Quando o sol finalmente se esconde atrás da montanha, nosso menino já está sentado na varanda de sua bisavó. Com uma mochila e duas sacolas entupidas de tudo que pôde levar. Ele aguarda a chegada de sua avó e pai, que estão à caminho, pois sua tia foi contá-los sobre seu retorno, pedir para que venham concluir o resgate. Além dos pés cansados e empoeirados, uma boca seca e olhos atentos para a esquina, sua aparência estava intacta, mas a cabeça girava como em poucas ocasiões. A construção acelerada de futuros pessimistas começa a ser sua especialidade, mas nesse caso, os níveis de acidez e descontrole estavam impressionantes. Nas profundezas tudo desmoronava, por mais que ele tivesse certeza de que a pior das recepções do lado paterno seria mais suave que a rotina na casa da mãe, foi incapaz de conter sua ansiedade e vergonha.

Vergonha de voltar
De ter rejeitado a obviedade
De ter caído na armadilha
De estar pedindo perdão
De os ter abandonado
De estar vivo, calado.

Nesse cubo imaginário
Preparações acontecem desajeitadamente
O improviso não parece adequado
A honestidade, nem de longe, é eloquente
Nesse monte de um menino só
Blocos de pensamentos sombrios se empilham
Uma muralha nasce
Para proteger o que já foi perdido

No chão que o abraça
O menino perde a graça
Encara a redenção repentina
No colo de uma noite verdadeiramente serena
Sua paixão volta a ser violenta
A chama se torna real mais uma vez

Passos rápidos e expressões vívidas, preocupadas, teatrais. O pai, a avó e a tia se aproximaram sem desviar o olhar do nosso menino, e quase caíram, um atrás do outro, ao ignorar a alteração do relevo. Quando pisaram no terreno da bisavó, a avó foi a primeira a abrir um sorriso, a correr e pegar nosso menino nos braços, o pai apenas repetiu o ato e passou o bastão para a avó novamente. O interrogatório sobre as condições físicas do nosso menino durou pouco, pois as emergências ditadas por eles eram o jantar e a viagem para a casa da vó. Eles perguntaram, repetidamente, se ele estava com fome, mesmo após a bisavó dizer que um lanche caprichado havia sido feito logo após o nosso menino bater em sua porta. Ainda assim, eles insistiram, por todo o caminho, para que ele dissesse o que seria sinônimo de felicidade, em questão de alimentação.

Paz não existe
Se a dúvida existir
A dúvida só existe
Se o cuidado pairar
A atenção de mãe é inegável
Ninguém escapa do seu olhar
Ninguém faz bico sem que ela esbugalhe os olhos
Paz não é um alvo
Quando se é dependente
De quem só pensa em ajudar

Cada passo é um firmamento
Uma queda dos maus pensamentos
Cada toque emana confiança
Funciona como um elemento de esperança

Quanto mais conversa, menos estabilidade
Quanto menos tropeços, mais conformidade
Quanto menos transtornos, mais dignidade
Quanto mais amor, menos crueldade

Eles se importavam, até demais, com o que o nosso menino estava sentindo, mas esqueciam, todas as vezes, de focar em outras dimensões da percepção da criança. Com o passar dos meses, nada em relação ao comportamento dos pais mudou, mas nosso menino desenvolvia novas habilidades sensoriais, ou seja, mais lacunas de assistência apareceram e os pais não tinham o conhecimento e a destreza necessários para preenchê-las. Assim, nosso menino conseguiu os cuidados que faltavam na casa da mãe, contudo, ainda permaneceu deficiente dos cuidados aprofundados, aqueles que vão além da fome e do conforto na hora de dormir e/ou brincar. Assim, ele passou a ser mimado, e não interpretado. Ele era, no geral, tratado como uma máquina, que precisava ser limpa e carregada periodicamente. A sua função, para os pais, era fazê-los ter algum propósito e mérito diante da sociedade. Assim, mesmo sem ter a mínima noção, nosso menino continuava sendo apenas uma ferramenta na inflação do ego de sua família.

Sei como é aí… dentro
Sei como foi… com aquele povo desatento
Sei como o trataram
Como o viram em todos, de todos os lados
Como nada era ruim, se você não parecesse mal
Sei como se sentia, como ria querendo se guardar
Como era tudo que eles esperavam
Como não aguentava mais andar em linha reta
Como só queria algo natural, de dentro, de lá…

E no meio de tanta perdição
Nada se mostrava merecedor da sua luz
Entendo porque pensou em desistir
Entendo porque tentou não se amar

Eles pensavam que o dinheiro era a solução para todas as inquietações do nosso menino, e com essa filosofia, o fizeram interagir com o mundo de uma forma prepotente e irracional. Na maioria das vezes em que alguém tentou se aproximar do nosso menino, ele agiu de maneira hostil, assim como via seus pais se relacionando. Ele foi levado a pensar que o único espaço seguro para ele era junto aos seus cadernos, no canto mais escuro do seu quarto, quando ninguém podia incomodá-lo ou ameaçar a manutenção da sensatez de vidro que ele havia encontrado. Tudo que funcionava sem a interferência da família do nosso menino parecia extremamente inconcebível, pois ele foi criado para ter medo das possibilidades do mundo. A forma com a qual a família do pai o conduziu foi inspirada em um pensamento arcaico, onde a restrição era ponto de partida na determinação de qualquer regra, independentemente do assunto ao qual ela se aplicava. Portanto, nosso menino aprendeu a se isolar em cúpulas porque foi assim que sua família o instruiu. As camadas de rejeição da realidade começaram a ser introduzidas em sua vida a partir do momento em que ele não podia sair de casa sem a supervisão dos mais velhos, e ainda por cima, não podia se entreter com certos tipos de objetos, nem mesmo fazer certos tipos de perguntas.

A gritaria aqui é outra
Tão enlouquecera quanto a outra
Tão corrosiva quanto a outra
Tão imprópria quanto a outra

O medo aqui é outro
Tão recorrente quanto o outro
Tão intenso quanto o outro
Tão insistente quanto o outro

A incoerência aqui é outra
Tão inconsequente quanto a outra
Tão condenável quanto a outra
Tão absurda quanto a outra

Nosso menino foi fruto de uma rebeldia. Sua existência foi costurada, desde o princípio, por dois tipos de linha totalmente diferente, que se chocavam e não buscavam, em hipótese alguma, fórmulas de conciliação para um bem maior: a integridade de uma nova geração, do nosso menino.

Quando eles se clarearem
Não serão capazes de brigar
Não terão fôlego para a guerra
Não estarão mais no poder
Quando eles se clarearem
Ele já terá saído da aurora turva
O ciclo não será repetido
Não enquanto ele viver

Mais tarde nosso menino veio a assimilar que nem mesmo a casa de sua mãe, [a que ele abandonou por causa da opressão] onde a liberdade era sem limites, se classificava como um local bom; nem para ele, nem para os irmãos. Já que ele não tinha mais opções, nosso menino recorreu a si mesmo para suprir as necessidades que nenhuma de suas duas famílias conseguiu identificar, quiçá eliminar. Como contraponto para a decadência no quadro intrapessoal do nosso menino, se um elo denso de confidência tivesse sido estabelecido entre ele e, pelo menos, uma das famílias, o problema do bullying não escola não teria se tornado uma bola de neve ladeira abaixo. Como ele sabia que não podia contar com ninguém em casa, e na escola os poucos colegas que tinha só o queriam para sugar sua inteligência, ele encontrou na escrita uma forma de desabafar, logo cedo, e construir um meio fluido de transferência de rancor. Seu único parceiro (e confidente) era o diário secreto, que pode até soar clichê, mas teve um efeito inédito com o nosso menino.

Sem lupa, sem condução
Sem GPS, sem outra mão
Dois ombros encharcados
Dentro do menino, um lixão

Sem o que mais precisa
Sem a mais vital das brisas
Sem aquela ordem
Sem aquele pedaço de terra
Sem aquele assento feito de carne
Sem uma pergunta não programada
Sem uma senha que afaga
Sem o sinal que alegra
Sem a corrente
Só com uma esfera

Apesar de ter alimentado, por muitas luas, um sentimento impuro sobre o que faria com aqueles que o oprimiam na escola, nosso menino, ao se aproximar da idade adulta, veio a perceber que vingança seria um ônus para sua saúde mental. Hoje, ainda sob os cuidados da família do pai, ele se movimenta com cuidado, para não revelar muito sobre sua essência que possa prejudicar seu futuro acadêmico e profissional. Hoje, nosso menino ainda vive sob uma máscara, mas sabe que ela existe e é tóxica quando usada contra ele mesmo. Hoje, nosso menino acredita que pode ir mais longe, mesmo depois de ser apenas um brinquedo nas mãos de suas famílias. Hoje, até mesmo após perder tanto com a inexistência de laços fortes, ele busca métodos de reabilitação interior, visando corrigir, aos poucos, os erros proporcionados, original e inteiramente, pela incoerência psicológica utilizada nas manobras de ira de seus progenitores.

Entre rios e montanhas
Nasci e fui manipulado
Não viram quem eu era
Não deixaram eu descobrir
Não me deixaram apenas ser

Entre Maria e José
Sou outro ícone do sertão
Outra alma inquieta
Com pedras e espinhos no coração
Por fim, semeando o perdão

Entre ontem e hoje
Sou uma distorção feliz
Por fim, me sinto pleno
Agora, sou eu quem me diz…
Quem amo e em quem confio
Quem me salva e quem vejo definhar
Por quem choro e por quem paro para pensar

Quem reinará, talvez, me priorizará

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