoluta, e a sua eficácia depende exclusivamente de quanto amor é empregado na mesma. Da linha de partida ofegante às complexidades benéficas e atordoantes, fazer arte não é nada fácil. Amador ou aposentado, o artista não se conhece completamente, então, precisa confiar na capacidade do seu desconhecido de lhe reerguer quando ele cair, toda vez que ele cair.

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A única mudança, ou talvez a mais nítida, na vida de uma artista é a sua visão através das perfeições naturais; aquelas presentes na inspiração intocada, virgem, serena, crua, verdadeira. Quando iniciante, o artista tende a ignorar a valiosidade dessas pérolas. Todavia, ao escrever, compor, pintar, dançar e viver mais, a habilidade de apreciar tais monumentos cresce junto ao poder de manipulação do criador sobre a sua criação. O amor por o que é feito desabrocha, amadurece, envolve muito mais do que o momento sagrado, e ultrapassa as barreiras do idealismo.

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No sufoco da existência ou na plenitude da harmonia escassa, a extensão humana destrinchada aqui enriquece o interior do ser de uma maneira incalculável. Não importa de onde a pessoa vem, nem quantos baques ela já levou, no final das contas, aquela fagulha chamada inspiração é universal, é a chave para uma felicidade que não precisa de muitos antecedentes. No final, a extensão humana em relação à arte é uma ponte que leva a pessoa até sua extremidade mais lúcida. Visto de lá, tudo é menos impossível.

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Nos perdemos na emoção
Nos encontramos na emoção
Damos razão à falta de razão
Glorificamos todo tipo de coração

Um toque
Uma pele
Um olhar
Um sensação
Uma amizade
Uma eternidade
Um desejo
Uma transformação
Um afeto
Um talento
Um palco de carne e osso
Um des-contentamento

 

 

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