Por engano, meu
Me vi sem saída
Sem família
Sem vida
Sem ficha limpa
Sem voz ativa
Beirando os setenta
Com cara de sessenta
E a alma de cento e noventa
Guardei tanto
Deixei tanto
Vivi não tanto
Tudo por engano
Amei ser solteiro
Até perceber o vazio
Amei ter apenas um caminho
Até perceber estar sozinho
Amei me amar por anos
Até não ter mais porquês
Amei escrever sobre tudo
Até tudo não mais bastar
Já no fim, quase fim
O que faz sentido é caro
Não se compra a esta altura
Não se faz esse tipo de loucura
Não se convida para sair
Nem se espera que se queira
O beijo, o avanço, a atitude faceira
Era para a gente já se conhecer
Tão bem que nem os gases incomodassem
Tão bem, todas as nuances, esquinas
Todos os orgulhos e feridas
Todos os arrependimentos
Talvez eu tenha que pagar a conta
Talvez, se eu quiser, ainda dê tempo
Não sei, não tenho ninguém para perguntar
Tudo que possuo descreve quem sou, nada mais
Minhas artes, meus caprichos, meus deleites e solidão
Minha jornada, meu sucesso, minha linda negação

Anúncios