Batalhando por plenitude em casa, na rua, na escola e dentro de si mesmo, nosso menino foi até ao limite do penhasco e pulou. Fez isso porque avistou a glória de se conter por mais um tempo, porque embora suas expectativas definhassem antes de chegar à metade de seu propósito, ele ainda tinha forças para se levantar, entre todos os escombros; por fim, pulou porque era a única coisa em sua agenda que realmente valia a pena e não se chocaria com a essência que ele tinha como objeto mais precioso. Acreditando no nascimento do seu verdadeiro ser, ele se entregou à submissão camuflada, passou a interagir de forma passiva com o mundo, enquanto fazia manutenção de seus conceitos e arquitetava a fuga definitiva daquela situação. Após perder o toque familiar, social e pessoal, nosso menino foi capaz de recuperar este último, e desde então, o utilizou para transportá-lo através do percurso mais incerto de sua curta existência. Apesar de jovem, ele já havia vivido emoções extremas, e não saiu de tais crises sem aprender como domar suas reações; ou seja, além de ter o seu próprio apoio, ele possuía o mapa da experiência.

Ando por belos bosques, perigosos…
Vivo e respiro o que me é dado
Mas não aceito, não inteiramente
Sou, por fora, aquilo que desejam
Mas por dentro, mudo constantemente
Visto e me rasgo
Queimo e restauro
Cada amor, cada traço

Sou eu, ainda que marcado
Sou eu, ainda que recolhido
Sou eu, ainda que anônimo
Na fortaleza impenetrável
Do coração para sempre partido

Meia ponte
Meio pote de doce
Meia noite
Meia presa na cerca
Meio triste
Meio da avenida
Perdido?
Meio o que?
Querido?

Contudo, nosso menino jamais foi um mestre da paciência. Logo, ara sobreviver sua meta de permanecer fora do radar, ele precisou encarar demônios e tentações que se mostravam mais resistentes e atraentes a cada provação. Diante de uma discussão na aula de sociologia, uma conversa na reunião de família ou o simples fato de assistir à TV em grupo, os pensamentos divergentes do nosso menino ferviam em sua mente, provocando uma inquietude impressionante. Ele, mesmo sabendo da discrepância entre sua maneira de ver o mundo e a de seus semelhantes e parentes, não conseguia apenas ignorar aquelas atitudes robóticas e imutáveis. Enquanto mordia os lábios, acumulava a raiva que sentia não das pessoas, mas da configuração da qual elas eram escravas, sem saberem do que eram capazes. Nesse emaranhado de pensamentos e conclusões frustradas, nosso menino se saiu vencedor na maioria das vezes, portanto, continuou calado e apenas balançou a cabeça. Entretanto, a complacência nos momentos de excesso de elementos inaceitáveis não era uma manobra totalmente segura, por isso, quando não dava mais para se manter mudo, ele não pôde prender o discurso, e aos poucos, foi soltando pistas sobre seu modo de pensar que, para os bons entendedores, eram mais que suficientes para levantar suspeitas.

Eu me coloco na jaula
Mas a jaula não me quer
A jaula não é pequena
Eu que a vejo assim
Eu que não a vejo em mim
Eu me coloco na jaula
Porque é minha única chance
Meu mais infeliz romance
O tipo indesejado de transe
Quando entro nessa jaula
Eu me coloco na jaula
E sei que posso ir embora
Mas não posso ir lá fora
Só espio pelo buraco na porta
De dentro da jaula
Eu me coloco na jaula
E me encolho como um ratinho
Tento me imaginar tão pequenino
Fraco demais para ter razão
Dono de uma migalha de pão
Toda vez que me manifesto
Com um sussurro
De dentro da jaula

Entre os desvios comportamentais para não revelar muito sobre suas intenções e opiniões, nosso menino também tinha que construir seus sonhos sem permitir que ninguém ameaçasse a integridade dos mesmos, que desde que ele começou a pensar cautelosamente, ganharam mais tentáculos. A corrida lenta não era focada apenas em esconder o que estava debaixo da língua, mas também o que fazia seus olhos brilharem tanto. Considerando a imaturidade do nosso menino, e a sua falta de experiência verdadeira com o mundo do qual ele havia estudado, podemos entender o fato de seus sonhos serem definidos pelos obstáculos com os quais ele tinha que lidar, ou seja, os desejos mais intensos eram justamente aqueles que não poderiam ser alcançados em um período estreito de tempo. Desta forma, a não realização do nosso menino nascia dentro dele mesmo, das suas tentativas de burlar os limites de sua realidade; porém, a fronteira invisível determinada pela sua posição geográfica e financeira ricocheteava a improbabilidade do acontecimento de seus planos magníficos. Perdeu-se a conta, pois esses baques não foram poucos.

Eu confesso
Sou sonhador
Embarco no trem
Sem acompanhante
Sem cuidados
Sem olhar para os lados
Eu confesso
Estou desesperado
Abraço o que vem pela frente
E por um segundo, estou contente
Mas logo me encontro, no beco
No chão, no ponto inicial
No deserto
Eu confesso
Ainda não aprendi muito bem
Nem sei até aonde posso ir
Nem como chegar até lá
Minha pressa é inimiga
É meu gás
É minha única amiga
Eu confesso
Que abrir os braços é bom
Em qualquer caso, é bom
Até que eles doem…
Mas até aí, é bom
Eu confesso

Questões e quedas são partes indispensáveis da caminhada. Nosso menino não deu o primeiro passo com esse tipo de pensamento em mãos, afinal, a entrada nesse ritmo de reflexão foi algo repentino… uma última carta para tentar virar o jogo. Felizmente, os monstros que vieram inicialmente não foram tão aterrorizantes, já que ele identificou, um por um, os melhores mecanismos para se livrar de tais pesadelos sem ter que perder tempo limpando o entulho. A confiança necessária em ser ele mesmo foi o ingrediente que demorou mais a chegar, e mesmo assim, ainda teve que ser lapidado para se encaixar nos padrões de locomoção que nosso menino havia adotado. No entanto, as interferências oriundas de vários setores de sua vida tornavam o equilíbrio mental quase impossível, e assim, nosso menino, inúmeras vezes, perdeu o pouco de certeza que tinha na provisoriedade seus fardos injustos. Ele nunca atingiu 100% do seu potencial de mestre/gestor de seus talentos, pois o passado jamais cessou em lembrá-lo de tudo que havia dado errado. Mesmo ele sendo inocente em todas os cenários, o sentimento de culpa era poderoso demais para que ele pudesse usufruir da liberdade pela qual, ainda hoje, luta.

De pés descalços
Aguardo um milagre
De um deus sem nome
De qualquer fonte
Que queira ter pena de mim

De sorriso no rosto
Acho beleza em qualquer canto
Esse é o segredo do meu ânimo
Mesmo depois de tanto sofrer

De tudo que me tiraram
Ainda resta o que não sei viver
O amor que insisto em renunciar
A felicidade que digo não merecer

De corpo solitário
Sou via de mão única
Com destino ao futuro
Seja ele como for

Nosso menino vê seu futuro como uma tela em branco, numa casa em ruínas. Ora coberta de poeira, ora dançando sob os caprichos da brisa, o futuro muda de tom ao nascer do sol, e quando ele se despede, também. O uso da metáfora não é apenas para gastar memória ou criatividade; se trata de algo mais profundo, mais íntimo do que qualquer outro dilema. Não saber o que estará na tela é um conforto para nosso menino, pois assim ele não precisa chorar antes da hora. Por outro lado, a permanência da tela nesse estado causa um incômodo que, anos atrás, tinha tudo para ser mais uma pedra no sapato do nosso menino. Contudo, não é bem assim. A calma que lhe faltava no auge da transformação vem como os goles d’água numa tarde qualquer: sem complicação, sem peripécias, sem alarde. Nosso menino está, finalmente, em paz consigo mesmo; em paz com a incerteza do futuro, apenas vivendo cada camada de autoconhecimento e suas cores predominantes, pintando a tela… um pincelada de cada vez.

Chegamos
Como eu disse que faríamos
Como eu sempre soube
Mas não aceitava
Chegamos

Sonhamos
Como nossos pais nunca souberam
E como nossos irmãos e primos nos mostraram
Só com um toque de oportunidade
Sonhamos

Vivemos
Como as trocas de rotina nos ensinaram
E como as humilhações diárias fortificavam
Como não visualizamos
Como precisamos
Vivemos

Sentimos
Como só nós sabemos
Como ninguém pode controlar
Como as estações e suas feições
Como os montes e poços
Sentimos

Partimos
Como quem não quer
Como quem já se sente em casa
Como quem está satisfeito
Como ninguém
Partimos

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