Nem sempre nos vemos, de uma forma ou de outra, aptos a expressar nossos sentimentos, sejam eles ótimos ou insuportáveis. Entretanto, existem episódios de renascimento, conclusão, decisão e reafirmação de alívio. Para isto, assim como em outras ocasiões, nada melhor do que uma trilha sonora que inspire, sustente e alimente a sensação libertadora e predominante.


 

Avicii – Feeling Good

Esta faixa é tão promissora quanto as lançadas anteriormente pelo músico sueco. Ela detém a mesma audácia sonora constituída, principalmente, pela textura sólida da performance vocal que determina a identidade matura da canção. As vibrações estranhas são os degraus perfeitos para a consolidação dos arranjos que pedem características clássicas emprestadas, tudo em prol de um resultado estupendo.

Sem precisar pedir a ajuda clichê do piano, a produção possui um aspecto de profundidade e complexidade, que cresce gradualmente, alinhado à evolução narrativa da música. Apesar de densa, a junção entre o instrumental e os vocais apresenta uma leveza peculiar, que tira todo o peso através da exploração da dor.

Falando, desde o título, sobre sentir-se bem, a obra nos carrega com gentileza, traça um percurso dominado por adjetivos bonitos e acerta em cheio quando pega a natureza como tela para expor o sentimento central.

Criando uma sensação de neutralidade, a canção não precisa ser específica para mostrar que, mesmo se tratando de um novo dia, os fantasmas do passado ainda existem, mas isso não irá deturpar o fato de que a escolha atual é viver bem, sem olhar para o que passou.

O discurso simples, em primeira pessoa, também é um apelo, pois se direciona ao ouvinte em diversos setores, e indaga a empatia do mesmo com a temática abordada. Entre metáforas cativantes que nos levam a pensar em um futuro animador, e construções sonoras estrondosas que remetem à grandeza do sentimento, “Feeling Good” obtém, facilmente, o posto de um exemplar híbrido consistente, que transita entre a versatilidade da música eletrônica e a estruturação das baladas mais tradicionais. Sendo símbolo de otimismo, coragem e superação, a arte se transforma através da análise das derrotas e reconhecimento das novas chances.

It’s a new dawn, it’s a new day
It’s a new life for me
And I’m feeling good

Albert Hammond, Jr. – Losing Touch

Com um ar de acidez e crítica entrelaçado nos versos complacentes, temos mais uma libertação moldada através do uso de citações de acontecimentos naturais. Albert Hammond, Jr. apresenta-nos uma mistura sintetizada de questionamentos idealistas, que cutucam o conduta hostil e egoísta, muitas vezes mais apreciado, publicamente, do que a honestidade e altruísmo.

No entanto, esse posicionamento do eu lírico também é composto pela vulnerabilidade vista na canção anterior. Ele assume, logo no começo de seus versos, que já viveu como as pessoas que hoje são assunto na sua militância por um mundo considerado melhor. Além de organizar, subjetivamente, o que fazia parte da sua antiga rotina, ele aponta o que está fora dos eixos no caminho traçado pelas pessoas e o que seria eficaz no combate da ocorrência desses atos. A narrativa não chega a ser dualista, mas estabelece uma boa relação entre o que deve, ou não, ser propagado.

Com toques agudos e uma voz ligeiramente arrastada, o cantor demonstra o cansaço após o aprendizado e a tentativa de redenção. O baixo ganha uma roupagem ousada e pouco usual; em um ritmo hipnótico, também funciona como atrativo para aqueles que resistem a perceber o que está sendo discutido pelo artista. A sonoridade da faixa é agradável em todos os seus momentos, ascende a relevância das palavras e dá suporte aos versos mais curtos, que por sua vez, não deixam de ser contundentes e marcantes.

Happy here? The rest’s a wreck!
Strangers come, the night begins
Silence weighs a thousand tons
Her youth describes, you’re lost in it

Foxes – Better Love

Indo para o lado emocional, caímos em um mar de sentimentos engarrafados durante o fortalecimento de um relacionamento mais corrosivo que o normal. Foxes entrega uma porção de camadas de intonação, que servem para materializar, nitidamente, o quanto ela tem ignorado em prol da sua permanência ao lado do amado. Contudo, essa hora da verdade é um tipo de adeus passivo, que não necessariamente diz que tudo acabou, mas coloca todas as razões pelas quais isso deveria acontecer… e logo.

Mais forte e ágil nas passagens de um verso para o outro, embora mudando sua interpretação de cada fase, a cantora não tropeça em momento algum, nem quando o progresso dos arranjos exige uma dedicação mais versátil da mesma. Dos relatos do passado às expectativas para o que virá como consequência dessa autovalorização, a clareza do depoimento não poderia ser mais incontestável, especialmente quando focamos no leque de ângulos narrativos utilizados para solidificar os eventos trágicos que geraram tantos pesares.

Ma a excelência da canção fica por conta da sua capacidade de não se portar de maneira agressiva. Seguindo influências dos galhos mais suaves do gênero alternativo, a produção não poupou nuances instrumentais envolventes, que trouxeram uma jovialidade para camuflar parte da raiva embutida nas palavras. A verdade é que, senão fosse por essa doçura sutil, a música não passaria de um vendaval de acusações e perpetuação de rancor.

I cried myself to sleep again
You lie right there, but I’ve learned nothing
I do my best to ease your pain
And here we are, but we’ve learned nothing

And it’s killing me
When I’m in your arms
I forget the darker days
And it’s haunting me
These feet of mine
Won’t let me march away

Miley Cyrus – BB Talk

Ainda sob uma lente mais amorosa, Miley não preza pelo mesmo cuidado com as palavras que a britânica.

Uma faixa de título abreviado, que mostra sua descontração logo no começo e não se sinaliza, em nenhum instante, querer soluções parciais, é tudo o que algumas pessoas sabem exprimir quando não têm mais nenhuma estratégia para empurrar o problema para debaixo do tapete.

O diálogo de via única abre espaço e interliga as estrofes, reforçando o lado informal da canção que, para vermos o lado frágil, precisamos olhar bem de perto. Essas pausas do ritmo não só servem como choques de realidade, já que interrompem as batidas viciantes do resto da faixa; mas também denotam a intenção da mulher de se ver livre do comportamento do parceiro.

A crueldade que encharca todas lembranças e insatisfações descritas na letra são bastante representativas, e mesmo sendo dispostas de maneira singular, não chegam a causar tédio. Enquanto viajamos por inúmeras edições radiofônicas nos vocais, podemos sentir o descaso e desespero que originaram a ação principal. Mesmo sendo direta em suas reclamações, a artista falha quando desrespeita o próximo, usando-o apenas como um objeto de prazer pessoal.

Neste sentido, a sensação predominante aqui não é das mais primorosas, uma vez que ela não significa uma renovação positiva na maneira do seu protagonista lidar com a vida.

Goo-goo tongue down my fucking throat
I mean, even in front of your mom
Dude, as if I’m not fucking awkward enough
I mean, you put me in these fucking situations
Where I look like a dumbass bitch
And I’m not a fucking dumbass bitch
You know, like, I hate all that fucking Pda
I probably hate it more than your fucking friends do
You know, it’s sweet
And you couldn’t be more opposite of my last dickhead
But I don’t know if I can get over the fucking goo

 

OneRepublic – I lived

Se já passamos por realizações maravilhosas, recomeços contagiantes, declarações revolucionárias, percepções esperançosas e exigências prepotentes, é porque nos julgamos merecedores de todos esses modelos de entendimento da nossa existência e suas mudanças de desenvolvimento. Agora, para fechar nossa sessão de pensamentos confortantes, temos uma música que usa a morte como impulso para uma vida mais produtiva.

“I Lived” nos joga para nosso último suspiro, nos dá ideias lindas de como podemos ser mais felizes, independentemente do quão perdidos acreditamos estar. Alternando entre uma arquitetura sonora dramática soturna e vividamente… e um refrão alarmante, a banda não se acanha no fundamento de uma mesclagem que emociona por dois grandes motivos: aceitação e redefinição de mortalidade.

Além de ser uma despedida antecipada, a faixa consegue espalhar esperança ao construir metáforas em cima de acontecimentos que são admirados universalmente. O prestígio, a honra e o orgulho estão entre os principais ingredientes da receita para encarar o final com a certeza de que a jornada, seja ela como for, valeu a pena.

A troca de papel na experiência emotiva, nesta canção, descarta a hegemonia do pessimismo. Se pudéssemos parar de nos apegar à o que nos dizem que é a coisa certa a fazer, não perderíamos nosso precioso tempo lamentado coisas inevitáveis. A proposta aqui é ser quem você quiser, sem se preocupar com quantas gotas de sangue são derramadas cada vez que você vive, enquanto há o que viver.

Hope that you spend your days
But they all add up
And when that sun goes down
Hope you raise your cup
Oh, oh oh
I wish that I could witness
All your joy
And all your pain
But until my moment comes
I’ll say

I, I, I
I did it all
I, I, I
I did it all

 

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