Inspirado em “Tempo Livre”, de Theodor Adorno


Eu tenho um tempo
E ele é livre
E ele é meu
Eu tenho um sonho
E ele é grande
Também pode ser seu
Eu tenho uma vida
E ela é curta
…Segundo as pessoas
Tem que ser nossa!
Eu tenho um medo
Dele não posso falar
Nem sei se é realmente meu
Eu tenho que ir
Acho que tenho que ir
Pois meu papel é ir
Eu tenho um desejo
Esse é oculto
Mais até que o medo
Mais até que o poder
Mais até que a fome
Mais até que o fim!

No sertão de muitas mortes
Vida com desfecho rápido é uma dúvida
Sossego é uma raridade
Felicidade vem com receio
No sertão de quem se ama
Se cuidar é lei
Se querer tão bem, também
Se quiser ser alguém, ame!
No sertão de veredas de pó
O céu é uma tela perfeita
Para amizades repentinas
E sortudos de esquerda e direita
Nem no sertão de ignorância
Um sorriso é sinônimo de confiança
Respeito é respeito
E honestidade é pilar de homem bem feito
No sertão de todos que respiram
O ar escaldante é rotina
O frio da madrugada é algoz bem-vindo
Cada um tem seu caminho estreito

Eu quero chocolate
Apenas chocolate
Nada mais doce, nem mais escuro
Nada tão delicioso ou delicado
Posso e quero um chocolate
Fruto do momento e da verdade
Brilhante sobre a língua da coragem
Jogado pelas mãos da boa vontade
Eu só quero um mísero chocolate
E não desistirei facilmente
Nem serei enganado mediocremente
Pois a única solução, para mim, agora e sempre…
É o negrinho, docinho, que me faz contente

Teu olhar perfura, maltrata, analisa até o fundo. Descobrimentos
Tua atitude é de louco, cheia de desaforo. Me toca
Teu sabor é peculiar, me faz voar. Sem destino
Tua emoção é genuína, me fascina. De pé no chão
Teu carinho é ferido, mal compreendido. Ainda inteiro
Tua face, nada complacente, de toda gente. Simples

Mal posso me recompor
Me repor
Me colocar no pote
Já quero me fazer útil, almejado. Em cativeiro
Entrelinhas do destino são meus vícios
Adoro brincar com o perigo
Redefinir os moços e seus pêsames
Mal posso parar
Me alertar
Me avisar sobre o que vem por aí
Já sinto o fogo subir, me abrir. Cautelosamente
Aprecio o ardor com o qual me contemplam
Trilho por trilho me mapeiam
Mal posso acreditar
Me experimentar
Já quero ser meu

Na praia, no bosque, no caminhão
Na rua de trás e na brisa do lixão
No beco sem vida, eu nasço
Na batida violenta, me perco no abraço
A liberdade é de todos que a querem
Com um preço impossível de imaginar
A liberdade é de todos que a decifram
Com um preço impossível de redesenhar
A liberdade é de todos que a merecem
Com um preço possível de se questionar

De todas as formas, sou um gladiador
Todos os dias, aumento meu valor
Palavras não podem me derrubar
Não enquanto durmo…
Em qualquer método, sou capaz de retornar
Não importa o fim, sei me virar
Opiniões são como facas
Exceto quando me tenho…

A arte que me modifica…
As mudanças que me governam…
A sede que me acaricia…
A identidade que me enlouquece…
O mundo que me cospe…
O reflexo que me distorce…
O estudo que me conceitua…
A certeza que me exclui…

Posso ter o que quiser
Menos o que puder ter
Posso comer o que vier
Menos o que devo comer
Posso ser o que quiser
Menos o que desejo ser
Que país não é este?
Que vida não é minha?
Qual conclusão não será eterna?

Cansado de dualismos fabricados
Vou para o canto do meu quarto
Chorar enquanto finjo me divertir
Beber as lágrimas quando for hora de sorrir

Longe de todos que realmente me amam
Sou o resultado de tudo que me desintegra
Ainda esperando o que nunca vem
Sou a joia que está sempre no pescoço da fera

E se um dia for o dia que precisamos
Será tarde demais para sermos nós mesmos
E se um dia a carta na manga for revelada
Sobrarão apenas as cinzas do desespero

Eu sou lindo
Só eu não sei
Você se merece
Pena que nunca, a mim, me mostrei

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